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As cartas não mentem

[Entre Margens]

As cartas não mentem

Serena trabalhava à noite nos bares, derramando álcool em copos alheios e aturando bebedeiras ao embargo de avultados decibéis. Era só vê-la em ação e – verdade seja dita, não era por ser minha amiga – qualquer um ficava doido com aquele jogo de braços tatuados atirando garrafas ao ar, que apanhava e soltava com a destreza de quem humilha a gravidade. [Texto de Ana Sofia Brito].

As cartas não mentem

Conto de Natal

Clara das Neves

Naquele tempo, em Vila De Pedras, era comum as mulheres morrerem no ato de parir. Hospital, não havia. Só o Lar da Maternidade – anexo contíguo à casa da parteira Dona Alma, bem intencionalmente construído sob a finalidade de progresso local -, onde as mães davam à luz perante o desadornado auxílio de uma parteira sem instrução esculapiana. [texto de Ana Sofia Brito].

As cartas não mentem

Entre Margens

Fim da linha

E partiu, de corpo minguado no velho estofo dos assentos da carruagem. O alívio que imaginara sentir àquela hora, não se assomou sequer ao seu espírito. Para afastar essa constatação indesejada, procurou distrair-se com o ritmo pulsátil que o aço das rodas fazia ao rolar sobre os carris, rigoroso como tiros de salva disparados em câmara lenta por tanques de assalto. [Texto de Ana Sofia Brito].

Histórias de vida, de humanidade e de esperança

Livro de Ana Sofia Brito

Histórias de vida, de humanidade e de esperança

Albufeira – Histórias da nossa gente é o último livro de Ana Sofia Brito, com capa e ilustrações de Guilherme Limão, primo e cúmplice de muitas aventuras. Ler Ana Sofia Brito é um prazer e um deleite que nos deixa um pouco mais esperançosos no meio de tanto desassossego que é a vida das suas personagens. E também a nossa. [Texto de José Centeio].

As cartas não mentem

Entre Margens

O vizinho Rafael

O vizinho Rafael abalou de volta para o país dele, a Roménia. Viveu em Portugal alguns trinta anos, veio no tempo em que as coisas andavam melhor. Agora, pelos vistos, mais vale ir reformar-se lá. O vizinho Rafael era, desde há mais de duas décadas, o caseiro da quinta onde eu moro. Foi-se embora. [Texto de Ana Sofia Brito].

As cartas não mentem

Quem não pertence deixa de existir

Os versos não têm de ser invenções da roda ou máximas de originalidade. Os versos, as quadras, os textos, os capítulos de quaisquer coisas que se escrevam, podem ser apenas constatações, um género de descobertas como as de Pedro Álvares Cabral – ou seja, descobrir o que já existe sem que o descobridor saiba disso. [Texto de Ana Sofia Brito].

As cartas não mentem

Entre Margens

A queda de um anjo

Pouco depois dessa primeira infância cujo sonho era postado no longe das coisas, começou a trepar árvores, percorrer túneis, escalar pequenas montanhas, caminhar até cachoeiras nas quais se jogava em imersão corajosa por debaixo das violentas quedas de água, fazer grandes fogueiras ou  voar pelos campos a bordo da sua bicicleta. [Texto de Ana Sofia Brito]

As cartas não mentem

De volta ao psiquiatra

Ser muita gente dentro de uma pessoa só nem devia ser mau, mas é que o pior, às vezes, é essa gente toda se desentender e eu já nem saber sequer a que sardinha puxar a brasa. A cabeça mais parece um ringue de mentirosos histéricos em debate, ao menos se fosse aquele mítico e saudoso debate entre Soares e Cunhal, mas não.

As cartas não mentem

[Entre Margens]

As cartas não mentem

Serena trabalhava à noite nos bares, derramando álcool em copos alheios e aturando bebedeiras ao embargo de avultados decibéis. Era só vê-la em ação e – verdade seja dita, não era por ser minha amiga – qualquer um ficava doido com aquele jogo de braços tatuados atirando garrafas ao ar, que apanhava e soltava com a destreza de quem humilha a gravidade. [Texto de Ana Sofia Brito].

As cartas não mentem

Conto de Natal

Clara das Neves

Naquele tempo, em Vila De Pedras, era comum as mulheres morrerem no ato de parir. Hospital, não havia. Só o Lar da Maternidade – anexo contíguo à casa da parteira Dona Alma, bem intencionalmente construído sob a finalidade de progresso local -, onde as mães davam à luz perante o desadornado auxílio de uma parteira sem instrução esculapiana. [texto de Ana Sofia Brito].

As cartas não mentem

Entre Margens

Fim da linha

E partiu, de corpo minguado no velho estofo dos assentos da carruagem. O alívio que imaginara sentir àquela hora, não se assomou sequer ao seu espírito. Para afastar essa constatação indesejada, procurou distrair-se com o ritmo pulsátil que o aço das rodas fazia ao rolar sobre os carris, rigoroso como tiros de salva disparados em câmara lenta por tanques de assalto. [Texto de Ana Sofia Brito].

Histórias de vida, de humanidade e de esperança

Livro de Ana Sofia Brito

Histórias de vida, de humanidade e de esperança

Albufeira – Histórias da nossa gente é o último livro de Ana Sofia Brito, com capa e ilustrações de Guilherme Limão, primo e cúmplice de muitas aventuras. Ler Ana Sofia Brito é um prazer e um deleite que nos deixa um pouco mais esperançosos no meio de tanto desassossego que é a vida das suas personagens. E também a nossa. [Texto de José Centeio].

As cartas não mentem

Entre Margens

O vizinho Rafael

O vizinho Rafael abalou de volta para o país dele, a Roménia. Viveu em Portugal alguns trinta anos, veio no tempo em que as coisas andavam melhor. Agora, pelos vistos, mais vale ir reformar-se lá. O vizinho Rafael era, desde há mais de duas décadas, o caseiro da quinta onde eu moro. Foi-se embora. [Texto de Ana Sofia Brito].

As cartas não mentem

Quem não pertence deixa de existir

Os versos não têm de ser invenções da roda ou máximas de originalidade. Os versos, as quadras, os textos, os capítulos de quaisquer coisas que se escrevam, podem ser apenas constatações, um género de descobertas como as de Pedro Álvares Cabral – ou seja, descobrir o que já existe sem que o descobridor saiba disso. [Texto de Ana Sofia Brito].

As cartas não mentem

Entre Margens

A queda de um anjo

Pouco depois dessa primeira infância cujo sonho era postado no longe das coisas, começou a trepar árvores, percorrer túneis, escalar pequenas montanhas, caminhar até cachoeiras nas quais se jogava em imersão corajosa por debaixo das violentas quedas de água, fazer grandes fogueiras ou  voar pelos campos a bordo da sua bicicleta. [Texto de Ana Sofia Brito]

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Guerras e mudanças de regime

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