Na nossa vida, vem perdendo peso a palavra ” talvez” ; porém esta omissão, que parece inofensiva, tem consequências estruturantes.
Logo à partida, esta ausência provoca uma minimização do sentido de vida de todos nós: por escolha deliberada ou por distração, este decrescente uso convida a reflectir menos, acolhendo, consequentemente, trajectos que não impliquem escolhas, promovendo assim uma “navegação” ao sabor de ventos, gerados por tempestades inominadas.
Por outro lado, a ausência do “talvez” gera a auto-referencialidade, criando certezas que se sobrepõem às nossas legítimas convicções. Erguem-se assim muros porque nos passamos a compreender como produtos acabados em vez de parceiros em caminho.
Como exemplo de proposta alternativa a esta conjuntura surge o Encontro Cristão, que há 16 anos realizamos em Sintra.
A centralidade em Jesus implica a consciência de que a Sua grandeza é infinitamente maior do que a percepção que qualquer um de nós ou mesmo uma comunidade possam fazer d` Ele.
Nasce assim um “terreno” onde o diálogo é possível. A abordagem passa a ser diferente: eu sinto e estou convencido de que é assim, mas ganho consciência de que o outro “talvez” tenha a sua quota de verdade. Quando neste processo há reciprocidade, quando o “talvez” impera, nasce o “ecumenismo do povo”. Ninguém é doutor da Lei; somos todos discípulos, sinceramente convictos de estar a trilhar o que é melhor caminho mas sem certezas absolutas, sem a certeza de que possuímos a Verdade.
O retorno à lógica do “talvez” não significa diluição da convicção: prioriza a procura de Deus, que é maior do que tudo o que humanamente possamos conceber.

Momento do XIII Encontro Cristão, no Centro Cultural Olga Cadaval, em junho de 2022. Foto © Plataforma Encontro Cristão
Neste afrouxamento do ego, emerge a criança evangélica, enaltecida por Jesus porque ontologia da simplicidade. Então, fruto do “talvez”, acolhem-se reciprocamente a sacralidade e a emoção; o dinamismo e a contemplação; o silêncio e a festa efusiva; a escuta e o dizer; a tradição e a inovação; o conservadorismo e a visão inovadora. Terminam todas as polarizações bélicas, abolindo todos os extremismos. E tudo acontece sem a aridez da inflexibilidade, mas como expressão da radicalidade do Amor.
No dia 31 de Janeiro, estarão presentes no XVI Encontro Cristão mais de cinquenta comunidades cristãs que louvam o seu Deus e querem caminhar juntas, num percurso surpreendente que vão descobrindo, juntas. Sabem que são um “mosaico”, pedaços do Dom, onde o “talvez” possibilita a ocupação do seu lugar, no plano que o Artesão pensou…
Será fácil? Dificílimo! Implica viver ao contrário da nossa rotina do dia a dia, quiçá ainda mais acentuada nas nossas igrejas, onde somos treinados para “ganhar” combates e posições de relevo, ao invés de ter uma postura de pobres e simples companheiros de viagem.
A retoma do “talvez” como ferramenta de relacionalidade possibilitará, “talvez”, correr rumo à Esperança.
Luís Parente Martins é médico cardiologista, membro do Departamento de relações ecuménicas e inter-religiosas do Patriarcado de Lisboa e co-responsável do diálogo ecuménico do Movimento dos Focolares. Integra a equipa de organização do Encontro Cristão.










