
Refugiados no Sudão do Sul. Foto © Anita Kattakhuzy/Oxfam
Numa tarde de Novembro, um professor universitário aposentado lê e redescobre algo que, aliás, não ignorava. O que agora apreende de um modo novo é o que muitos desconhecem; compreende que o “movimento das pessoas através dos continentes já dura há milhares de anos, sem nunca ter havido interrupção”.
O académico, protagonista de Eu vou, tu vais, ele vai [1], obra da escritora alemã Jenny Erpenbeck, e testemunha do drama de refugiados de vários pontos do mundo que prossegue em Berlim (tema forte do livro), constata: “Houve comércio, guerras, deslocações, muitas vezes, as pessoas seguiam os animais que possuíam à procura de água e alimento, houve fugas devido a secas e pestes, busca de ouro, sal ou ferro, ou por a fé num deus só poder ser mantida na diáspora. Houve declínio, transformação, reconstrução e colonização, houve melhores ou piores caminhos, mas nunca uma quebra”.
Na mesma tarde de Novembro, o professor universitário, se quisesse explicar a um seu aluno que o “movimento das pessoas através dos continentes” é uma lei da natureza, não uma lei moral, julgaria ser suficientemente esclarecedor “apontar pela janela onde tantas das folhas cujo aparecimento o tinham alegrado na primavera estavam agora caídas na relva, ao mesmo tempo que já despontavam os brotos para a primavera seguinte”.
Eu vou, tu vais, ele vai coloca uma questão: “Para onde vai uma pessoa quando não sabe para onde há de ir?” É uma interrogação de tal modo relevante que é a única frase que se encontra na página 244. A numeração da página foi, de resto, eliminada para que nenhum ruído se interponha entre o leitor e essa tão pertinente dúvida. Para a enfatizar, ei-la, de novo, na página seguinte: “Para onde vai uma pessoa quando não sabe para onde há de ir?” A pergunta ecoa hoje em vários lugares do planeta.
Numa outra tarde de Novembro, neste Novembro, na quarta-feira, 17, a incógnita voltou a manifestar-se quando foi difundido um comunicado de imprensa da Organização Não Governamental Médecins Sans Frontières / Médicos Sem Fronteiras (MSF) dando conta que, “durante uma difícil operação de buscas e salvamento”, realizada no dia anterior, no Mediterrâneo central, “a equipa a bordo do Geo Barents encontrou dez pessoas mortas num sobrelotado barco de madeira que estava a naufragar a cerca de 30 milhas náuticas de distância da costa da Líbia”. A organização humanitária diz que as 24 horas anteriores tinham sido “especialmente intensas a bordo do navio de buscas e salvamento operado pela MSF, tendo sido feitas três operações de resgate”. Na última delas, após terem sido levadas 99 pessoas em segurança para o Geo Barents, foram descobertos os corpos de dez pessoas mortas, asfixiadas pelo elevado nível de fumos tóxicos de combustível, ao fim de várias horas passadas no convés inferior do barco de madeira sobrelotado. Houve 186 sobreviventes. Muitos são menores não acompanhados por familiares ou mulheres sós com crianças pequenas. A mais nova tem dez meses.
Na tarde de Novembro seguinte, quinta-feira, 18, Médecins Sans Frontières / Médicos Sem Fronteiras divulgava outro comunicado sobre “a extrema violência”, incluindo “violência sexual” enfrentada por milhares de pessoas que, vindas de diversos países da América do Sul, atravessam a selva do estreito de Darién, entre a Colômbia e o Panamá, rumo a Norte. A organização denuncia que “os ataques violentos contra pessoas migrantes, frequentemente agravados por agressão sexual e violação”, se repetem por toda a região, sendo “chocantemente elevados” os números de casos de violência sexual assistidos pelas equipas da Médecins Sans Frontières / Médicos Sem Fronteiras. Dez mil das consultas a pessoas que empreendem “uma das travessias mais perigosas do mundo” foram feitas a menores de idade.
Têm sido assim as tardes de Novembro. Também na tarde de dia 18, os media divulgavam que a Organização Não Governamental Equipa Médica de Emergência da Polónia (Medyczny Zespół Ratunkowy) denunciou a morte de um bebé sírio na floresta entre a Bielorrússia e a Polónia, após ter conseguido resgatar os pais. O diário francês Libération notou na sexta-feira, 19, que se trata da mais jovem vítima da arrastada desgraça fronteiriça [2].
“Para onde vai uma pessoa quando não sabe para onde há de ir?” Porque é tão violenta a caminhada?
Notas
[1] Relógio d’Água, 2018
[2] Crise bélarusse : émotion après l’annonce de la mort d’un bébé syrien à la frontière polonaise









