Tagore: Em busca de Deus

| 6 Abr 20

Rabindranath Tagore

Rabindranath Tagore, cerca de 1909. Foto: Direitos reservados

Rabindranath Tagore (1861-1941), Nobel de Literatura em 1913, é um grande poeta universal. Indiano, de família principesca, (Tagore é o tratamento de “senhor”, próprio dos brâmanes), estudou Direito e Literatura, em Inglaterra, em 1877, não chegando a acabar o curso devido à secura do ensino superior ministrado. Tal como o seu amigo Gandhi, que sabia de cor e recitava todos os dias as Bem-aventuranças, foi atraído pelo cristianismo e ambos consideravam que os Evangelhos deveriam ser considerados património universal da Humanidade.

Opôs-se ao nacionalismo religioso hindu que continua – agora até a nível da governação – a destruir a cultura e a civilização antiquíssima da Índia. Por esse motivo, considerava que todos os homens partilhavam, no fundo de si mesmos, algo comum. Consequentemente, acolhia-os a todos como irmãos, “como um hóspede pronto a ser convidado: (…) Não devemos perguntar de que país vem; devemos apenas acolhê-lo e oferecer-lhe o que tivermos de melhor”. Por isso, desenvolveu todos os esforços – e conseguiu – fundar a Escola de Santiniketan (Mansão da Paz), em Bolpur, depois transformada numa universidade, aproximando o Oriente do Ocidente, baseada no trabalho, estudo, oração e alegria de viver.

Deus – impossível de definir, tal como é dito por S. Gregório Nazianzeno: “(…) Que espírito pode contemplar-Te,/ se nenhum espírito Te apreende? (…) Que voz pode cantar-Te, / se nenhuma palavra Te exprime?” – surge, nos inúmeros poemas de Tagore, como um ou uma amante, Rei, Senhor. Alguém impenetrável, mas presente, um Tu, a quem o sujeito lírico interpela, no seio de uma natureza viva, fonte de onde jorra o mistério, o sagrado.

Numa pequena antologia (Coração da Primavera, Editorial A.O., 1981, Braga), há poemas integrados na obra O Jardineiro, que recordam passagens do Cântico dos Cânticos ou o Cântico Espiritual de S. João da Cruz:

Quando, de noite,/ vou sozinha à entrevista do amor”, o sujeito feminino está ansioso, comprometido: “(…) soam as argolas dos meus pés e sinto tanta vergonha…” A natureza comunga com o seu estado de espírito: “(…) os pássaros não cantam,/ não se agita o vento,/ de um e outro lado da rua/ as casas ficam silenciosas…/ Soam as argolas dos meus pés/ enquanto caminho./ E sinto tanta vergonha!…” A tensão da espera é progressiva: “(…) Quando sentada na varanda/ contendo a respiração, espero os seus passos./ As folhas ficam mudas das árvores/ a água quieta no rio…/ E o meu louco coração palpita./ Não sei como fazê-lo calar!…” Finalmente, “Quando o meu amor chega/ e se senta ao meu lado”, há uma alteração no sujeito lírico, provocada por uma natureza interventiva que dissipa o temor do eu: “(…) o vento apaga a minha lâmpada,/ as nuvens cobrem as estrelas…/ A joia do meu peito brilha./ E não sei como apagá-la!…”

Num outro poema da obra citada, o sujeito poético compara-se à gazela que “(…) corre…/ pela sombra dos bosques”. Uma corrida obsessiva, perturbadora que destrói a paz interior do verdadeiro ser: “(…) enlouquecida pelo próprio perfume/ assim corro eu, enlouquecido”. O sujeito confessa-se: “(…)  Perdi o caminho/ e erro ao acaso/… Quero o que não tenho/ e tenho o que não quero.”

Na obra poética Oferenda Lírica, comecemos por uma oração – é assim que o sujeito lírico lhe chama. Simples, completa, não resisto a transcrevê-la na íntegra:

MEU DEUS/ é esta a minha oração:/ Fere,/ fere a raiz da miséria/ no meu coração.// Dá-me força/ para levar facilmente/ as minhas alegrias/ e os meus pesares.

Dá-me força para que o meu amor/ produza frutos úteis.

Dá-me força para nunca renegar do pobre/ ou dobrar o joelho/ ao poder insolente.

Dá-me força/ para levantar o meu pensamento/ sobre a mesquinhez quotidiana.

Dá-me força, por fim,/ para, apaixonado, render a minha força/ à tua vontade.”

Noutro poema, o sujeito busca Deus, mas este permanece oculto, incognoscível: “(…) Quero inclinar-me diante de Ti, / mas a minha adoração / nunca chega ao abismo / onde teus pés descansam (…) Meu coração/ não sabe encontrar o teu caminho…”

Mas é por esta “ignorância” acerca de Deus, afirma S. Tomás de Aquino, “que estamos mais perfeitamente unidos a Ele, nesta vida”. Na verdade, o sujeito lírico nunca descansa de O procurar.

Sabe, no entanto, que é “(… ) entre os mais pobres, humildes e perdidos, (…) com a roupa dos miseráveis”, que (…) teus pés descansam”.

A repetição das expressões “teus pés”, e as acções “caminhar com”, “descansar entre” e “seguir entre”, sugere uma peregrinação do “Tu” acompanhada com os descartados da Terra: “os mais pobres, humildes e perdidos.” Deus envolve-se com esses, é a Imagem desses no mundo.  A referência aos pés, aos que caminham e peregrinam nesta vida, recorda o acto de Jesus Cristo, que lava os pés aos discípulos, antes da Última Ceia: “(…)Se eu vos lavei os pés, sendo Senhor e Mestre, também vós deveis lavar os pés uns aos outros.” (Evangelho de João 13, 14).

A humildade, a misericórdia são assim o Caminho para encontrar Jesus, Filho de Deus: “(…) Acreditai que estou no Pai e o Pai está em Mim” (Evangelho de João 14, 11).

 

Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário; foi monja budista zen e integrou a Comunidade Mundial de Meditação Cristã.

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