Taizé: o Líbano, os muçulmanos amigos e as descobertas de 600 portugueses

| 1 Abr 19

O irmão Aloïs com jovens em Beirute: “Como realizar essa abertura na nossa vida quotidiana? Em direcção a quem somos nós chamados a abrir-nos?” Foto © Katja Dorothea Buck/WCC (Conselho Mundial de Igrejas)

 

“Neste tempo em que o nosso mundo é com frequência sacudido por acontecimentos violentos, é fundamental tudo fazer para exprimir que as religiões não querem a violência mas procuram ser factores de paz, de amizade, de fraternidade entre todos os humanos.” O irmão Aloïs, prior de Taizé, concluiu deste modo a oração numa celebração inter-religiosa em Beirute (Líbano), inserida no primeiro encontro da comunidade monástica e ecuménica de Taizé no mundo árabe.

Realizado entre sábado, 23, e terça, 26 de Março, o encontro teve a participação de perto de dois mil jovens cristãos e muçulmanos. A celebração inter-religiosa, que decorreu dia 25, tomou como pretexto o facto de essa data ser feriado nacional no Líbano, invocando a figura da Virgem Maria, venerada por cristãos e muçulmanos.

Na mesma ocasião, o sucessor do irmão Roger Schutz, que morreu em 2005, destacou a “atitude de abandono de Deus” que a mãe de Jesus manifesta. E acrescentou: “Gostaria de dizer aos nossos amigos muçulmanos aqui presentes o quanto eu admiro, na sua grande tradição espiritual, este sede de abandono a Deus.”

O irmão Aloïs acrescentou: “Desde há alguns anos, temos aprofundado em Taizé um diálogo de amizade entre muçulmanos e cristãos. Para nós, é mesmo em nome da nossa fé que desejamos entrar nesse diálogo, [porque] Jesus ultrapassou as barreiras culturais, sociais e religiosas do seu tempo para entrar em relação com pessoas que não eram do seu povo, que não partilhavam a sua fé.”

Na realidade, a comunidade de Taizé tem acolhido desde há anos, na pequena aldeia da Borgonha, vários grupos de refugiados de vários países do Médio Oriente, bem como do Sudão, Eritreia e Afeganistão. “Entre esses exilados, muitos são muçulmanos”, disse o prior da comunidade. “Ao longo do tempo, uma amizade profunda desenvolveu-se entre nós. E o nosso olhar sobre os outros muda quando entramos em relação, muito concretamente, com pessoas vindas de fora.”

 

“Como um cedro do Líbano”

Os irmãos da comunidade já tinham tido outras experiências em meios muçulmanos. Duas pequenas fraternidades, no Bangladesh e no Senegal, vivem em bairros de maioria muçulmana, onde estabeleceram “verdadeiros laços de amizade”. Vários irmãos de Taizé estiveram já também no Egipto, com os coptas ortodoxos, em Setembro de 2017; o próprio irmão Aloïs esteve, há três anos, no Líbano, antes de partir para Homs e Lattaquié, para viver o Natal “nesse país devastado”.

Antes dele, o irmão Roger, fundador da comunidade em 1940, estivera também em Beirute em 1982, numa altura em que a guerra civil ainda dilacerava o país. E foi aí que ele anunciou a ideia de uma “peregrinação de reconciliação” que depois passaria a ser designada como “peregrinação de confiança”.

“Parece-me que este é também o objectivo da nossa ‘peregrinação de confiança’: ela quereria oferecer plataformas para o diálogo e o encontro.” E continuará em Taizé ao longo dos próximos meses: de 25 de Agosto a 1 de Setembro, uma semana especial de reflexão reunirá jovens de 18 a 35 anos, este ano dedicada ao tema da salvaguarda da Criação; no fim-de-semana anterior, entre 22 e 25, decorre um encontro de amizade entre jovens cristãos e muçulmanos.

O encontro de Beirute tinha como tema um versículo do Salmo 92: “Os justos florescerão como a palmeira e crescerão como os cedros do Líbano.” Na mensagem de acolhimento aos jovens, no primeiro dia, o irmão Aloïs explicou: “Esta imagem do cedro do Líbano toca-me ainda mais porque, há algum tempo, dois cedros em Taizé vêm crescendo, não muito longe do lugar dedicado ao silêncio: embora ainda pequenas, essas árvores são como um elo discreto mas real entre Taizé e esta terra libanesa.”

Referindo-se à imagem dos cedros, acrescentou que os seus ramos como que se desenvolvem lateralmente em direcção aos outros. E perguntou: “Como realizar essa abertura na nossa vida quotidiana? Em direcção a quem somos nós chamados a abrir-nos?”

Nas suas meditações ao longo dos quatro dias do encontro (disponíveis em francês ou inglês na página de Taizé), o prior de Taizé insistiu, sempre inspirado nos textos bíblicos, na necessidade de cada pessoa se “abrir ao outro na sua diferença” e nos “indispensáveis encontros pessoais”.

 

A peregrinação de 600 portugueses

Antes do encontro em Beirute, foi a vez de quase 600 jovens de Aveiro, a maioria dos quais alunos de Educação Moral e Religiosa Católica, irem em peregrinação a Taizé, aproveitando a semana de Carnaval.  

O 7MARGENS pediu a alguns deles um curto depoimento sobre essa experiência de oração, ecumenismo e aprofundamento da fé. São esses textos que a seguir se reproduzem.

Da curiosidade inicial à aventura dos ideais e do coração

Pela segunda vez consecutiva, este ano tive de novo a oportunidade de viver Taizé!

No ano passado, o que me moveu a visitar este pequeno e simples lugar em França foi a curiosidade: toda a gente me falava muito bem do local e a resposta a “Qual o motivo para gostares tanto de lá ir?” era sempre algo parecido a: “Se algum dia tiveres oportunidade de lá ir, vai! E logo perceberás a razão pela qual é tão especial para mim!”

Hoje, depois de já lá ter estado, percebo o porquê de me darem sempre esse género de respostas. É realmente impossível encontrar palavras que expressem sensações como as que lá sinto. Mas tento expor um pouco…

O primeiro choque, assim que entramos na pequena aldeia, é a harmonia em geral, a atitude pacífica das pessoas. Naquele lugar, o respeito, a simplicidade e a cooperação são alguns dos conceitos que se destacam! 

Não esqueço o silêncio que se faz sentir mesmo com milhares de pessoas em oração; não esqueço as refeições que, mesmo sendo em nada parecidas com o que estamos habituados, são sempre repletas de sorrisos e mais valorizadas; não esqueço a facilidade em dar/receber um abraço ou uma palavra amiga em momentos em que a reflexão nos deixa em baixo; não esqueço o quanto cresço sempre que lá estou, não esqueço a primeira vez em que este silêncio me invadiu e me fez repensar certos ideais…

Nem esqueço este ano, porque Taizé não é especial apenas no início, por ser tão diferente do que estamos habituados, mas sim porque se torna numa necessidade, um cantinho que nos renova as energias e nos permite, através da simplicidade, conhecer melhor o nosso interior! Portanto, as duas vezes que vivi essa serenidade foram diferentes, mas igualmente especiais, inesquecíveis e benéficas. Acredito que seja o mesmo para cada pessoa que lá vai!

No fim da “aventura” o mais complicado é aplicar esses “ideais” de simplicidade numa cidade sem silêncio, num meio urbano em que a pressão lidera e onde mais facilmente se ignora uma pessoa do que se lhe deseja um bom dia acompanhado de um sorriso!

Viver Taizé é a parte fácil, trazê-la no nosso coração e aplicá-la no nosso dia-a-dia é o mais difícil, mas não é impossível. Dois minutos no fim ou no início do nosso dia para agradecer o que temos e refletir um pouco podem mudar em muito a vida e a atitude de cada um. Deixo o desafio! E fica um agradecimento especial à minha professora de EMRC. Sem ela, nada disto seria possível, sem ela provavelmente ainda não tinha agradecido por mais um dia, mais uma oportunidade para ser um bocadinho melhor do que ontem!

Ivo Morgado Andias, Escola Secundária José Estêvão

 

“Em Taizé senti-me bem, Taizé fez-me gostar de mim, fez-me sentir incluída…” Foto © Rebeca Carvalho

 

Uma semana de pura alegria, animação e encontro pessoal

Este Carnaval fui a Taizé e Cresci! Sem dúvida comecei a ver o mundo com outros olhos, com outra paixão e outra maturidade. Taizé ajudou-me imenso na relação com os outros, mas, principalmente, na relação com o meu eu interior.

Uma das grandes comparações que faço é imaginar duas tabelas: uma que representa a paz e outra que representa o stresscom que nos deparamos todos os dias. Consegui atingir tanto o nível máximo de paz como o nível mínimo de stress, o que cada um de nós deve sentir pelo menos uma vez na vida.

Em Taizé senti-me bem, Taizé fez-me gostar de mim, fez-me sentir incluída numa sociedade preocupada e que apenas se foca num bem comum, ajudar. Onde tu, eu, todos, podemos ser quem somos, sem ter medo das nossas imperfeições ou diferenças.

Custou-me deixar um lugar tão mágico como este: se encontrei resposta para o que mais me inquietava, também ganhei novas dúvidas quanto a tudo, desde a religião até ao eu pessoal.

Trouxe comigo um bocadinho de Taizé, um bocadinho de esperança, calma e de forma de viver diferente. Encontrei uma voz, uma voz que andava perdida há muito tempo, e que nesta semana teve um grande papel na minha vida: Deus.

Prometo voltar, e prometo ser a pessoa que Deus sempre quis que eu fosse, eu mesma.

Aveiro, 15 de Março 2019

Rebeca Carvalho, 17 anos, Escola Secundária José Estevão

 

“Taizé fecha cicatrizes de amargura e revolta e abre cofres cheios de esperança e fé.” Foto © Teresa Grancho

 
Injusto como um romance de Agatha Christie

Definir Taizé é como redigir um prefácio de um romance de Agatha Christie: embora percebamos o resumo e o conteúdo do livro, é uma injustiça para com todo o minucioso enredo bem como a complexidade das personagens. Com a comunidade de Taizé é igual: podemos ouvir mil e uma experiências vividas, mas só quem realmente sente a emoção de poder uma vez na vida passar pelos caminhos de Taizé, pode compreender, de si para si, a magia deste paraíso na terra, fundado pelo irmão Roger [+ 2005], a quem tanto devemos.

Ao longo de três anos, o que me leva a participar nesta peregrinação é a motivação para tentar ser melhor, refletir, questionar o mundo e ouvir as minhas vozes interiores e escutar o delicioso som do silêncio, que nos sussurra solilóquios infindáveis dentro do coração.

A peregrinação a Taizé começa no momento em que colocamos as bagagens no autocarro e partimos numa viagem de vinte e quatro horas rumo ao mesmo destino, passando pela convivência nas camaratas, um espaço que iremos partilhar com outros ao longo de uma semana, bem como as infindáveis filas para o serviço das refeições e, claro, os momentos de oração, o alicerce de toda a comunidade.

Em todos esses momentos há algo em comum: não estamos sozinhos. Pelo menos fisicamente, pois em todos há uma necessidade de convívio e partilha que obviamente proporciona a proximidade entre as pessoas. É isso que guardamos na memória: o que vimos, ouvimos, lemos, cantamos e sentimos. E o que sentimos?

Em Taizé sentimo-nos compreendidos, aceites; em Taizé podemos ser nós próprios. Longe dos olhares de uma sociedade consumista, da pressão escolar, de um regime segregador e desregrado de valores morais, e todo um conjunto de fantasmas que, no nosso dia-a-dia, não arranjamos tempo para analisar profundamente.

É essa a mudança fulcral que Taizé deixa na minha alma, pois Taizé fecha cicatrizes de amargura e revolta e abre cofres cheios de saudade, esperança e fé. Taizé mudou-me e eu mudei por Taizé. E, como disse a minha professora de Educação Moral e Religiosa Católica, Teresa Grancho: “O que custa não é ir a Taizé, mas levar Taizé no coração.”

André Bragança, 11.° ano, Escola Secundária José Estevão

 

“Taizé proporciona-nos este à-vontade de criarmos momentos de introspecção connosco próprios e com quem está connosco”. Foto © Teresa Grancho

Descobrir um palco para as minhas grandes decisões

Sem dúvida que um dos sítios onde tenho mais vontade de viajar em qualquer ano é Taizé. Talvez para quem nunca tenha ido este tipo de ideia possa parecer cliché, e até acredito que o seja; mas de facto, e quem já foi identificar-se-á com esta razão, quando vamos a Taizé ganhamos, pelo menos, uma semana em que temos tempo para nos reconhecermos como pessoas e como membros de várias comunidades maiores, percebendo realmente qual é a pegada que deixamos no nosso mundo.

Ainda me lembro, quase como hoje, da minha primeira ida a Taizé – apenas conhecia, muito por alto, alguns cânticos e pouco mais. Quando lá cheguei, num domingo à tarde, depois do acolhimento e de arrumarmos as mochilas nas camaratas, entro, pela primeira vez, numa oração comum: que impacto! Ouvir alguns dos cânticos que já tinha ouvido, mas agora em uníssono e numa igreja cheia de pessoas (algumas que se despediam, outras acabadas de chegar), levou-me logo a imaginar como seria a minha semana – pensava conhecer várias pessoas de várias culturas; ter momentos de reflexão onde tanto pudesse dar como receber opiniões sobre o poder da palavra nos dias que correm; ter um momento de silêncio num qualquer dia da semana para poder refletir sobre a experiência por que estava a passar e na importância de ter comigo os vários amigos e colegas que me acompanhavam.

Ora, consegui fazer tudo isto em cada uma das quatro semanas em que já fui a Taizé. De facto, Taizé proporciona-nos este à-vontade de criarmos momentos de introspeção connosco próprios e com quem está connosco, isto é, com a nossa comunidade. Dois dos valores mais importantes que aprendemos em Taizé são a simplicidade e a estima pelo silêncio. O choque de viver uma semana, em que estamos todos no meio do nada, entre várias colinas, onde não haveria qualquer razão para uma pessoa se sentir tão viva e feliz, é imediatamente contrariado com a presença da comunidade formada pelos irmãos e por todos aqueles que a visitam em qualquer altura do ano.

A própria ida a Taizé demonstra o forte impacto da simplicidade na vida de uma pessoa. De Aveiro até lá, partimos numa viagem de 23 horas com um autocarro cheio de gente. Dormimos no autocarro mas, no final de cada viagem, nunca nos sentimos cansados porque, de alguma forma, formámos uma comunidade em que cada um de nós tentou fazer o melhor para que ninguém se sentisse excluído: tocámos guitarra, cantámos, rimos, brincámos,… juntos, como um só.

Quando lá chegamos, ajudamo-nos uns aos outros a integrarmo-nos na comunidade maior. Somos recebidos com uma refeição pronta a comer com uma só colher – não precisamos de mais; somos obrigados a arranjar a aldeia à medida que vamos usando as coisas, porque não é necessário haver pessoas especializadas para o fazer… tudo em Taizé, desde a ida até à chegada, é uma partilha de conhecimentos, de experiências e carisma pela comunidade.

Independentemente do decurso da semana em Taizé, quer uma pessoa decida fazer uma semana em silêncio ou não, terá no sábado o ponto mais alto de toda esta experiência: a celebração da luz. Nesta oração, à noite, cada pessoa recebe uma vela à entrada da igreja, com a qual, em plena oração, será responsável por propagar a chama por outras, chama essa inicialmente acesa por um dos irmãos, no círio maior. Este torna-se o maior símbolo da partilha e da importância que cada um de nós tem perante a comunidade – cada um de nós, independentemente do local, temos sempre a responsabilidade e o poder de alargar a chama que há em nós e de a partilharmos com o próximo, qualquer que seja a etnia, orientação sexual ou religião.

Taizé é, então, para mim, um local onde aprendi a buscar a minha jovialidade e paz interior, a interpretar a luz que tenho dentro de mim e qual o meu papel na minha comunidade, isto é, de que forma poderei contribuir mais para o avanço de quem me acompanha. Nestas minhas visitas que fiz a Taizé, fez-se um palco para muitas das minhas grandes decisões a tomar, em fase tão decisiva da minha vida, como é a entrada na idade adulta. Descobri em mim, por exemplo, a possibilidade de ser professor e poder partilhar com o próximo o conhecimento que vou adquirindo, permitindo que este construa todo um ciclo em que a nossa comunidade avance. Muito possivelmente não precisaria de Taizé para tomar essa decisão, mas o estar fora das minhas rotinas e imerso numa semana de constante partilha e presença num grupo maior, permitiu-me avaliar melhor as minhas possibilidades.

Deixo assim o meu testemunho convidando os leitores a visitarem Taizé. É uma experiência que, seja de que forma for, é sempre marcante, todos os anos diferente. É um sítio a que acabamos por poder chamar casa, de alguma forma. Porque é isso que sentimos, de espírito aberto, quando lá estamos.

Rui Lopes, Universidade de Aveiro (Engenharia de Computadores e Telemática)

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