No segundo dia do Fórum do Kaiciid

Templos “dois em um”, missas onde se ensina ecologia e outras ideias para um mundo melhor

| 16 Mai 2024

Maquete da God's House, projeto inovador que reúne num único edifício uma igreja cristã e uma mesquita. Foto God's House

Maquete da God’s House, projeto inovador que reúne num único edifício uma igreja cristã e uma mesquita. Foto © God’s House

 

Uma igreja luterana e uma mesquita no mesmo edifício, unidas por um átrio central envidraçado, sob o qual cristãos e muçulmanos se encontram e conversam como amigos e membros de uma mesma comunidade, participam em atividades culturais, e até rezam juntos. E onde membros de todas as outras religiões (e também não religiosos) são bem-vindos. Pode parecer ficção, mas não é. Chama-se God’s House (em português, Casa de Deus), está a ser construída nos arredores de Estocolmo (Suécia), e foi um dos exemplos “vivos” de como as religiões podem contribuir para a paz apresentado no Fórum Global de Diálogo, promovido pelo Kaiciid, que terminou esta quinta-feira, 16, em Lisboa.

Quem deu a conhecer o projeto foi um dos seus fundadores, o padre luterano Carl Dahlbäck, que apesar de ter aprendido do pai – que também era padre – a importância do diálogo inter-religioso, confessa que tinha vários preconceitos em relação aos muçulmanos. “Os meus pais sempre me ensinaram o respeito pelos outros, no local onde vivíamos havia uma rua que tinha cinco Igrejas diferentes, e o meu melhor amigo era da Igreja Pentecostal… mas só quando me tornei padre é que comecei a lidar com muçulmanos, e levei alguns anos até conhecê-los verdadeiramente”, contou aos participantes no fórum.

Entre os muçulmanos que conheceu, fez novos amigos. E na cada vez maior interação com eles foi ganhando forma a ideia de construir esta “Casa de Deus” nos arredores de Estocolmo, mais propriamente em Fisksätra, uma comunidade de oito mil pessoas provenientes de mais de 80 nações diferentes, e em que muitos cristãos e muçulmanos vivem paredes meias uns com os outros.

“O projeto é muito controverso para algumas pessoas, especialmente na ala direita da sociedade”, admitiu o padre luterano. “Mas o que pretendemos é que seja sobretudo um símbolo forte de paz e que mostre o caminho a seguir para um futuro esperançoso e pacífico onde, ao celebrar as nossas diferenças e unir os nossos valores partilhados, nos regozijamos ao ver um irmão e uma irmã nas pessoas que encontramos”, assinalou.

Apesar de, neste momento, ainda só estar construída a igreja luterana (o terreno adjacente para a mesquita já foi adquirido e as obras irão iniciar-se em breve), o projeto God’s House já tem várias iniciativas a decorrer, como sessões de diálogo e festivais culturais. São também regulares as orações inter-religiosas pela paz, com leituras a partir dos diferentes livros sagrados, o que assume particular relevância numa altura em que as autoridades suecas continuam a conceder permissão para protestos no país que envolvem a queima do Alcorão.

“Nós não temos a verdade, estamos à procura dela” é o primeiro dos vários princípios definidos para este projeto inovador. Uma lista que inclui também “A diversidade é complicada, mas mais divertida”, ou “Somos todos filhos de Abraão (e antes disso somos todos humanos)”, partilhou Carl Dahlbäck, visivelmente orgulhoso e convicto de que a Casa de Deus é apenas “um pequeno vislumbre do futuro das sociedades transformativas” e uma forma de mostrar como é importante “vivermos lado a lado, não só em abstrato, mas no mesmo espaço físico”.

 

A “ecologia sagrada” e como tudo se interliga

Azmaira Alibhai durante a sua intervenção no Fórum Global do Kaiciid, 16 maio 2024. Foto Clara Raimundo

Apaixonada pela natureza, Azmaira Alibhai, muçulmana ismaili (ao centro), partilhou que o Papa Francisco é uma inspiração. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

 

Azmaira Alibhai, outra das oradoras do Fórum, é a prova viva da importância dessa convivência. Natural do Quénia, é filha de mãe católica e de pai muçulmano ismaili, e apresentou-se como muçulmana ismaili, mas sublinhando: “o facto de ter uma herança mista influenciou o modo como olho para a vida, e nunca vi os cristãos versus muçulmanos, como tantas vezes aconteceu na História do meu país”.

Licenciada em Direito, Azmaira trabalha no Quénia como coordenadora do programa Fé e Ecossistemas das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Participou no painel “Biblioteca Humana: Histórias de resiliência e esperança”, e falou da sua missão principal: mobilizar os “atores religiosos” para que se envolvam em ações em prol do cuidado da Casa Comum. Apesar de ser muçulmana, fez questão de sublinhar que uma das suas grandes inspirações são as encíclicas Laudato Si’ e Laudate Deum, escritas pelo Papa Francisco. A natureza é a sua grande paixão, e foi com entusiasmo que verificou que a “ecologia sagrada” seria um dos principais temas em discussão neste Fórum Global do Kaiciid.

De facto, grande parte do segundo dia do encontro foi dedicada a escutar líderes de diferentes religiões e partes do mundo sobre como as crenças e práticas espirituais se cruzam com a conservação ambiental e podem contribuir para a promoção de uma relação mais sustentável e harmoniosa com a Terra.

O bispo Maroun Nasser Gemayel, da Eparquia de Nossa Senhora do Líbano em Paris, visitador para os maronitas na Europa, lamentou o “fardo ambiental” que a nova geração carrega consigo e defendeu que as diferentes Igrejas têm o dever de usar o seu “poder de influência” para “educar as massas” no sentido de cuidar do planeta. “Nas Igrejas cristãs, temos todos os domingos uma missa onde podemos impactar milhares de pessoas com a nossa mensagem… e se falarmos da colaboração entre as diferentes religiões ainda mais! Podemos criar uma força impressionante para reconstruir a sociedade em que vivemos”, afirmou o clérigo, que participou no encontro em representação do Patriarca Maronita Mar Bechara Boutros al-Rahi.

Lembrando que “os líderes religiosos não possuem armas, só o poder do discurso e da retórica”, o bispo destacou que “o discurso da religião tem de basear-se na preservação e proteção da natureza”, e deixou um apelo: “os líderes políticos não deviam ignorar as recomendações dos líderes religiosos, nem ter medo de os representar”.

Painel sobre ecologia sagrada no Fórum Global do Kaiciid, 16 maio 2024. Foto Kaiciid

Os líderes políticos não deviam ignorar as recomendações dos líderes religiosos, nem ter medo de os representar”, defendeu o bispo Maroun Nasser Gemayel (segundo a contar da direita), durante o painel inter-religioso dedicado à “ecologia sagrada”. Foto © Kaiciid

 

Partindo de uma realidade completamente diferente, o monge indiano Yudhistir Govinda Das, responsável de comunicação da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna, subscreveu a proposta do monge maronita. “Não esqueçamos que 80% da população mundial se identifica com alguma religião… É preciso que a religião exerça a sua influência para que todos percebam que a natureza é divina, e ao perceberem isso mais facilmente vão respeitá-la”, disse. “Quando enviarmos esta mensagem a uma só voz, ela terá um impacto massivo”, reiterou.

O monge indiano sublinhou depois a importância de os líderes religiosos darem o exemplo, nomeadamente trabalhando para tornar os respetivos lugares de oração “mais verdes”, adotando uma dieta alimentar “amiga do ambiente”, ou organizando iniciativas com a preocupação da sua sustentabilidade.

“Falava recentemente com um amigo que é médico e ele disse-me: colocamos muito ênfase no tratamento, mas não pomos ênfase suficiente nos cuidados de saúde, que é o que previne que as pessoas fiquem doentes… E nas questões ambientais passa-se o mesmo”, assinalou Yudhistir Govinda Das.

A prioridade, defendeu, é ensinar as novas gerações a “pensar sustentadamente”. Nesse sentido, a sua comunidade tem estado a trabalhar com o governo da Índia num programa para as escolas, em que todos os estudantes são convidados a plantar uma árvore e a ser responsáveis por cuidar dela durante um ano. No ano seguinte, transmitem essa responsabilidade a outro colega mais novo. “Já participaram mais de 500 mil estudantes e o impacto está a ser tremendo”, assegurou.

Uma coisa é certa, para todas as religiões: “proteger a natureza é uma obrigação sagrada, porque vem de Deus”, lembrou Yahya Cholil Staquf, estudioso muçulmano e cofundador do um movimento global Islão Humanitário. “E o bem-estar da natureza e da humanidade são inseparáveis. Seja o que for que fizermos para perseguir o bem-estar da humanidade, é proibido fazê-lo de forma a que destruamos a natureza. E, por outro lado, aquilo que fizermos pelo bem-estar da natureza não pode prejudicar o nosso irmão ser humano”, assinalou. Porque está tudo interligado: “Prejudicar os nossos irmãos vai criar injustiça, e esta vai criar conflito, e este vai trazer destruição à natureza”, explicou.

O bispo maronita aproveitou a deixa para acrescentar: “Todos são criaturas de Deus, seja qual for a cor ou religião. E o Homem tem de preservar todas as criaturas. Consequentemente, escravizar uma nação, destruir a terra onde vivem, destruir casas e instituições… isso é contra a religião e tem de ser parado. (…) Como é que no século XXI ainda temos nações que tentam alienar outras nações e pessoas, ignorando completamente os direitos humanos?”. Ninguém se atreveu a responder. Mas todos concordaram que mais encontros como este são necessários para encontrar respostas e forjar soluções.

 

O vídeo das sessões plenárias do segundo dia de trabalhos do Fórum pode ser visto no canal YouTube do Kaiciid:

Uma tarde para aprender a “estar neste mundo como num grande templo”

Na Casa de Oração Santa Rafaela Maria

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Patriarca de Lisboa convida “todos” para “momento raro” na Igreja

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