Tem graça: ainda vou à missa!

| 8 Dez 19 | Entre Margens, Últimas

É o que fico a pensar, depois de ouvir certas conversas…

Por isso, apreciei muito a sugestão do Conselho Diocesano de Pastoral, de Aveiro (lida no Correio do Vouga, jornal diocesano, a 23 de Outubro): «escutar as pessoas sem medo do que disserem». Mas… E se as pessoas têm medo de dizer o que lhes vai na alma? E não seria igualmente importante perguntar «Por que é que vai à missa»?

Sintetizando as perguntas: Será porque «a catequese não está a cumprir a sua missão de iniciação cristã»? Por «desconsideração do sacramento da confissão ou determinados tipos de pregação»? Porque a Igreja não é «capaz de criar elites ou líderes cristãos»? Porque não é «suficientemente audaz»? Porque não há consenso sobre os «objectivos de evangelização»?

À primeira pergunta, preferia dar um jeitinho: Será que a catequese cristã não está a cumprir a sua missão de iniciação?

Todas as religiões têm catequese própria – a que não devia faltar a mais cativante iniciação ao contínuo crescimento de cada pessoa. Valorizando em cada qual o jeito de trepar mais alto e de admirar o mundo a toda a volta. Dessa altura se descobrem as infinitas formas de beleza e do bem, que as próprias sombras fazem sobressair. E também se aprende a dominar escarpas tenebrosas. Com esta abertura de visão, é que sabemos dar o devido valor à «civilização cristã»: manifesta-se no viver do dia-a-dia, nos modos de amar, de aumentar o bem-estar da sociedade, de se cultivar… na arte, na ciência, no pensamento e sobretudo na sabedoria. Tomamos consciência de que ser cristão é ser uma pessoa bem formada.

Uma das ideias fortes nos evangelhos é como Jesus quis ensinar a abrir os olhos para todos os horizontes e aí descobrir que o «trabalho de Deus» é o nosso trabalho em parceria com Deus: enraizar a boa-nova do reino de Deus. Esta expressão, nuclear à mensagem de Jesus, simboliza o mistério da presença activa de Deus no mundo. Como tal, é indefinível. Aliás, «Deus», por si, não pode ser definido – e «reino» não pode ter os sentidos correntes. Será como uma expressão poética, tão simples quanto profunda.

Crentes ou não, simpatizantes ou não… toda a gente podia reconhecer o alcance da mensagem. Como boa notícia, anunciava a esperança em que esta vida pode ser cada vez mais agradável. As multidões entusiasmavam-se e sentiam que valia a pena embarcar no projecto que tinha força para transformar a vida de todos os tempos, exigindo apenas a transformação da maneira de viver de cada um de nós – «Deus só ajuda a quem se ajuda!»

No tempo de Jesus, atribuir a Deus o nome de «Pai» era usar um símbolo poderoso: da fusão entre amor, justiça, atitude de respeito e de escuta…; e de se esforçar por «sair ao Pai»: sempre disposto a perdoar, a aproximar-se de quem precisa de ajuda, se for preciso dando vida por vida.

Ficaria bem dizer ao Pai que se gosta muito dele quando se vive a tirar proveito da injustiça e violência? A catequese cristã pode constituir excelente iniciação no dinamismo do mundo real e em como combater as causas da injustiça social.

Nesta estratégia de humanização, tem-se perigosamente esquecido a iniciação ao valor da beleza: é um trunfo precioso para que as missas não sejam uma «chatice» (como é vulgar ouvir) e as igrejas possam ser olhadas como o lugar em que temos o prazer de juntar os nossos desejos, conhecimentos e capacidades sob o objectivo do tal reino de Deus. O convívio entre uma assistência heterogénea quanto a gostos, espiritualidade e sentimento artístico, exige que a iniciação saiba corrigir o empobrecimento do nível cultural. E o gosto artístico no domínio da música e arte sacra só traz novidade e agrado a este processo de crescimento contínuo e harmonia social.

A variedade das manifestações artísticas esconde um mundo de ideais, de ciência, de tentativas de exprimir a imponência e sentido da vida e de todo o universo, de conjugar Deus e Humanidade. Pintura, escultura, arquitectura, música popular ou erudita, música clássica, canto gregoriano… toda essa Arte pode estar presente nas celebrações religiosas «como a comida quer o sal».

O mais importante raramente é bem expresso. Talvez em tentativas futuras, se esclareça melhor por que é que «ainda vou à missa».

Manuel Alte da Veiga é professor universitário aposentado

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