Talitha Kum: enfrentar o tráfico humano, dar nova oportunidade às mulheres vítimas

| 10 Out 19

 

Países em guerra, migrações, violência sexual, exploração de países mais desfavorecidos – estas são algumas das causas que levam tantas mulheres a deixar-se enredar nas malhas de redes de tráfico de pessoas. A Talitha Kum, rede de religiosas de apoio a mulheres vítimas de tráfico, quer contrariar a realidade e vai apostar na formação de 400 religiosos, colaboradores e 50 novos líderes, para trabalharem em projetos educacionais.

“Por razões de guerra, violência, migração, os imigrantes sujeitam-se a qualquer coisa” diz a irmã Júlia Bacelar, das Irmãs Adoradoras. Esta religiosa portuguesa integra a Talitha Kum e participou em Roma, há duas semanas, numa assembleia internacional desta rede. “Isso acontece, especialmente, em países acolhedores, em que os refugiados procuram viver por qualquer meio de modo a evitar a guerra e a violência que se abate nos seus países.”

Dados da Organização Internacional das Migrações indicam que, entre 2005 e 2014, ter-se-á reduzido bastante (de menos de 60% para pouco mais de 10%) a percentagem do número de vítimas de tráfico humano destinadas à via da exploração sexual. A partir de 2014, a tendência é de novo de crescimento. Pelo contrário, aumentou o número de pessoas vítimas pelo lado do trabalho escravo (de pouco mais de 30 para cima de 80%), enquanto o número de pessoas sujeitas a ambas as condições aumentou ligeiramente no mesmo período.

Tipos de exploração entre vítimas identificadas de tráfico humano. Fonte: Organização Internacional das Migrações (https://migrationdataportal.org/themes/human-trafficking)

 

Outra leitura que os dados permitem é que só em 2015-16 é que os homens e os rapazes ultrapassaram as mulheres e raparigas como o maior número contingente de vítimas; até aí, eram elas o maior número de vítimas.

Tráfico humano por sexo e idade das vítimas identificadas. Fonte: OIM

 

A origem geográfica de muitas destas vítimas da “indústria” do tráfico humano localiza-se quase sempre em zonas de conflito ou de tensões políticas e sociais. “A maioria tem origem na América Latina e Ásia e África. O centro de receção é, normalmente, a Europa. No caso da China, são levadas para os Estados Unidos,” indica a irmã Júlia. “Temos de estar mais presentes, porque nenhum país tem as mãos limpas” afirma, sobre a realidade, ainda mais quando todos os dados apontam para o aumento das vítimas de tráfico humano.

 

150 mil milhões de dólares por ano

A Organização Internacional de Trabalho (OIT) indica ainda que o trabalho forçado é uma “indústria” que gera cerca de 150 mil milhões de dólares por ano. Em 2012, a OIT calculava que 21 milhões de pessoas são vítimas de escravatura moderna (mas há outros estudos a apontar para mais). Dessas, 14,2 milhões (68%) são destinadas a trabalho escravo, 4,5 milhões (22%) a exploração sexual e 2,2 milhões (10%) a trabalhos forçados.

A estes números, acrescentam-se os vazios legais de alguns países e que aumentam a lista das dificuldades a enfrentar por organizações como a Talitha Kum. “Portugal, neste caso, é um país modelo, que põe estas leis em prática” afirma a religiosa das Irmãs Adoradas Escravas do Santíssimo Sacramento e da Caridade. “Temos muitas vezes sérias dificuldades em ajudar pessoas. Mas a nossa missão é procurarmos aproximar-nos das mulheres, dar-lhes outra hipótese e tentar ajudá-las. Não importa as adversidades.”

Para enfrentar o fenómeno e dificuldades como as referidas, a rede decidiu, na sua reunião de final de setembro, investir fortemente na formação, bem como na constituição de redes locais e no fortalecimento das redes já existentes. Aprofundar o conhecimento da realidade do tráfico de seres humanos em todo o mundo e das causas; aprofundar o pensamento social católico relevante para esta área; estudar psicologia e sociologia em áreas como as relações de ajuda, a cura do trauma e a defesa das vítimas; e conhecer o direito nacional e internacional sobre o tema do tráfico são algumas das áreas prioritárias na ação da rede para os próximos tempos.

Essas tarefas estão implícitas no Manual de Formação da rede, que aponta o acolhimento, a individualização e clarificação dos problemas, a autodeterminação, a solução e o resultado como áreas fundamentais.

 

Garantir uma migração segura

Composta por congregações religiosas pertencentes a 92 países e a cinco continentes, a rede internacional Talitha Kum tem o seu centro em Roma.

Júlia Bacelar, 69 anos, descreve que através da Talitha Kum (expressão aramaica utilizada por Jesus e que significa “menina, eu te digo, levanta-te”) já se envolveu em inúmeras missões de apoio a mulheres vítimas de tráfico humano ou violência doméstica. “Comecei com vítimas de tráfico a partir da década de 1990,” afirma, “ajudando ao nível da intervenção, formação e projetos de integração em diversos países”. Na sequência desse trabalho e dos projetos concretizados por dezenas de grupos de religiosas na ajuda a vítimas de discriminação sexual, decorreu em Roma, em 2009, uma primeira assembleia de várias congregações de religiosas de todo o mundo, que deu origem à rede Talitha Kum.

Para o período 2020-25, a Talitha Kum pretende desenvolver agora seguir três orientações: “O poder de diferenciar entre homens e mulheres em todos os sectores: económico, social, familiar, político, cultural e religiosa”; “o modelo dominante do desenvolvimento neoliberal e capitalismo irrestrito cria situações de vulnerabilidade, exploradas pelos recrutadores, traficantes, empregadores e compradores” e o facto de as “leis e políticas de imigração injustas e inadequadas aliadas à migração e deslocamento forçados coloca[re]m as pessoas em maior risco de serem traficadas”.

“Comprometemo-nos a trabalhar além das fronteiras e confins através de nossas redes a fim de garantir uma migração segura e impedir o recrutamento dos migrantes pelos traficantes, durante sua viagem e acompanhá-los em seu retorno. Comprometemo-nos a usar a nossa voz coletiva e envolver funcionários do governo para promover e fazer cumprir as leis e as políticas de migração” lê-se na declaração final da assembleia geral.

 

O apoio, proximidade e carinho do Papa Francisco

Na reunião de setembro, em Roma, o Papa Francisco encontrou-se com as 200 participantes, dizendo-lhes que elas são “a vanguarda missionária da Igreja”, tendo em conta o trabalho que fazem. Foi um belo elogio, recorda a irmã Júlia. “Em qualquer parte do mundo, temos de ir longe, com facilidade, rapidez e eficácia. Temos uma certa “ousadia”, como ele diz, mas é a forma como operamos e queremos operar.”

A religiosa portuguesa também lamenta que não se possa fazer mais como o Papa Francisco pretende, descrevendo a estrutura eclesiástica como “bastante pesada” quando comparada com a liberdade que as comunidades religiosas têm conseguido.

Júlia Bacelar recorda com afeto o seu encontro com o Papa. “Este ‘bichinho’ dos refugiados e deste tipo de vítimas é importante para ele.” Prova disso foi que, durante o encontro, foi importante e comovente ver que Francisco fez questão de falar “com cada uma das freiras de cada congregação, individualmente”, inteirando-se do trabalho que cada uma realiza. “Ele tem uma capacidade de atenção impressionante”, descreve, “com um olhar profundo que perscruta e está muito atento ao que se diz, tratando cada encontro como se fosse o primeiro.”

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