Estudo revela

Taxa de abandono da religião na Ásia Oriental é das mais altas do mundo, mas “espiritualidade” e “rituais tradicionais” mantêm-se

| 25 Jun 2024

O Grande Buda de Kamakura, Japão. Foto Cesar I. Martins, via Wikimedia Commons

O Grande Buda de Kamakura, no Japão. “A região da Ásia Oriental é mais vibrante religiosamente do que pode parecer”.  Foto © Cesar I. Martins, via Wikimedia Commons

A taxa de abandono da religião na Ásia Oriental está entre as mais altas do mundo, com metade dos adultos em Hong Kong e na Coreia do Sul a afirmar que trocaram a religião em que foram educados por outra ou a já não se identificarem com nenhuma. Mas, ao mesmo tempo, muitos deles continuam a acreditar em Deus ou noutros seres invisíveis e a recorrer aos rituais espirituais transmitidos pelos seus pais e avós. Estas são algumas das conclusões de um inquérito realizado pelo Pew Research Center a mais de dez mil adultos em Hong Kong, Coreia do Sul, Japão, Taiwan e Vietname, que acaba de ser divulgado.

“Segundo alguns critérios, a Ásia Oriental parece ser uma das regiões menos religiosas do mundo. Relativamente poucos adultos da Ásia Oriental rezam diariamente ou dizem que a religião é muito importante nas suas vidas”, pode ler-se no resumo do estudo. “No entanto, o inquérito também revela que muitas pessoas em toda a região continuam a manter crenças religiosas ou espirituais e a participar em rituais tradicionais”, sublinha o texto.

Um grande número de adultos em toda a região – variando entre 27% em Taiwan e 61% em Hong Kong – afirma que “não tem religião”. Mas mesmo entre essas pessoas sem filiação religiosa , metade ou mais deixam oferendas a antepassados ​​falecidos; pelo menos quatro em cada dez acreditam em Deus ou em seres invisíveis; e um quarto ou mais dizem que as montanhas, rios ou árvores têm espírito.

Em Taiwan, por exemplo, apenas 11% dos adultos dizem que a religião é muito importante para eles, mas 87% acreditam no carma. E pelo menos um quinto dos adultos em cada uma das quatro sociedades da Ásia Oriental inquiridas, bem como 79% dos adultos no vizinho Vietname, asseguram sentir que o espírito de um antepassado veio em seu auxílio em algum momento das suas vidas.

No Japão, 70% dos inquiridos relatam ter oferecido comida, água ou bebidas para homenagear os seus antepassados ​​nos últimos 12 meses. Uma percentagem que atinge os 86% no Vietname. Orar ou oferecer sacrifícios a figuras religiosas ou divindades é também bastante comum. Em Hong Kong, 30% dos adultos dizem que rezam ou oferecem os seus sacrifícios a Guanyin, uma divindade associada à compaixão, e em Taiwan 46% fazem-no em relação a Buda.

“Em suma, quando medimos a religião nestas sociedades por aquilo em que as pessoas acreditam e pelo que fazem, e não pelo facto de dizerem que têm uma religião, a região é mais vibrante religiosamente do que pode parecer inicialmente”, conclui o Pew Research Center.

A pesquisa – realizada em sete idiomas, de 2 de junho a 17 de setembro de 2023 – representou um desafio complexo para o centro de estudos sedeado em Washington (EUA), tendo em conta que o conceito de religião foi importado para a região da Ásia Oriental por estudiosos há cerca de apenas um século, e as traduções comuns de “religião” (como zongjiao em chinês, shūkyō em japonês e jonggyo em coreano) são muitas vezes entendidas como referindo-se a formas organizadas e hierárquicas de religião – como o Cristianismo ou novos movimentos religiosos – e não às formas tradicionais asiáticas de espiritualidade.

 

Do budismo ao cristianismo… e vice-versa

Jovens coreanos no palco da JMJ em Lisboa, depois do Papa anunciar a realização da próxima jornada em 2027 na Coreia do Sul. Foto © Sebastião Roxo/JMJ 2023.

Jovens coreanos no palco da JMJ em Lisboa, depois do Papa anunciar a realização da próxima jornada em 2027 na Coreia do Sul. A percentagem dos que se dizem cristãos no país é de 32%. Foto © Sebastião Roxo/JMJ 2023.

O estudo destaca a “percentagem substancial de adultos” que se identifica como cristã em Hong Kong (20%), e que é superior à de budistas (14%), mas ainda assim bastante inferior à dos que se assumem como não religiosos (61%). Na Coreia do Sul, país que irá acolher as próximas Jornadas Mundiais da Juventude em 2027, os sem religião são menos que em Hong Kong, mas ainda assim mais de metade (52%). Já os que se dizem cristãos são 32% e os budistas 14%.

A percentagem de pessoas que mudaram da religião em que foram educadas para alguma outra religião – ou para nenhuma religião – varia entre 17% dos adultos no Vietname e 53% em Hong Kong e na Coreia do Sul.

As divergências são principalmente a partir do Budismo, Cristianismo e Taoísmo. Em Hong Kong, 15% dos adultos dizem que foram criados como cristãos, mas que agora não têm religião. E 14% dos adultos sul-coreanos e japoneses relatam que foram criados como budistas, mas que já não se identificam com nenhuma religião.

Contudo, as elevadas taxas de mudança religiosa não resultam exclusivamente do abandono da religião pelas pessoas. Aproximadamente um em cada dez adultos na Coreia do Sul (12%) e em Hong Kong (9%) identifica-se atualmente como cristão, mas foi criado numa tradição religiosa diferente, como o budismo, ou foi mesmo educado sem identidade religiosa. Da mesma forma, 11% dos adultos em Taiwan e 10% no Vietname foram criados fora do budismo, mas agora identificam-se como budistas.

De referir ainda que a maioria das pessoas entrevistadas em toda a região afirma sentir uma ligação pessoal ao “modo de vida” de pelo menos uma crença ou filosofia religiosa, mesmo que não corresponda à sua identidade religiosa atual. Por exemplo, 34% dos cristãos sul-coreanos dizem sentir uma ligação pessoal com o modo de vida budista, e 26% dos budistas na Coreia do Sul sentem uma ligação com o modo de vida cristão.

 

Desfiliação religiosa superior à da Europa

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A taxa de abandono da religião na Ásia Oriental ultrapassa a da Europa Ocidental. Foto © Rodnae Productions/Pexels

Seja como for, “no geral, a população sem filiação religiosa teve um ganho líquido com a mudança em quatro dos locais inquiridos, conclui o estudo. “As taxas de mudança religiosa no Leste Asiático (de 32% no Japão a 53% em Hong Kong e na Coreia do Sul) são mais altas do que as medidas do Pew Research Center em muitos outros lugares. Por exemplo, nos nossos inquéritos anteriores sobre religião em toda a Ásia desde 2019 – incluindo no Camboja, Índia, Indonésia, Malásia, Singapura, Sri Lanka e Tailândia – apenas a taxa de mudança religiosa de Singapura (35%) se aproxima das taxas observadas nas sociedades do Leste Asiático”, destaca o resumo do estudo.

E continua: “Mesmo no nosso inquérito de 2017 a 15 países da Europa Ocidental – uma região onde décadas de desfiliação levaram a um crescimento acentuado no número de pessoas sem filiação religiosa – não encontrámos nenhum país em que a taxa de mudança excedesse os 40% (o mais elevado foi de 36%, nos Países Baixos).”

Quanto aos Estados Unidos, 28% dos adultos já não se identificam com a tradição religiosa em que foram criados, de acordo com dados recolhidos pelo Pew Research Center no verão de 2023 .

A mudança religiosa é muito menos comum na América Latina e na região do Médio Oriente-Norte de África, em que a percentagem não ultrapassa os 15% em nenhum dos países avaliados pelo centro de estudos norte-americano.

 

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