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STOP nas nossas vidas: Parar e continuar

STOP nas nossas vidas: Parar e continuar

by | 19 Jun 20 | Lugares, Sete Partidas, Últimas

Newland, North Carolina, USA.Foto © Luís Castanheira Pinto

 

Cheguei a esta cidade onde agora vivo em Novembro do ano passado. Sozinho. A família veio depois, a seguir ao Natal. Estamos todos em Washington D.C. há cerca de 5 meses.

Ao chegar aos EUA tive que tirar a carta condução novamente. De raiz. Estudar o código. Praticar. Fazer testes. Nos EUA existe um sinal de trânsito que todos conhecemos. Porque é igual em todo o mundo. Diz “STOP”. Octogonal, fundo vermelho, letras brancas. Maiúsculas. Impossível não ver. Todos vemos. Nada de novo. O que me surpreendeu desde que cheguei aos EUA, é que aqui todos param num STOP. Mesmo. Não abrandam. Param. O carro imobiliza-se. As ruas desertas, sem trânsito. Um cruzamento com visibilidade total. Um bairro residencial. E o carro imobiliza-se. Não abranda. Para mesmo. E depois segue.

Estranhei. É mesmo necessário?…

Os primeiros tempos por aqui foram engolidos pela vertigem da descoberta. Do novo. A casa nova, a rua nova, a escola nova. Os supermercados que desconhecemos. Não sabemos a ordem das prateleiras. Os nomes das ruas. As lojas sem identidade. Os sotaques de uma língua que afinal não aprendemos. O GPS sempre ligado, continuamente perdidos que andamos. A ausência de referências. A busca de experiências passadas que ajudem a descodificar. É preciso esperar na fila? É aqui que se estaciona? Dizemos bom-dia? É costume separar o lixo? As bicicletas andam na estrada? Convidamos os vizinhos?… A mochila de vivências anteriores não ajuda. Apesar de extensa, é limitada. Dá-nos respostas que conhecemos. Não necessariamente as que procuramos. Nem sequer as necessárias. Na verdade, porque não são as respostas que importam. São as questões as que mais valem. É o fascínio de não saber. O fascínio delirante de não saber, de não conhecer. A adrenalina em jorros à procura de sentido. Dos sentidos.

Depois, vêm os lugares que desembrulhamos, como prendas de Natal. Um a um. Revelando cada qual uma surpresa e uma expectativa bem guardadas. Secretas. A Casa Branca. O Capitólio. Nova Iorque. Anápolis. Mount Vernon. Alexandria. Cheaspeake Bay. Cherokee National Forest. Os planos intermináveis de outros sítios a explorar. E mais outros. E ainda mais estes. O carro comprado para viagens. A Primavera a prometer aventura, liberdade. A imaginação a fervilhar de imagens revividas nos écrans. As pastagens dos índios americanos. As explorações de algodão a sul. O bairro francês de New Orleans. Os grandes lagos do Michigan e os imensos parques nacionais. As caraíbas mesmo aqui ao lado e o Hawai mais perto do nunca. Ficamos por aqui?

E claro, um trabalho novo. Caras novas. Gente de muitos outros lugares. Só na minha equipa, Serra Leoa, Uganda, Holanda, Etiópia, Estados Unidos, França, Uzbequistão, Afeganistão, India, Nigéria, Taiwan, Filipinas, Indonésia, Ruanda, Senegal, Polónia. Esqueço-me de alguns. Não importa. Na realidade, não interessam as nacionalidades. Interessam as vidas de mulheres e crianças que se procura salvar. Uma pretensão arrogante, altiva, ilusória talvez. Mas mobilizadora. Terrivelmente mobilizadora. As horas que voam num sufoco de urgência. O peso da relevância e do sentido. Sentir-me parte deste novo mundo profissional faz-me sentir bem. Útil. Necessário. Desejado. Um egoísmo mal disfarçado num projecto maior que tudo isto. As viagens já alinhadas. O contacto directo com quem mais precisa. Sentir a necessidade da presença. Ir lá. Estar lá. Com eles. E o Deus em que acredito em cada um desses rostos.

Entretanto chegou o COVID-19. E tudo parou. STOP. Não era para abrandar. Era para parar. Mesmo. Porque era mesmo necessário. Doeu fundo. Custou. Mas terá sido talvez mais fácil para quem já sabia parar. Quem aprendeu a fazê-lo. Quem o faz por hábito. Sem planear. Sem pensar em apenas abrandar. Bastando apenas saber ler o sinal STOP nas nossas vidas. Parar. E depois continuar.

 

Luis Castanheira Pinto é licenciado em economia, tem-se dedicado às questões do conhecimento, aprendizagem e desenvolvimento de competências e trabalha no Banco Mundial, em Washington DC (Estados Unidos). É casado e pai de três filhos. Viveu anteriormente no Porto, Lisboa, Bruxelas e Copenhaga.

 

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