Teatro: À espera de um jogo de espelhos em Goga

| 17 Mai 19 | Cultura e artes, Teatro / Dança / Coreografia, Últimas

Foto © Francisco Cardoso / MEF (Movimento de Expressão Fotográfica)

 

Entra-se e estão as 23 personagens no palco. Em rigor, esse número inclui as personagens e os seus espelhos. Estão fixas, rígidas. São um quadro que se deve olhar, de modo a reparar em todos os pormenores. Porque está o corcunda Teobald de livro na mão? Porque há um homem e uma mulher com malas? Porque estão aquelas duas costas com costas? O que faz um (poeta? escritor?) sentado à secretária, diante da máquina de escrever? E aquela mulher de véu será uma noiva? Devemos fixar as poses, os objectos, isso será com certeza importante mais tarde.

“Talvez agora comece algo novo: uma nova vida, uma luminosa nova vida!”, dirá Gapit pouco depois, levantando o copo para propor um brinde. A nova vida de Goga pode estar para vir, de facto: Hana voltou à vila, traz outros horizontes mas também as suas angústias, sonhos e pesadelos. E a vila vê-se confrontada com a necessidade de viver um acontecimento que a retire da modorra. Será esse acontecimento o regresso de Hana? Ou alguém que é assassinado? Ou alguém que se mata? Ou um fogo?

Um Acontecimento em Goga, do esloveno Slavko Grum (1901-1949), encenado por Júlio Martín da Fonseca e levado à cena pelo TUT – Teatro Académico da ULisboa, poderá ser visto ainda neste sábado, 18 de Maio (21h30) e no domingo, às 17h, no Auditório da Cantina Velha (Cidade Universitária), em Lisboa. A peça insere-se, aliás, na programação do 20º FATAL (Festival Anual de Teatro Académico de Lisboa).

Pela primeira vez representada em Portugal, 70 anos depois da morte do autor, esta peça terá sido escrita em finais da década de 1920. Foi publicada em 1930 e estreada no ano seguinte. O autor tinha ido estudar medicina para Viena (Aústria), onde conheceu a psicanálise de Sigmund Freud, bem como os novos movimentos artísticos, sociais, espirituais e políticos que nessa época atravessavam a Europa. O nazismo estava à beira de tomar o poder, o estalinismo consolidara-se na União Soviética, a Europa escava ainda nas feridas que tinham ficado da Grande Guerra 1914-18.

Entre as vanguardas artísticas, o simbolismo e o expressionismo influenciaram Grum que, socorrendo-se também da reflexão inovadora de Freud, coloca as suas personagens “como que manipuladas por forças do subconsciente, das quais só se conseguem libertar dando-lhes vida plena até ao seu esgotamento”, como caracteriza o encenador.

Foto © Francisco Cardoso / MEF (Movimento de Expressão Fotográfica)

 

É isso que sucede em Um Acontecimento em Goga. O nome da pequena cidade ficou, aliás, na linguagem simbólica eslovena como símbolo de uma mentalidade colectiva sufocante. Os tiques dos pequenos meios estão lá também: os boatos, a maledicência, a coscuvilhice. Mas tudo isso acontece em função da expectativa de que algo aconteça. “Talvezagora comece algo novo: uma nova vida, uma luminosa nova vida!”, repetir-se-á, como um estribilho, por mais algumas vezes. Goga pode ser uma “estação subterrânea, escondida, mais bem ocultada que oculta, não propriamente secreta, mas portadora de segredos do corpo, da mente e da alma humana”.

Ao longo da peça, esse jogo de sombras, segredos e expectativas continuará presente: as diferentes falas que se sobrepõem; as personagens que se olham ao/em espelho; os pensamentos que vão e vêm; as memórias (identidades) que se perdem ou se recuperam; os acontecimentos reais ou imaginários que se desencadeiam ou que se interrompem; os mortos que afinal estão vivos e os vivos que estão mortos; a representação teatral que, também em espelho, é ensaiada dentro do teatro pelo corcunda Teobald e pela senhora Prestopil… Tudo isso servido por uma encenação em que o palco e os bastidores são uma única e mesma realidade – ou não, uma vez que, enquanto decorrem algumas cenas, outras movimentações secundarias podem estar a acontecer.

Procura-se, enfim, alguma mudança na vida de cada um/a. “Numa sociedade em que a mudança permanente se tornou a norma, também se instala uma certa uniformidade, pois se aprende que no essencial tudo continua na mesma”, escreve o encenador nas notas ao programa. Todos estão em busca do tempo ou do paraíso perdidos. No final, daremos conta de que “a imaginação é o único paraíso do qual não podemos ser expulsos”. E quem de nós terá sido expulso de Goga?

Foto © Francisco Cardoso / MEF (Movimento de Expressão Fotográfica)

 

Um Acontecimento em Goga – TUT – Teatro Académico da ULisboa); encenação de Júlio Martín da Fonseca

Auditório da Cantina Velha (Cidade Universitária), Lisboa; Sábado, 18 de Maio, 21h30 e Domingo, 19 de Maio, 17h

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