Cinema

Srebrenica, 25 anos depois

| 15 Jun 21

Quo Vadis, Aida? tem o dom de despertar consciências.

 

Vi há poucos dias na televisão que foi confirmada a condenação do general sérvio Ratko Mladić, responsável pelo tenebroso massacre de Srebrenica, na Bósnia-Herzegovina. Por coincidência, tinha ido ver, na véspera, o filme Quo Vadis, Aida?, precisamente sobre esse momento terrível vergonhoso da nossa história europeia, apenas há 25 anos, em 1995. Não resisti a escrever duas breves notas, mais indignadas do que cinematográficas.

Aviso, desde já, que não é um filme recomendável: pode levar o coração mais indiferente à comoção, tal a desumanidade e a monstruosidade do que passa diante dos nossos olhos.

Acrescento, no entanto, que é um filme de visão obrigatória para todos, a começar pelos mais jovens que nem sequer têm memória destes acontecimentos, apesar de tão recentes. E porquê? Porque era fundamental que tragédias hediondas e desnecessárias como esta não voltassem a repetir-se. E, infelizmente, para nossa vergonha, continuam a acontecer, de maneiras várias, em muitos lugares do nosso Mundo, desta Casa Comum que devia ser da fraternidade e da paz, da amizade e da justiça. Pelo menos.

Como escreve o Papa Francisco na Fratelli Tutti – e como ele próprio testemunha na sua capacidade de abrir-se e dialogar com todos: “Não podemos permitir que a atual e as novas gerações percam a memória do que aconteceu, aquela memória que é garantia e estímulo para construir um futuro mais justo e fraterno”. E também: “Sem memória nunca se avança; não se evolui sem uma memória íntegra e luminosa. Precisamos de manter viva «a chama da consciência coletiva, testemunhando às sucessivas gerações o horror daquilo que aconteceu», que assim «aviva e preserva a memória das vítimas, para que a consciência humana se torne cada vez mais forte contra toda a vontade de domínio e destruição»”. (FT, 248-249)

Devemos então estar muito agradecidos à realizadora bósnia Jasmila Zbanic pelo presente deste filme, assinalando os 25 anos dessa inominável desgraça. Aida é uma personagem ficcional, mas inspirada na experiência concreta de um tradutor bósnio que trabalhou para a ONU. Nunca mais esqueceremos o rosto daquela mulher, daquela mãe, daquela esposa, daquela vizinha, completamente impotente para salvar sequer os seus filhos e marido, quanto mais a imensa multidão dos que tiveram de fugir das suas casas e tentar proteger-se junto do quartel dos capacetes azuis, holandeses naquele caso.

Não esqueceremos esse rosto marcado pela impotência e pela raiva, como não esqueceremos o cinismo e o prazer do poder, a soberba e a falta de compaixão dos soldados sérvios, impantes, a deliciarem-se com o pavor dos outros.

É um filme em tensão, do início ao fim, não nos dá descanso, faz-nos sentir tão impotentes como Aida e todos os que vão ser mortos e abandonados. Só nos resta perguntar, incrédulos: como foi isto possível, em plena Europa? Porquê aquela incapacidade das Nações Unidas? Teria sido possível fazer mais? Ficamos sem saber se foi por ingenuidade ou por falta de força militar aquela entrega dos bósnios-muçulmanos, os homens para serem executados sumariamente, as mulheres para serem levadas para longe da sua cidade. Os soldados holandeses parecem pouco mais do que adolescentes, e os chefes desapoiados e perdidos.

São muitos os sentimentos que a realizadora sabe provocar-nos ao longo da história, mas sente-se que não foi o ódio a motivá-la a fazer o filme; apenas a indignação pelo que aconteceu e, certamente, o apelo para que não volte a acontecer nunca mais.

“O perdão não implica esquecimento. Aqueles que perdoam de verdade não esquecem, mas renunciam a deixar-se dominar pela mesma força destruidora que os lesou. Quebram o círculo vicioso.” (Fratelli Tutti, 250-251)

Não é um filme recomendável, digo mesmo que é difícil, mas é fundamental que nos deixemos confrontar pelo mal que somos capazes de fazer.

 

Quo Vadis, Aida?, de Jasmila Znanic
Título original: Quo Vadis, Aida?
Com Jasna Djuricic, Izudin Bajrovic, Boris Ler
Drama, Histórico, Guerra
FRA/POL/HOL/Bósnia/NOR/ALE/Áustria/ROM/Turquia, 2020
Cores, 101 min., M/14.

 

Manuel Mendes é padre católico e pároco de Esmoriz (Ovar).

 

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