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Talentos pela paz

| 30/10/2023

Dança da Paz, Pablo Picasso

Pablo Picasso, Dança da Paz

 

Bernard Shaw, escritor irlandês, nobel da Literatura em 1925, disse «A vida é uma pedra de amolar: desgasta-nos ou afia-nos, conforme o metal de que somos feitos.» E eu diria, de que nos fazemos ser. Somos produto da nossa história, mas não reféns ou vítimas dela, se assim não o permitirmos.

Raramente falamos das coisas mais essenciais de nós e do nosso quotidiano, já que é muito fácil ignorá-las. Tudo parece ocorrer de acordo com o planeado e estar mais ou menos garantido, mas não. Temos aprendido que existem más surpresas, responsáveis por encher de medo os corações de quem ainda conseguia confiar, apesar de ter um chamado “quarto seguro” dentro de casa.

Por esse mundo vão acontecendo verdadeiros assaltos às nossas convicções, que nos transformam a maneira de conceber a vida. A morte dos inocentes; a obstinação por uma vitória na guerra, que, mesmo quem ganha, perde, mas os homens parece que ainda não sabem disso; a força das armas quando a da natureza já chegaria para nos assustar e abalar as nossas quase certezas; o grito daqueles a quem não adianta fazer barulho, já que nunca são escutados…

Vamos agora divergir para as vidas que nos estão próximas. Realmente estas que acima falámos parecem distantes.

Alguém percorre os corredores da sua casa com uma travessa na mão e faz chegar â mesa um saboroso petisco. A tranquilidade destas noites de sossego em que se comentam os dias passados nas escolas, nas universidades, nos trabalhos. A vida que vai passando sem sobressaltos como se essa liberdade de ser e de fazer fosse mais do que óbvia. Até as discussões do dia-a-dia são expressão da normalidade nos lugares de paz.

E, sim, parece que nos esquecemos que, para alguns, tudo muda em segundos. De repente o certo fica incerto; o conforto aparentemente garantido é substituído pelo sobressalto e pela angústia da força descontrolada e sem razão; os planos abatem-se; os sonhos desvanecem-se e os horrores evidenciam-se. A confiança no futuro, imprescindível à preservação de uma boa saúde mental, esvai-se

As reportagens a que temos tido acesso são aterradoras, mas legitimas pela crua realidade que traduzem.

É verdade que não podemos cruzar os braços, mas é também verdade que, perante o estado atual do mundo, nos parece que temos de ficar quietos. Julgamo-nos impotentes, nós que não temos cargos políticos nem poder a grande escala. Não temos capacidade de fazer coisa alguma com relevância, com significado. Mas será mesmo assim?

Talvez não. Cada um deve vincular-se à perceção do que lhe compete, que é como quem diz, do que está ao seu alcance. Não são apenas armas em sentido estrito; não são instrumentos de guerra que fazem combater em campos de batalha. Vamos usar os dons que temos.

Todos sabemos fazer alguma coisa bem feito. Pode ser escrita, música, debates, fotografia, pintura, escultura, vídeos no YouTube, TikToks, costura… O que quiserem. Temos é de ser criativos e utilizar os nossos talentos; temos de ter a coragem de investir numa onda de paz; temos de nos manifestar, cada um como consegue, não ficando fechados nos nossos lugares seguros que não são mais do que os espaços do silêncio e da apatia.

De facto, não deveria haver decisões sobre os homens que não fossem humanas; não deveria haver caminhos percorridos vedados à possibilidade de ter sonhos e de os concretizar; não deveria haver batalhas que matassem em massa sem se poder saber sequer o nome de quem morreu; não deveria haver mentira disseminada para procurar uma razão que não existe; não deveria ser permitido que, quem pode, não fizesse o que está ao seu alcance para, simplesmente, procurar conquistar a paz.

Manifestemo-nos, pois. Tenhamos a coragem necessária para que o mundo, à nossa escala, saiba aquilo por que queremos lutar. Solidarizemo-nos com os inocentes, com as famílias partidas pela inesperada e desgastante violência gratuita, com as vítimas dos impiedosos assaltos e das devastadoras torturas a sangue frio.

De facto, todos podemos e todos somos poucos.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt

 

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