
Bibby Stockholm, a barcaça com 222 cabines e capacidade para 500 pessoas que desde agosto deste ano alberga migrantes e refugiados ao largo de Dorset, no sudoeste de Inglaterra. Foto © Ashley Smith, via Wikimedia Commons
As Igrejas e organizações cristãs no Reino Unido são unânimes: é necessário um sistema de imigração que defenda a dignidade humana daqueles que procuram refúgio no país e ter requerentes de asilo “presos” num barco ao largo de Inglaterra não é compatível com isso. Na sequência da morte de um migrante, esta terça-feira, 12, na barcaça Bibby Stockholm – que, segundo a BBC, ter-se-á suicidado – organizações como o Serviço Jesuíta aos Refugiados pedem o encerramento daquela estrutura.
“Estas são as consequências humanas reais da crueldade deliberada e performativa contra pessoas que procuram refúgio no Reino Unido”, disse esta quarta-feira, 13, Sarah Teather, diretora do Serviço Jesuíta aos Refugiados no Reino Unido (JRS UK), citada pelo jornal Crux.
“É hora de pararmos de nos concentrar na política e começarmos a considerar as pessoas cujas vidas são dilaceradas por estas práticas terríveis”, apelou. “O governo deve parar imediatamente de colocar pessoas na Bibby Stockholm e, em vez disso, garantir que tenham acesso a alojamento seguro e digno nas nossas comunidades. Forçar as pessoas a viver na barcaça faz parte de um movimento mais amplo para colocar aqueles que procuram asilo em ambientes de grande escala, institucionais, fora da cidade e em quase-detenção, o que é fortemente contestado pelo JRS UK”, acrescentou a responsável.
O bispo auxiliar de Westminster, Paul McAleenan, responsável na Igreja Católica de Inglaterra e Gales pela área de migrantes e refugiados e questões de justiça racial, disse por seu lado ter ficado “profundamente triste” ao saber da morte de um requerente de asilo a bordo da Bibby Stockholm, barcaça com 222 cabines e capacidade para 500 pessoas que desde agosto deste ano alberga migrantes e refugiados ao largo de Dorset (no sudoeste do país).
“Todo o migrante e refugiado tem um nome, um rosto e uma história que deve ser ouvida. Esta morte, e a morte de todos os que procuram refúgio, é uma tragédia. As nossas orações estão com aqueles que perderam a vida, a sua família e os seus amigos”, afirmou o bispo católico.
“Embora não tenhamos todos os factos da história, é importante reconhecer que precisamos de um sistema de imigração que defenda a dignidade humana fundamental daqueles que se deslocam, dê prioridade à santidade da vida e proporcione acesso a alojamento e cuidados de saúde dignos. Continuaremos a defender isso”, assegurou ainda McAleenan.
Também a bispa anglicana de Sherborne (na região de Dorset), Karen Gorham, assinalou que a morte do imigrante “abalou a comunidade” e que a igreja local e diversos grupos religiosos têm apoiado aqueles que estão alojados na barcaça, com visitas que esperam que se tornem “mais regulares”, pois “o bem-estar de todos a bordo é vital”.
Já Enver Solomon, diretor-executivo do Conselho para os Refugiados, pediu uma auditoria independente do incidente “para que as lições sejam aprendidas”. “Sabemos, pelo nosso trabalho de apoio a homens, mulheres e crianças no sistema de asilo, que muitos estão profundamente traumatizados e se sentem isolados e incapazes de obter a ajuda de que necessitam. Alguns estão tão desesperados que se automutilam e se tornam suicidas”, disse ele.
No passado mês de agosto, o JRS UK havia já alertado que as pessoas forçadas a viver na barcaça estavam sujeitas à sobrelotação do espaço e enfrentavam severas restrições de movimento. “Locais de grande escala semelhantes a prisões como este expõem pessoas que fugiram do perigo a graves traumas; causam privação crónica e quase universal do sono; e levam rapidamente à deterioração da sua saúde mental”, disse então a organização, emitindo um relatório – que tem vindo a ser atualizado – em que as instalações da barcaça Bibby Stockholm são qualificadas como “cruéis e perigosas”.
De acordo com o jornal britânico The Guardian, o porta-voz oficial do primeiro-ministro confirmou que a morte relatada está a ser investigada, mas garantiu que “todos os que chegam à Bibby Stockholm têm uma avaliação médica, são monitorizados continuamente durante a estadia no alojamento e recebem todo o apoio necessário, como seria de esperar”.









