Vivemos em sociedades em que o envelhecimento é olhado muitas vezes como um problema económico, tanto para os estados como para as famílias, de abandono e da quebra de laços que têm como consequência a destruição de redes de solidariedade e de suporte que foram apoio durante a vida ativa. Na verdade, o envelhecimento daqueles e daquelas que nos precederam põe à prova a nossa humanidade enquanto sociedade e enquanto indivíduos.
O 7MARGENS iniciou a publicação de depoimentos de idosos recolhidos por José Pires, psicólogo e sócio fundador da Cooperativa de Solidariedade Social “Os Amigos de Sempre”. Publicamos hoje o décimo primeiro depoimento do total de vinte e cinco. Pode ler aqui os depoimentos já publicados. Informamos que tanto o nome das pessoas como as fotografias que os ilustram são da inteira responsabilidade do 7MARGENS.

“O que eu quero é envelhecer numa sociedade que me permita envelhecer feliz.” Foto © Marivi Pazos / Unsplash (editada)
Laura, 44 anos
Querer envelhecer, quero. Quero envelhecer o mais possível, até já não poder envelhecer mais. Gostava de envelhecer devagar e sem tensões altas e diabetes, sem cancros, sem ataques de coração. Gostava. Mas não sei se isso depende de mim. Os meus genes saberão.
Eu acredito que envelhecer bem depende mais dos outros do que de nós.
Por isso o que eu quero é envelhecer numa sociedade que me permita envelhecer feliz. Que não me apite no trânsito quando vou lenta, que não me mande para casa porque eu já não sirvo para o que servia, que ignore que também na minha história está o futuro.
Quero envelhecer rodeada de velhos como eu, sem operações plásticas, botox, perucas, ou saias compridas, orgulhosos de cada dia que ganhamos. Orgulhosos das nossas rugas, cabelos brancos e rabos flácidos.
No fundo eu quero envelhecer como as crianças crescem. Com muito investimento humano, muitas concessões, muita atenção. Há um entendimento social que as crianças precisam de mais porque AINDA não conseguem tanto. Mas não há o mesmo entendimento em relação aos velhos que JÁ não conseguem o mesmo.
Não há o entendimento que a curiosidade das crianças é tão especial como a experiência dos velhos.
Eu quero envelhecer da mesma forma como eu cresci. Rodeada de amor, paciência e encanto.
Quero envelhecer numa sociedade que não deixe de gostar de mim.










