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Taizé: continuar o caminho deste novo ano

| 25/01/2020

Taizé: continuar o caminho deste novo ano

by | 25 Jan 20 | Entre Margens, Últimas

Estive presente em mais uma etapa da peregrinação da confiança – o encontro europeu anual promovido pela comunidade de Taizé. A cidade que acolheu este encontro foi Breslávia (Wrocław), na Polónia, e nele participaram mais de 15 mil jovens de todo o mundo.

A beleza da cidade, nas suas pontes, ruas largas, catedrais magníficas esconde a dura realidade por detrás da perfeita geometria: foi uma cidade destruída na II Guerra Mundial e reconstruída no pós-guerra. Em visita guiada ao Parque do Mamute, pelos jovens da paróquia de Oporów (que em português significa ‘Resistência’) podemos ver um monte enorme, erguido com os destroços da cidade deixados pela guerra, lembrando a todos que é possível reconstruir algo a partir do pior cenário.

Foi a primeira vez que visitei uma cidade que viveu a II Guerra Mundial.

A quantidade de jovens ucranianos era significativa, por ser um país vizinho mas não só: a guerra que se vive no leste da Ucrânia, apesar da informação chegar pouco aos nossos media, tem contribuído para uma forte migração de pessoas da Ucrânia para a Polónia.

Estar em Wrocław neste momento, com toda a sua história, com o que se passa agora naquela região e no mundo, fez-me abrir horizontes para o tema escolhido para Taizé para 2020, apresentado no encontro: “Sempre a caminho, mas nunca desenraizados”.

A ideia do povo a caminho é uma das mais antigas, expressa no livro de Génesis na saída de Caim do Éden para a terra ou no episódio de Abrão, quando Deus lhe diz para sair da sua terra para o fazer Pai de muitas nações; ou no Êxodo, na fuga de Moisés com o povo libertado da escravidão caminhando durante quarenta anos no deserto para chegar à Terra Prometida. Algo curioso é que Deus envia os seus profetas e povo a terra estrangeira e ocupada: Abrão, Moisés, Josué ou David.

Vivemos num mundo em movimento, nas nossas cidades recebemos pessoas que estão de passagem, que estão para ficar. Geram-se expectativas de ambos os lados dos que acolhem e do que são acolhidos. Independentemente do lugar onde alguém está, as suas raízes cultura, história e hábitos não desaparecem.

Lembro-me de, num encontro inter-religioso de jovens organizado pelo Alto-Comissariado das Migrações se ter distinguido “multiculturalidade” e “interculturalidade”. No primeiro caso, o conceito remete para uma sociedade partilhada com pessoas de várias culturas que se juntam, cada um na sua, sem relação; numa sociedade intercultural, as pessoas de diferentes culturas não se dividem cada um na sua, mas várias culturas coabitam e interagem lado a lado.

Embora não tenha sido uma passagem escolhida para a reflexão diária, a comparação que Jesus faz identificando-se como a videira “verdadeira”, em que todos somos ramos, ligados à mesma raiz, em que um mesmo Espírito e Palavra seiva no interior, também se liga a este tema. Em qualquer sítio, em diáspora, em qualquer situação mais conturbada deste nosso caminho, a Palavra de Deus e Jesus, não deixa de ser raiz e a ligação à videira estará presente.

O que podemos esperar desta reflexão em Taizé durante o ano?

O tema do acolhimento e dos refugiados certamente estará bem presente também este ano, no “saber ser acolhido e acolher”; a fidelidade a quem somos, à nossa história de vida, que nos permite continuar a percorrer este caminho para Cristo e em Cristo; e, de novo, também a questão da criação será um dos temas das reflexões em Taizé, com base no Salmo 104 “Sempre a Caminho…ligados à Criação”.

Como refere o Salmo 119, 2: “Sou um peregrino sobre a terra: não ocultes de mim teus mandamentos.”

Continuemos o caminho neste novo ano!

 

Catarina Sá Couto é missionária leiga da Igreja Lusitana – Comunhão Anglicana, “jovem líder” da Carta da Terra e representante em Portugal dos Green Anglicans – Rede Lusófona

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