Tempos sombrios: um apelo à responsabilidade e à precaução

| 11 Jul 2022

Hans Jonas: Colega e amigo de Hannah Arendt, o filósofo alertou para o “estado apocalíptico das coisas”. Foto © Direitos reservados.

Hans Jonas: Colega e amigo de Hannah Arendt, o filósofo alertou para o “estado apocalíptico das coisas”. Foto © Direitos reservados.

 

A formulação “tempos sombrios” que dá o título a este texto, remete para o livro da filósofa Hannah Arendt, Homens em Tempos Sombrios, sobre as biografias de homens e de mulheres que viveram na primeira metade do século XX, contemporâneos do totalitarismo em ambas as suas formas: nazismo e estalinismo. No texto inaugural do referido livro, Hannah Arendt diz-nos o seguinte:

“A história conheceu muitos períodos de tempos sombrios nos quais o domínio público se obscureceu e o mundo se tornou tão incerto que as pessoas deixaram de pedir à política mais do que a consideração pelos seus interesses vitais e pela sua liberdade pessoal.”

Hoje, a cortina que se abate sobre o mundo tem uma espessura tão densa que obscurece tanto o pensamento individual como o público, ameaçando de diferentes maneiras não um grupo, mas globalmente o futuro do humano. Há a guerra com o seu imparável cortejo de morte e destruição. Há vírus que rompem barreiras e espalham o medo entre as populações. E as alterações climáticas mudam o rosto das estações, desertificam e espalham o caos um pouco por toda a parte. Perante este estado de coisas, a incerteza paira no ar sobre a robustez a médio-prazo das economias ocidentais, e a miséria espreita, começando por colher os mais frágeis.

O que podemos fazer para além da compaixão pelos que sofrem directamente os efeitos maléficos desta ameaçadora conjuntura? Se bem que nobre, a compaixão por si só é insuficiente para resolver a magnitude dramática do nosso tempo. Trata-se de sentir com o outro o infortúnio dele como se fosse o seu próprio infortúnio, sofrendo com e por ele. Ora, ainda que caloroso e plenamente humano, o sentimento da compaixão sente mais do que fala e há alturas em que a palavra certa, ética, deve ser pronunciada, como resposta ao que nos interpela. E o campo da palavra e da resposta ética é, por definição e acção, o âmbito da responsabilidade, que, lembre-se, etimologicamente deriva do termo latino responsa, que significa resposta.

O filósofo que alertou para o “estado apocalíptico das coisas” foi Hans Jonas, colega e amigo de Hannah Arendt, que nos propõe uma Ética da Responsabilidade e da Precaução em nome do futuro da Humanidade. Judeu alemão, nascido em 1903 e falecido em 1993, Hans Jonas saiu da Alemanha logo que Hitler ascendeu ao poder e deu início ao seu programa de perseguição e erradicação dos judeus (1933). Por essa altura, também abandonou a Filosofia desgostoso por Heidegger, o seu professor mais admirado, ter aderido ao nacional-socialismo. No início da Segunda Guerra Mundial (1939), Hans Jonas alistou-se no Exército britânico, lutando como soldado contra os exércitos do Reich, convicto de que é na acção que o ser se revela e que o dever de qualquer indivíduo é responder activamente por aqueles que precisam. Ora, este voluntarismo de Jonas revela-nos desde logo dois traços marcantes da sua personalidade que se irão reflectir nas suas obras. Acima de tudo e antes de mais, ele é um homem de acção, comprometido com o Mundo e a responsabilidade define a sua atitude face à Vida.

Se a guerra o afastara da Filosofia, é a guerra que o faz regressar a ela. Com efeito, o facto de viver como combatente a experiência do horror da morte e da destruição, levam-no a exaltar o sumo valor da Vida, e a desenvolver o profundo respeito pela presença plena do Ser frente ao Não Ser.  O confronto com o Holocausto (em 1945 regressou à Alemanha como soldado vitorioso, conforme jurara a si mesmo, para descobrir que a sua mãe tinha sido morta em Auschwitz), mostra-lhe que o Mal é um problema da acção. Mas foi sobretudo o lançamento das bombas atómicas em Hiroxima e Nagasaki que o levaram a tomar consciência do poder aniquilador do humano, com um potencial desmesurado, capaz de destruir a vida planetária.

Foi este o decisivo momento que o reconverteu e o reconduziu à missão do filósofo que é a de “pensar sobre as fundações do nosso ser”. Ensina Filosofia em Israel, no Canadá e finalmente nos EUA (Nova Iorque), onde terminará os seus dias, e escreve duas obras maiores: O Fenómeno da Vida, Rumo a uma Biologia Filosófica (1966), e O Princípio Responsabilidade – Ensaio de uma Ética para uma Civilização Tecnológica (1979). A coerência interna e a complementaridade intrínseca entre as duas obras (como se Jonas nos explicasse a delicada organização da Vida, para logo nos interpelar a agir de acordo com ela), reflectem a sua crença de que o ser humano é um produto da Natureza e não um ser à parte dela, e a sua firme convicção na unidade do conhecimento e da acção.

 

Capa da edição brasileira de O Princípio Responsabilidade

Capa da edição brasileira de O Princípio Responsabilidade

 

Segundo Jonas, a Vida, ou o Ser-no-Mundo, é uma dialéctica criativa que evolui do simples para o complexo e manifesta-se em cada organismo, sem excepção, como um ter-de-ser, uma irreprimível necessidade que obriga todo o vivente a perseverar no seu ser, a manter a sua identidade orgânica na luta constante contra a morte. O ser humano é o produto mais sofisticado da evolução do Ser-no-Mundo, tem uma especialidade que o distingue dos outros viventes, uma differentia specifica – a imaginação, essa sua intensa competência simbólica que cria conceitos, ideias, princípios, valores que projecta e realiza na acção.

O agir humano recria assim um mundo próprio que se sobrepõe ao mundo dado. É este agir e este mundo de concretização das ideias imaginadas que lhe confere a transanimalidade de que fala Jonas. No entanto, este dom especial, esta diferença específica, não é gratuito. Comporta o dever da responsabilidade, princípio indissociável da liberdade. Para este filósofo, a responsabilidade é o fundamento ontológico da acção, porque se coloca no centro da disjunção bem-mal, ou seja, exprime sempre uma resposta pelo que se fez e não devia ter feito (Mal), ou pelo que não se fez e devia ter feito (Bem). Ademais, este dever de responder pelos actos livremente praticados, que é tanto consciência como sentimento, radica na própria biologia da vida, na necessidade compulsória, ôntica, que “obriga” os progenitores de várias espécies a alimentar, proteger e defender as suas crias para que elas possam vir-a-ser. A raiz da responsabilidade mergulha nesta “obrigação” biológica dos entes para com a sua frágil e vulnerável descendência, diz-nos Jonas.

Dadas as suas especiais competências, a aparição do humano no Mundo coincide com a aparição da liberdade e do conhecimento. Um binómio que gera poder – o poder do humano sobre o mundo. E para Jonas, com o aumento de poder, aumenta a responsabilidade. Na análise que efectua à acção tecnológica actual e à sua lógica imparável de auto-proliferação de objectos que rapidamente se tornam necessidades de massas, induzindo o esgotamento dos recursos naturais, a que se junta o progresso científico em domínios como a engenharia genética, inteligência artificial, nuclear, biotecnologia cujas consequências a médio-prazo se revelam imprevisíveis e ameaçam o futuro da humanidade, tornam imperiosa uma Ética para estes tempos sob o princípio da Responsabilidade que mediante a precaução e a prudência refreie o poder irrestrito da tecnociência. Uma Ética conduzida pela heurística do temor, ou seja, pela averiguação dos potenciais efeitos de um dado experimento tecnocientífico seguindo a regra in dubio pro malo, na dúvida sobre o potencial negativo de dado invento deve seguir-se o pior prognóstico e não o concretizar.

Por conseguinte, a ética que Jonas propõe não é tanto uma Ética da liberdade e da crença optimista no progresso ilimitado e num futuro de bem-estar e de abundância, tal como eram as éticas do passado. É «uma Ética de hoje que se preocupa com o futuro e procura protegê-lo para os nossos descendentes das consequências da nossa acção presente.» (Jonas, 1998: 69). É “Uma ética da manutenção, da conservação, da proteção e não do progresso e da perfeição” (Jonas, 1995: 249). Hans Jonas invoca a necessidade de um novo imperativo pelo futuro da humanidade que consubstancie o nosso dever de legar às gerações vindouras um planeta onde elas possam vir-a-ser-no-mundo plenamente. “Um imperativo adaptado ao novo tipo do agir humano e que se dirige a um novo tipo de sujeitos do agir […] apelando sobretudo à política pública, mais do que à conduta privada” (Jonas, 1995: 36-37). E é dentro deste horizonte reflexivo que Jonas, reformulando as máximas kantianas, lhes dá a forma de uma responsabilidade comprometida com a amplitude do Ser:

1) “Age de tal modo que os efeitos da tua acção sejam compatíveis com a permanência da autêntica vida humana sobre o planeta”;

2) “Age de tal modo que os efeitos da tua acção não sejam destrutivos da possibilidade futura da vida humana”;

3) “Não comprometas as condições para a continuação indefinida da humanidade sobre a Terra”.

Mesmo que pouco provável, a ameaça de confronto nuclear paira sobre a Europa. A covid-19 mostra-nos o quanto somos vulneráveis. As alterações climáticas tornaram-se hoje já uma emergência pela desfiguração mais do que provável da vida planetária que coloca em risco a sobrevivência do humano, da Vida, do Ser-no-Mundo.

É da ordem dos factos que estes tempos sombrios clamam por respostas não imediatistas e alertam-nos para a possibilidade de um futuro de devastação.

Compreenderemos nós a nossa responsabilidade face às crianças de hoje e de amanhã e face ao planeta onde tudo é?

 

Hans Jonas, Le Principe Responsabilité, trad. Jean Greisch, Paris: Flamarion, [1979], 1995.
Hans Jonas, Pour une Éthique du Futur, trad. Sabine Cornille et al., Paris/S. Germain: Ed. Payot et Rivages, [1992, 1993], 1998.
(Há traduções brasileiras de livros de Hans Jonas, disponíveis na internet)

 

Maria José Varandas é investigadora do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, membro da Sociedade de Ética Ambiental e do Foco de Conversão Ecológica da Capela do Rato (Lisboa).

 

“Trabalho digno” é o “caminho para a paz e justiça social”, defende MMTC

Mensagem e conferência online

“Trabalho digno” é o “caminho para a paz e justiça social”, defende MMTC novidade

“Num mundo em conflito, com profundas desigualdades e ambientalmente insustentável, o trabalho digno representa o caminho para a paz e a justiça social”, defende o Movimento Mundial de Trabalhadores Cristãos, na véspera do Dia Internacional pelo Trabalho Digno, que se assinala  a 7 de outubro. A mensagem foi divulgada em Portugal pela Liga Operária Católica/Movimento de Trabalhadores Cristãos, nesta quinta-feira, 6, data em que dinamiza, pelas 21 horas, uma videoconferência subordinada ao tema “Trabalho digno para todos”.

Responsáveis religiosos contra desalojamento de comunidade mapuche

Argentina

Responsáveis religiosos contra desalojamento de comunidade mapuche novidade

Os líderes de diferentes Igrejas cristãs de Bariloche (cidade na região da Patagónia Argentina) apelaram esta quarta-feira, 5, à busca de vias de diálogo e de paz, depois de no dia anterior as forças policiais federais terem iniciado uma operação de desalojamento de uma comunidade indígena mapuche, recorrendo ao uso de gás lacrimogéneo e balas de borracha, e que resultou na detenção de pelo menos dez pessoas, entre elas uma mulher grávida e cinco menores.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

Dia 4 de outubro

Filme “A Carta” exibido em Campo de Ourique

O documentário “A Carta” que relata a história da Encíclica Laudato Si’, recolhe depoimentos de vários ativistas do clima e tem como estrela principal o próprio Papa Francisco vai ser exibido no auditório da Escola de Hotelaria e Turismo na terça-feira, dia 4 de outubro, às 21h15.

Bispo Bätzing “impede” visita do cardeal Koch à Alemanha

Em causa disputa sobre o Caminho Sinodal alemão

Bispo Bätzing “impede” visita do cardeal Koch à Alemanha novidade

O cardeal Kurt Koch, prefeito do Dicastério para a Unidade dos Cristãos, cancelou a sua visita à Alemanha, depois do bispo Georg Bätzing, presidente da Conferência Episcopal daquele país, ter dito que ele não seria bem-vindo enquanto não tornasse público um pedido de desculpas pelas afirmações feitas no final de setembro contra o Caminho Sinodal alemão, noticia o jornal católico The Pillar na sua edição de 3 de outubro.

Silêncio: devolver à vida a sua beleza

Livro de oração

Silêncio: devolver à vida a sua beleza novidade

Será um passo paradoxal falar do silêncio: afinal, ele será rompido para que dele se fale. Mas sabemos, na nossa experiência quotidiana, como a ausência de reflexão pode ser sinónimo, não de silêncio, mas de um adormecimento nos ruídos, distrações e imagens que constantemente nos interpelam.

Agenda

There are no upcoming events.

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This