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Tempo de Páscoa, imagens de Vida

| 01/04/2021

Imagem do filme Acto da Primavera, de Manoel d'Oliveira

 “Páscoa era todo o processo dramático, certo e renovado a cada ano, da Paixão e Morte do Senhor.” (Imagem do filme Acto da Primavera, de Manoel d’Oliveira, autos da Paixão representados no nordeste transmontano)

 

Muitas vezes, há uma circunstância do tempo presente que nos leva a uma já esquecida memória do passado. Assim me aconteceu, quando li a crónica de frei Bento Domingues no domingo passado, Domingo de Ramos, no Público. Escreve Frei Bento que “na Europa já não estamos em regime de Cristandade”. Em muitos países houve mudanças, quando foi “felizmente consumada” a separação entre Igrejas e Estado. Também “Portugal vai mudando”, veja-se a diversidade religiosa entre nós. “Mas a ignorância das próprias tradições religiosas parece-me culturalmente lamentável,” pensa Frei Bento.

Por puro acaso, e talvez não só por acaso, encontrei o recorte do artigo em que no jornal O Mundo Português, em abril de 1981, eu evocava a Páscoa. Quarenta anos depois, retomo fragmentos do tom de reportagem que então agradou aos leitores da comunidade portuguesa do Rio de Janeiro. Por lhes acordar ou atenuar a saudade da terra, o desgosto da lonjura.

Cito: “Páscoa era data de festa e contraponto da vida de todos nós. Era fim do segundo trimestre das aulas, tempo de crescerem os dias, sair de manhã já com claridade do sol, chegar depois das lições da tarde, antes de escurecer. Era tempo de ervilhas e de batatas novas, de cebolas frescas cozidas aos molhos e de favas com sabor de coentros. Era tempo de mimosas e de glicínias, de todas as flores de cor lilás, também pela Paixão do Senhor. Era a época dos preparativos e projetos, depois dos quarenta dias da Quaresma, da abstinência das sextas-feiras, eram promessas de festa. Era o tempo de leite com abundância, desmamados os vitelos, tempo dos pintainhos novos das chocas, das rãs fugidias nos regos de água. Tempo das nêsperas amargas e das plantas trepadeiras rebentando em flor. Era tempo de revolver a terra, de semear, de plantar.

E Páscoa era todo o processo dramático, certo e renovado a cada ano, da Paixão e Morte do Senhor. Era o cheiro a incenso entranhado na escada escura do coro da igreja, era o Círio Pascal erguido no altar mor. Eram as imagens dos santos cobertos de panejamentos, em luto pela Paixão.

Era o andor do Senhor dos Passos na sua capela, figura fascinante para os nossos olhos, no entoar das ladainhas em canto chão víamos as feridas escorrendo sangue vivo, os cabelos saindo da monstruosa coroa de espinhos cravada na cabeça até à testa. Caído debaixo do peso da cruz, o Senhor não parecia sentir alívio pelo roçar da sua túnica roxa de pura seda debruada de ouro, nem pelas flores que o envolviam, nem pelo calor das velas acesas, nem pelas nossas súplicas em face do seu sofrimento.

A Páscoa era na Quinta-Feira Santa o Lava-Pés dos velhinhos do Asilo, humildes apóstolos, cobertos por vestes brancas. Era a Procissão do Enterro na Sexta-Feira às onze da noite, a vila atravessada pelo andor com o caixão de Jesus, batida compassada dos tambores e metais da banda filarmónica, eram as portas da igreja fechadas em sinal de luto. No Sábado, era o repicar das aleluias. E no bafo da noite, os cânticos saindo pelas portas escancaradas da Igreja Matriz, luz de velas e renovação das promessas do Batismo.

Lá fora, o clarão das fogueiras castigo do apóstolo renegado. Nos becos, a queima do Judas. Esventrado, retalhado, boneco vestido a rigor, balançando na forca, direto para o fogo. Em volta, as lojas abertas e iluminadas, o pirulito de berlinde vendido a copo, o bolo de mel e azeite saído do forno, sabor de canela.

Domingo de Páscoa e o almoço de família. A mesa grande posta para dia de festa, toalha branca de bordados abertos, os pratos e os vinhos, as taças de amêndoas e confeitos, a conversa de roda.

Ritmo sempre igual, estando nele não se podia nem pensar em tantas alterações, nem num mundo tão vasto e acidentado que para todos haveria de chegar.”

 

Leonor Xavier é escritora e jornalista e integra o movimento Nós Somos Igreja – Portugal; Laranjeiras em Atenas é o seu último livro.

 

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