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Antigo assessor de Trump, Steve Bannon não podia ser mais claro: "Vou derrubar o Papa Francisco". Na imagem, Bannon no filme "The Brink". Foto © Thor Brødreskift/Nordiske Mediedager-Wikimedisa Commons.

Documentos de Epstein

Steven Bannon terá feito diligências para derrubar o Papa Francisco

| 17/02/2026

 

Os anos de 2018 e 2019 foram um período de ventos tempestuosos contra o Papa Francisco, mas a publicação de milhões de páginas da documentação do falecido milionário e traficante de raparigas Jeffrey Epstein revelam sinais de que Steve Bannon, o antigo assessor de Trump no seu primeiro mandato, buscou apoios e fez diligências com a intenção de derrubar o Papa.

Informações tratadas jornalisticamente pelo diário The New York Times e publicadas na última segunda feira, 16 de fevereiro, mostram que Bannon e Epstein colaboraram e tiveram relações de grande companheirismo desde 2017 até à morte de Epstein, em 2019. “Apesar da toxicidade de Epstein, Steve Bannon apoiou-o”, salienta, em título, a peça daquele jornal.

Um porta-voz de Bannon procura defender a tese de que ele mantinha com o amigo uma relação puramente profissional, como consultor em comunicação estratégica, e com vista a preparar um documentário vídeo que contribuísse para a defesa de Epstein. Porém, a profusão de mensagens trocadas entre os dois fazem alusão a ofertas de prendas para Bannon e o filho, ao uso do jato privado do traficante de raparigas, assim como de alojamento nas casas deste, quer em Manhattan quer em Paris.

O jornalista Cristopher Lamb, correspondente do Vaticano para a CNN International, deu-se ao trabalho de vasculhar e analisar as referências ao Papa Francisco, nas largas centenas de mensagens trocadas entre Bannon e Epstein, constantes do acervo publicado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos da América, em 29 de janeiro último.

Neles se deteta a intenção do antigo consultor de Trump de reunir financiamentos e criar outras condições para combater todas as personalidades e organizações que pudessem constituir um entrave ao nacionalismo populista e, em geral, à ideologia de extrema-direita.

Numa mensagem de junho de 2019, ele não podia ser mais claro: “Vou derrubar o Papa Francisco. Os Clintons, Xi, Francisco, a UE – vamos lá, irmão”, escreve, dirigindo-se a Epstein, cerca de um mês antes de este vir a ser preso.

Essa mensagem insere-se num emaranhado de outras, que os jornalistas têm identificado como configurando a reunião de condições, nomeadamente financeiras, para a criação de um amplo movimento populista internacional. Essas diligências terminaram abruptamente, quando Epstein foi preso ao aterrar nos Estados Unidos no seu avião, proveniente de França. Ainda teve tempo para um sms que dizia: “Tudo cancelado”.

Bannon considerava que, na sua estratégia no plano internacional, Roma e Itália desempenhavam um papel importante, tendo criado ali uma filial do jornal que dirigiu, o jornal Breitbart, de que foi diretor.  Christopher Lamb recorda que Bannon era, há muito, extremamente crítico de Francisco, tendo-o classificado como “desprezível”, numa entrevista dada ao Spectator, e terá mesmo instado Matteo Salvini, então vice-primeiro-ministro da Itália, a “atacar” o Papa. Propunha-se, além disso, criar no coração de Itália, num convento abandonado, não muito longe de Roma, aquilo que designava por “escola de gladiadores” para treinar futuros dirigentes políticos na “defesa dos valores judeo-cristãos”.

O correspondente da CNN refere ainda que Bannon desenvolveu esforços para adaptar ao cinema o livro de Frédéric Martel, O armário do Vaticano: Poder, hipocrisia e homossexualidade (Sextante Editora, 2019), saído na mesma altura, que procuraria concretizar como arma de arremesso contra Francisco, sob o pretexto de “purificar a Igreja”. Chegou ainda a contactar o autor do livro, mas o projeto acabou por se gorar.

O padre Antonio Spadaro, que foi um colaborador próximo do Papa Francisco, comenta para a CNN as mensagens de Steve Bannon, salientando que elas revelam um desejo de fundir “autoridade espiritual com poder político para fins estratégicos”. Francisco resistiu a essa ligação: “O que essas mensagens revelam não é meramente hostilidade em relação a um pontífice, mas uma tentativa mais profunda de instrumentalizar a fé como arma – precisamente a tentação que ele procurava desarmar”, sublinhou Spadaro.

Na troca de mensagens entre Bannon e Epstein, o primeiro envia ao segundo cópia do artigo de um artigo no qual o Vaticano condena o “nacionalismo populista”. Na resposta, Epstein cita o livro Paraíso Perdido, de John Milton, no qual Satanás é expulso do céu; e acrescenta a sentença diabólica: “Melhor é reinar no inferno do que servir no céu”.

 

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