Taizé em Wrocław: acolhimento a refugiados, perigos sobre o planeta e novos começos

| 28 Dez 19

Papa Francisco, Guterres e a presidente da Comissão Europeia enviaram mensagens aos participantes, onde apelam ao compromisso dos jovens em favor da “casa comum” e sublinham que Taizé encarna os valores europeus. A comunidade lembra os refugiados e a possibilidade de novos começos.

O irmão Alois, prior de Taizé, no encontro do ano passado em Madrid. Foto: Taizé/Direitos reservados.

 

“Um novo começo é sempre possível, quando as coisas estão a correr bem ou quando enfrentamos dificuldades aparentemente intransponíveis”, diz a carta da comunidade de Taizé com as “propostas para 2020”, com o título “Sempre a caminho, mas nunca desenraizados”, publicada a propósito do 42º encontro da “peregrinação de confiança” sobre a Terra, que neste sábado se inicia em Breslávia (Wrocław), no sudeste da Polónia.

O texto fala ainda da questão dos refugiados e dos “perigos” sobre o planeta, provocados pela emergência climática que se vive actualmente; e servirá de mote para os debates entre os jovens nos dias do encontro (até terça, 31) e durante todo o ano de 2020 em Taizé

Na expressão sobre a possibilidade de “novos começos” não é despropositado ler uma alusão aos casos de abuso ou assédio que a comunidade anunciou estarem sob investigação. O próprio texto refere-se a isso e o irmão Alois, prior de Taizé, recorda-o na apresentação das propostas, recordando “um ano que não foi fácil”.

A frase que dá título às propostas é tomada a partir da vida de Urszula Ledochowska. Ela foi “uma santa entre as testemunhas de Cristo e cidadã da Europa antes do tempo”, escreve o prior da comunidade monástica, que reúne católicos e protestantes.

A frase que dá título às propostas é tomada a partir da vida de Urszula Ledochowska. Ela foi “uma santa entre as testemunhas de Cristo e cidadã da Europa antes do tempo”, escreve o irmão Alois, prior da comunidade monástica, que reúne católicos e protestantes. “Falando da vida dela, alguém dizia: ‘Sempre a caminho, mas nunca desenraizada’”, acrescenta.

É a terceira vez que o encontro de Taizé é organizado na cidade da Baixa Silésia. A primeira foi em 1989, menos de dois meses depois da queda do Muro de Berlim e também a “estreia” numa cidade do Leste europeu. “Quando o Muro de Berlim caiu, o entusiasmo de uma liberdade reencontrada marcou todos os espíritos. Desde então, o mundo mudou: tenho grande confiança de que a geração mais jovem abrirá no nosso tempo outros caminhos de liberdade e de justiça”, escreve o irmão Alois na apresentação das propostas.

Partindo sempre de textos bíblicos, o texto para 2020 justifica: “A Bíblia é marcada por esta dinâmica: caminhar em direcção a um futuro que Deus está a preparar. O caminho pode estar cheio de obstáculos – quando o povo de Deus deixa o Egipto, vagueia durante quarenta anos.”

A iniciativa conta com a participação de algumas dezenas de jovens de toda a Europa – e também de outras regiões do mundo. Entre eles, estão cerca de 150 portugueses, de várias zonas do país.

O documento desdobra a ideia do “sempre a caminho” em cinco pontos: prontos para novas partidas; inteiramente presentes para os que estão à nossa volta; em conjunto com os exilados; ligados a toda a Criação; sempre ancorados interiormente. A sua redacção foi inspirada também num encontro promovido pela comunidade de Taizé na Cidade do Cabo (África do Sul): “A África do Sul é um país grande e bonito, que mostrou ao mundo, há 25 anos, a força do protesto contra o apartheid e de uma transição não-violenta, mesmo que o país permaneça hoje marcado por profundas divisões entre comunidades étnicas.”

Um dos temas das propostas fala dos exilados e refugiados: a motivação que muitas pessoas têm para abandonar as suas terras “é mais forte do que todas as barreiras”, começa por verificar o texto. E “todos desejamos preservar a especificidade das nossas próprias culturas, mas será que o acolhimento ao outro não é um dos mais belos dons humanos?” Há “questões complexas” que precisam de ser enquadradas, mas a dificuldade deve ser também vista como uma “oportunidade”.

Também os “enormes perigos que pesam sobre o nosso maravilhoso planeta” levam ao desânimo de muitos. “E, no futuro, desastres climáticos forçarão ainda mais pessoas a sair das suas casas.” Mas é preciso agir, desde logo ao nível pessoal, revendo “modos de vida”. E também as diferentes confissões cristãs devem dar testemunho – uma das iniciativas possíveis é a rede de “igrejas verdes”, à qual Taizé aderiu no último Verão.

Neste processo “sempre a caminho”, os jovens devem estar ancorados numa vida interior sólida: “Através da sua vida, Cristo mostrou por onde começar: estando atento aos pequenos e aos mais vulneráveis. Se Jesus podia ter uma tal atenção para com os outros era porque estava profundamente ancorado em Deus.”

Foto: Wiesia Klemens/Taizé

 
Manter o clima “no topo da agenda”

Vários líderes religiosos e políticos fizeram chegar mensagens aos participantes no encontro. O Papa Francisco deseja que os jovens “possam descobrir juntos até que ponto o enraizamento da fé apela e preparar a ir ao encontro dos outros, a responder aos novos desafios das nossas sociedades, em particular os perigos que se apresentam à nossa casa comum”.

António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, recorda ele próprio ter participado num encontro em Taizé e destaca a “abertura à diversidade” que a comunidade impulsiona, tão importante numa “época de divisões” como hoje. “Assistimos a rivalidades geopolíticas, a desigualdades crescentes, a um fosso crescente entre os povos e as instituições políticas e a uma ruptura entre os povos e o planeta”. Por isso, Guterres apela aos jovens para que ajam “em favor do planeta”, continuando a manter a questão climática “no topo da agenda internacional”.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, recorda os 30 anos da queda do Muro, para dizer que nessa data a família europeia se encontrou enfim reunida e que Taizé “encarna os valores europeus”. “É nosso dever não esquecer nunca e não cessar de construir uma União mais solidária, mais justa, mais tolerante, mais aberta e mais humana”. E Urszula Ledochowska, a inspiradora do tema do encontro, “no seu longo caminho europeu, dedicou-se sempre aos pobres e aos mais vulneráveis e mostrou-nos a força da unidade”.

Outras mensagens foram recebidas dos patriarcas ortodoxos Bartolomeu (Constantinopla) e Cirilo (Moscovo), do arcebispo de York e primaz de Inglaterra, John Sentamu, do secretário-geral do Conselho Mundial de Igrejas, Olav Fykse-Tveit, e de Rosalee Velloso Ewell, da Aliança Evangélica Mundial. Os textos estão disponíveis (por enquanto apenas em francês) na página de Taizé na internet.

Na mesma página, estarão também disponíveis as meditações do irmão Alois nas orações da noite ao longo dos dias do encontro.

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