Tecnologia e Espiritualidade em tempo de crise

| 25 Mar 19

Não é nenhuma novidade dizer que vivemos hoje num mundo em crise. Crise por todos os lados: religiosa, política, cultural, económica, humana. Talvez isto seja algo constante na espécie humana e não seja algo inédito. O que se trata é de identificá-la o mais possível e tirar daí lições para o nosso dia-a-dia. Porque disso se trata no campo da Espiritualidade: é algo que não nos afasta do mundo, mas algo que nos devolve a ele de maneira mais profunda e intensa, ao seu âmago.

Vou comentar neste artigo a questão das novas tecnologias.

1. O impacto que as novas tecnologias têm no nosso mundo é inegável. A velocidade, intensidade e extensão das mudanças sociais e mentais que eles produzem são impressionantes. Os sociólogos do nosso tempo falam da “revolução 4.0”, uma revolução que poderia ser considerada como a quarta revolução industrial (ver, por exemplo, Klaus Schwab, A quarta revolução industrial(Edipro, São Paulo 2016).

Lembrando: a primeira teria sido entre 1760 e 1840. Foi causada pela construção dos caminhos de ferro e pela invenção do motor a vapor. Era de natureza mecânica. A segunda revolução industrial foi iniciada no final do século XIX e entrou no século XX: foi o surgimento da eletricidade e da linha de montagem, o que permitiu a produção em massa. A terceira começou nos anos 60. Chama-se “revolução digital ou computacional”. Foi impulsionada pelo desenvolvimento de semicondutores, computação em mainframe (década de 1960), computação pessoal (década de 1970 e 1980) e Internet (década de 1990).Agora estaríamos no começo de uma quarta revolução industrial. Como poderíamos caracterizá-la?Originou-se na viragem do século e baseia-se na revolução digital. Eis algumas das suas características: uma Internet mais omnipresente e móvel, por sensores menores e mais potentes (que se tornaram mais baratos), pela inteligência artificial e pela aprendizagem automática (ou aprendizagem da própria máquina). (Talvez possamos, com mais tempo, perceber que essa assim chamada “revolução 4.0”, é apenas um estágio do anterior, chamado de “terceira revolução”, porque é algo que parece “mais do mesmo”, do terceiro, do digital, só que a uma velocidade, complexidade e extensão muito maiores. Levando isto em conta, porém, continuaremos a chamá-la de momento e por acordo semântico, “revolução 4.0.”).

2. Está ainda por ver se esta “revolução 4.0.” promoverá mais harmonia social, equilíbrio económico e justiça social. Duvido. Acho que a tecnologia, como tal, não promove mais justiça. A tecnologia não é neutra. Na nossa sociedade capitalista neoliberal, favorece o Capital frente ao mundo do Trabalho. É uma tecnologia de classe. A tecnologia precisa de ser “finalizada”, ou seja, precisa de encontrar fins éticos e espirituais que a orientem. Nas mãos do Capital só servirá para obter gigantescos benefícios para uma minoria. Se, pelo contrário, ela for orientada por valores humanistas e éticos, poderá servir ao interesse coletivo da sociedade e não a uns poucos. Muito provavelmente sofrerá também drásticas transformações internas para favorecer este objetivo mais social e menos egocêntrico.

3. Como se situa a Espiritualidade neste contexto?

Se entendemos a Espiritualidade (que não é necessariamente idêntica a Religião, embora se possa entrecruzar com ela e dizer que toda a Religião deve partir e conservar uma Espiritualidade de base) como uma atitude frente à Vida na sua totalidade, uma atitude que passa por criar e recriar mais Vida, para nós, para o coletivo da Humanidade e para o resto da Natureza, que é algo que tem a ver com a nossa mística existencial (seja-se ateu, agnóstico ou crente, na ótica das religiões), então pode aparecer claro que o egocentrismoda acumulação privada não pode ser em absoluto um objetivo espiritual.

Neste sentido, a Espiritualidade é a superação do ego, tanto a nível individual como a nível coletivo (os egos sociais: nacionalismo, por exemplo). Portanto, a Espiritualidade torna-se um poderoso alimento de transformação, de mudança de vida, tanto do nosso quotidiano pessoal, como das nossas relações sociais e naturais como um todo. A Espiritualidade não é só uma questão individual, se bem que o mundo interiore o seu trabalho permanente é algo imprescindível. É também uma questão de uma transformação de estruturas económicas, tecnológicas, políticas, sociais, culturais e, inclusive, religiosas.

A Espiritualidade não pode ser uma Espiritualidade de refúgio frente a um mundo ameaçador, muito instável e até violento. A Espiritualidade, pelo contrário, é uma atitude mental e afetiva que orienta a nossa pegada neste Planeta de maneira responsável, positiva, propositiva e alegre.

(Voltaremos a estas importantes questões em artigos próximos)

Rui Manuel Grácio das Neves é frade dominicano, “Bodhisattva” da “Sangha” Zen de Lisboa e trabalha presentemente sobre a Espiritualidade Holística

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