Conferência da CNJP

Tasse. Os rostos que faltam no combate à pobreza

| 21 Jan 2022

Um projecto de religiosas no concelho da Moita quer, através da presença, ajudar a combater pobrezas e vulnerabilidades. Será um dos testemunhos na conferência da Comissão Justiça e Paz, que neste sábado, 22, decorre em Lisboa, para falar sobre o que se faz e o que falta fazer no combate à pobreza.

Os ateliês de apoio ao estudo a uma centena de crianças é um dos focos do Tasse. Foto: Direitos reservados.

 

A irmã Maria José Gonçalves, religiosa das Escravas do Sagrado Coração de Jesus, vive no bairro da Quinta da Fonte da Prata, em Alhos Vedros (Moita), onde trabalha no apoio a crianças e jovens e com migrantes de várias nacionalidades. Tasse ali – já veremos que isto não é um erro – e por vezes dá consigo a pensar: “Se eu não fosse religiosa viveria num bairro destes por opção própria? Como católica, até onde posso ir?”

Não é uma resposta, mas quase: “É preciso misturarmo-nos com as pessoas, as suas vidas e problemas, deixar instituições ou meios que nos fecham, contribuir mais para a mudança social e menos para a perpetuação, incluir todas as pessoas.” E acrescenta: “Quer a Igreja como instituição, quer cada pessoa por si, cada um deve saber até onde pode ir” no combate à pobreza.

Maria José Gonçalves vive há seis anos com mais três irmãs na Quinta da Fonte da Prata, onde a congregação está presente há 30 anos. Será uma das intervenientes, neste sábado, 22, na conferência anual da Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP) sobre o combate à pobreza.

“Fala-se de pobreza, mas muito pouco das pessoas”, diz ao 7MARGENS Rita Valadas, presidente da Cáritas Portuguesa, que também intervém no mesmo painel. “A pobreza de que se fala é uma estatística. Os números variam mais do que a situação das pessoas que estão em risco ou em situação da pobreza.”

É das pessoas que a irmã Maria José quer cuidar, com as outras irmãs e um grupo de voluntários. Além de um projecto de apoio alimentar a famílias carenciadas do concelho, feito com voluntários, a congregação criou, em 2004, o projecto Tasse, adoptando a expressão usadas tantas vezes por adolescentes. Trata-se de, num bairro onde muitas pessoas vivem com dificuldade, proporcionar ateliês de apoio ao estudo a uma centena de crianças dos 6 aos 18 anos, com origens ou progenitores de nacionalidades diversas. Os monitores ajudam-nas a ganhar competências. “Queremos que elas cheguem o mais longe possível, que sejam autónomas.”

Além de haver lista de espera (está prevista para breve a ampliação do espaço), o trabalho é articulado com o que se passa em casa e nas escolas. E estas, afirma, reconhecem a mais-valia do projecto, pois nem sempre o sistema educativo olha para estas realidades. Mais importante ainda: “Muitos dizem que é a segunda casa deles, nunca faltam.”

Outro projecto em que as irmãs se envolveram é o do CLAIM (Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes), criado em 2007. O bairro tem guineenses, cabo-verdianos, angolanos, brasileiros, indianos, paquistaneses, imigrantes de vários países do Leste europeu… Muitos deles vivem já há muito em Portugal. “Os que mais precisam de apoio são os que chegam em situação irregular. Não contam para as estatísticas, não são financiados”, descreve a irmã Maria José. “Trabalham, são vulneráveis, estão sujeitos a serem apanhados em malhas de gente sem escrúpulos…”

Tem havido situações de famílias, diz a religiosa, que de repente se vêem com falta de recursos – para pagar a casa, por exemplo. “Há seis anos, já havia rendas de 200 euros e elas têm estado a subir; a habitação tornou-se um problema fundamental.”

 

A pobreza a passar de pais para filhos
crianca pobre foto direitos reservados

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Uma realidade como esta não é estranha aos números de um estudo recente da Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais (FCEE) da Universidade Católica Portuguesa, sobre as consequências da pandemia no agravamento de algumas situações de pobreza. Joana Silva, professora da FCEE que integrou a equipa que realizou o estudo, recorda ao 7MARGENS que algumas das conclusões apontam para o agravamento das desigualdades.

“Para combater a pobreza tem de se perceber que ela é estrutural. É preciso não apenas dar dinheiro, mas combinar formas de intervenção”, diz. Ou seja, ligar formação profissional, criação de emprego sustentado ou competências logo na primeira infância, por exemplo. Medir o impacto das medidas que se tomam também é importante. E, nas situações de pobreza extrema, acrescenta, tem de se “dar o mínimo” às pessoas nessa situação. “A pobreza tem rostos e devemos preocupar-nos com eles”, acrescenta Joana Silva.

Instada a dizer qual é o papel das propostas da doutrina social da Igreja neste contexto, a professora da FCEE diz que “todos temos um papel a desempenhar no combate à pobreza.”

Rita Valadas, a presidente da Cáritas, não tem dúvidas: “Tudo o que se tem feito é manifestamente pouco.” Até porque tem mantido os factores mais perversos do fenómeno: a pobreza que passa de pais para filhos; a que atinge pessoas que trabalham; e a “vulnerabilidade do baixo rendimento em situações de instabilidade económica e social ou de acréscimo (ainda que pontual) de despesas”, como o exemplo das rendas de casa.

Apesar das muitas estratégias de combate à pobreza, diz Rita Valadas, “não temos sabido encontrar os caminhos para a erradicação do fenómeno que se perpetua geracionalmente”, admite. Esta incapacidade “não é uma fatalidade, mas antes uma convocatória”, para que se coloque o problema “no centro da decisão política, envolvendo “transversalmente todos os sectores e áreas governamentais”.

Rita Valadas enumera ainda factores de risco que podem levar à pobreza – crises económicas, sociais, sanitárias, humanitárias ou outras – para insistir em que é necessário fazer com que “a conjuntura não transforme em definitiva a situação de risco”.

De resposta a fragilidades fala ainda a irmã Maria José: “Trata-se de fazer aquilo que o Papa Francisco diz com a imagem do hospital de campanha.” Mas, se se vê como optimista e considera que já se fazem muitas coisas no combate à pobreza, a religiosa acrescenta que “falta conhecer o terreno, estar” onde as pessoas vivem. E é isso que também as estruturas católicas devem fazer, conclui.

A conferência anual da CNJP, que decorre entre as 10h e as 13h no Centro Cultural Franciscano (Largo da Luz, em Lisboa), será também transmitida na página da comissão no Facebook.

 

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