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Salvador Dali: A persistência da memória

[Dicionário particular II]

‘t’ de tempo – porque o tempo pergunta sempre

| 31/12/2025

O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem.
O tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem.

 

O tempo perguntou…e o tempo, sem paciência para adivinhas, respondeu com silêncio, o mesmo que o acompanha desde o tempo em que os dias eram contados com riscos na parede. É assim também connosco, perguntamo-nos ao tempo, como se ele fosse uma pessoa a carimbar minutos e a distribuir horas, e o tempo não responde, não sabe e não fala, o tempo só sabe passar. E nós, especialistas em complicar, confundimos o seu passar com a sua perda.

O tempo voa, sim, pode voar, mas somos nós que lhe damos as asas, enchendo-o de tarefas dispensáveis, de urgências que o não são, de agendas embrulhadas em ansiedade. Queixamo-nos que a vida é um sopro, como se não fossemos nós a soprar. E o tempo, coitado, limita-se a cumprir o seu ofício: avançar. Na verdade, fomos aprendendo a correr atrás de um relógio que nunca pediu para lhe fazermos companhia e, tropeçando nessa pressa, confundimos velocidade com importância, tratando os minutos como se fossem campos de batalha para conquistar alguma coisa.

Sem percebermos somos disputados por dois tipos de tempo e há duas entidades na mitologia grega que podemos utilizar para os definir: Chrónos, o velho tirano, e Kairós, a liberdade e a (des)ordem. O primeiro é cronológico, avança em linha reta, mastiga minutos como quem tritura pedras, apertando-nos o peito como uma fita métrica de obrigações. O segundo é o tempo existencial, o tempo como pausa. O primeiro é de natureza quantitativa, o segundo é de natureza qualitativa. Chrónos é um relógio que diz: “anda” e Kairós é a pausa que murmura: “escuta”. O grande equívoco que cometemos é que nos ajoelhamos demasiado perante Chrónos, como se a vida fosse uma sucessão de minutos obedientes, esquecendo que é em Kairós — esse intervalo de luz em que o mundo parece suspender a respiração — que a vida acontece.

Nem tudo tem de ser extraordinário, memorável, digno de fotografia, precisamos do que é simples: de um café demorado, de uma caminhada sem destino, de uma conversa que é apenas isso, uma conversa. O tempo até aprecia o inútil, porque é no inútil que a vida pode respirar.

Quando paramos, sem desculpas e sem a mania de fingir que estamos ocupados, percebemos que o tempo não é o inimigo, mas sim o espaço onde cabem escolhas, gestos, descansos, silêncios, gargalhadas, quedas e recomeços. O tempo não nos foge, nós é que fugimos dele – olhar de frente o tempo é olhar de frente para nós mesmos e isso é, quase sempre, bastante desconfortável.

Chegados ao final de mais um ano – neste ritual de fingir que o tempo muda de personalidade porque o dia do calendário muda – é tempo de desejos que se fazem ao ritmo das passas de uva e das 12 badaladas – que já quase não badalam, porque o tempo foi acabando com os sinos a dar as horas – Serão promessas e resoluções que durarão menos do que o gás da garrafa de espumante aberta à meia-noite.

Tal como o ano, o tempo é, todo ele, novo, só que não traz garantia, traz espaço. E é nesse espaço que tudo cabe: o que queremos ser, o que ainda não sabemos, o que tememos, o que desejamos, o que adiámos; cabe a coragem de o gastar com o que realmente importa, mesmo que ninguém aplauda, mesmo que pareça pouco; cabe a ousadia de não desperdiçar minutos com guerras, culpas herdadas, expectativas alheias; cabe a ternura de cuidar com a calma que nunca tivemos.

Neste sentido, julgo que o melhor desejo será podermos gastar o tempo como quem acende uma luz, não para iluminar o mundo inteiro, mas para vermos melhor quem está por perto e, dessa forma, termos o tempo e a oportunidade para sermos mais Humanos.

 

Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.

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