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Tempos sombrios: um apelo à responsabilidade e à precaução

Hans Jonas: Colega e amigo de Hannah Arendt, o filósofo alertou para o “estado apocalíptico das coisas”. Foto © Direitos reservados.

Hans Jonas: Colega e amigo de Hannah Arendt, o filósofo alertou para o “estado apocalíptico das coisas”. Foto © Direitos reservados.

 

A formulação “tempos sombrios” que dá o título a este texto, remete para o livro da filósofa Hannah Arendt, Homens em Tempos Sombrios, sobre as biografias de homens e de mulheres que viveram na primeira metade do século XX, contemporâneos do totalitarismo em ambas as suas formas: nazismo e estalinismo. No texto inaugural do referido livro, Hannah Arendt diz-nos o seguinte:

“A história conheceu muitos períodos de tempos sombrios nos quais o domínio público se obscureceu e o mundo se tornou tão incerto que as pessoas deixaram de pedir à política mais do que a consideração pelos seus interesses vitais e pela sua liberdade pessoal.”

Hoje, a cortina que se abate sobre o mundo tem uma espessura tão densa que obscurece tanto o pensamento individual como o público, ameaçando de diferentes maneiras não um grupo, mas globalmente o futuro do humano. Há a guerra com o seu imparável cortejo de morte e destruição. Há vírus que rompem barreiras e espalham o medo entre as populações. E as alterações climáticas mudam o rosto das estações, desertificam e espalham o caos um pouco por toda a parte. Perante este estado de coisas, a incerteza paira no ar sobre a robustez a médio-prazo das economias ocidentais, e a miséria espreita, começando por colher os mais frágeis.

O que podemos fazer para além da compaixão pelos que sofrem directamente os efeitos maléficos desta ameaçadora conjuntura? Se bem que nobre, a compaixão por si só é insuficiente para resolver a magnitude dramática do nosso tempo. Trata-se de sentir com o outro o infortúnio dele como se fosse o seu próprio infortúnio, sofrendo com e por ele. Ora, ainda que caloroso e plenamente humano, o sentimento da compaixão sente mais do que fala e há alturas em que a palavra certa, ética, deve ser pronunciada, como resposta ao que nos interpela. E o campo da palavra e da resposta ética é, por definição e acção, o âmbito da responsabilidade, que, lembre-se, etimologicamente deriva do termo latino responsa, que significa resposta.

O filósofo que alertou para o “estado apocalíptico das coisas” foi Hans Jonas, colega e amigo de Hannah Arendt, que nos propõe uma Ética da Responsabilidade e da Precaução em nome do futuro da Humanidade. Judeu alemão, nascido em 1903 e falecido em 1993, Hans Jonas saiu da Alemanha logo que Hitler ascendeu ao poder e deu início ao seu programa de perseguição e erradicação dos judeus (1933). Por essa altura, também abandonou a Filosofia desgostoso por Heidegger, o seu professor mais admirado, ter aderido ao nacional-socialismo. No início da Segunda Guerra Mundial (1939), Hans Jonas alistou-se no Exército britânico, lutando como soldado contra os exércitos do Reich, convicto de que é na acção que o ser se revela e que o dever de qualquer indivíduo é responder activamente por aqueles que precisam. Ora, este voluntarismo de Jonas revela-nos desde logo dois traços marcantes da sua personalidade que se irão reflectir nas suas obras. Acima de tudo e antes de mais, ele é um homem de acção, comprometido com o Mundo e a responsabilidade define a sua atitude face à Vida.

Se a guerra o afastara da Filosofia, é a guerra que o faz regressar a ela. Com efeito, o facto de viver como combatente a experiência do horror da morte e da destruição, levam-no a exaltar o sumo valor da Vida, e a desenvolver o profundo respeito pela presença plena do Ser frente ao Não Ser.  O confronto com o Holocausto (em 1945 regressou à Alemanha como soldado vitorioso, conforme jurara a si mesmo, para descobrir que a sua mãe tinha sido morta em Auschwitz), mostra-lhe que o Mal é um problema da acção. Mas foi sobretudo o lançamento das bombas atómicas em Hiroxima e Nagasaki que o levaram a tomar consciência do poder aniquilador do humano, com um potencial desmesurado, capaz de destruir a vida planetária.

Foi este o decisivo momento que o reconverteu e o reconduziu à missão do filósofo que é a de “pensar sobre as fundações do nosso ser”. Ensina Filosofia em Israel, no Canadá e finalmente nos EUA (Nova Iorque), onde terminará os seus dias, e escreve duas obras maiores: O Fenómeno da Vida, Rumo a uma Biologia Filosófica (1966), e O Princípio Responsabilidade – Ensaio de uma Ética para uma Civilização Tecnológica (1979). A coerência interna e a complementaridade intrínseca entre as duas obras (como se Jonas nos explicasse a delicada organização da Vida, para logo nos interpelar a agir de acordo com ela), reflectem a sua crença de que o ser humano é um produto da Natureza e não um ser à parte dela, e a sua firme convicção na unidade do conhecimento e da acção.

 

Capa da edição brasileira de O Princípio Responsabilidade

Capa da edição brasileira de O Princípio Responsabilidade

 

Segundo Jonas, a Vida, ou o Ser-no-Mundo, é uma dialéctica criativa que evolui do simples para o complexo e manifesta-se em cada organismo, sem excepção, como um ter-de-ser, uma irreprimível necessidade que obriga todo o vivente a perseverar no seu ser, a manter a sua identidade orgânica na luta constante contra a morte. O ser humano é o produto mais sofisticado da evolução do Ser-no-Mundo, tem uma especialidade que o distingue dos outros viventes, uma differentia specifica – a imaginação, essa sua intensa competência simbólica que cria conceitos, ideias, princípios, valores que projecta e realiza na acção.

O agir humano recria assim um mundo próprio que se sobrepõe ao mundo dado. É este agir e este mundo de concretização das ideias imaginadas que lhe confere a transanimalidade de que fala Jonas. No entanto, este dom especial, esta diferença específica, não é gratuito. Comporta o dever da responsabilidade, princípio indissociável da liberdade. Para este filósofo, a responsabilidade é o fundamento ontológico da acção, porque se coloca no centro da disjunção bem-mal, ou seja, exprime sempre uma resposta pelo que se fez e não devia ter feito (Mal), ou pelo que não se fez e devia ter feito (Bem). Ademais, este dever de responder pelos actos livremente praticados, que é tanto consciência como sentimento, radica na própria biologia da vida, na necessidade compulsória, ôntica, que “obriga” os progenitores de várias espécies a alimentar, proteger e defender as suas crias para que elas possam vir-a-ser. A raiz da responsabilidade mergulha nesta “obrigação” biológica dos entes para com a sua frágil e vulnerável descendência, diz-nos Jonas.

Dadas as suas especiais competências, a aparição do humano no Mundo coincide com a aparição da liberdade e do conhecimento. Um binómio que gera poder – o poder do humano sobre o mundo. E para Jonas, com o aumento de poder, aumenta a responsabilidade. Na análise que efectua à acção tecnológica actual e à sua lógica imparável de auto-proliferação de objectos que rapidamente se tornam necessidades de massas, induzindo o esgotamento dos recursos naturais, a que se junta o progresso científico em domínios como a engenharia genética, inteligência artificial, nuclear, biotecnologia cujas consequências a médio-prazo se revelam imprevisíveis e ameaçam o futuro da humanidade, tornam imperiosa uma Ética para estes tempos sob o princípio da Responsabilidade que mediante a precaução e a prudência refreie o poder irrestrito da tecnociência. Uma Ética conduzida pela heurística do temor, ou seja, pela averiguação dos potenciais efeitos de um dado experimento tecnocientífico seguindo a regra in dubio pro malo, na dúvida sobre o potencial negativo de dado invento deve seguir-se o pior prognóstico e não o concretizar.

Por conseguinte, a ética que Jonas propõe não é tanto uma Ética da liberdade e da crença optimista no progresso ilimitado e num futuro de bem-estar e de abundância, tal como eram as éticas do passado. É «uma Ética de hoje que se preocupa com o futuro e procura protegê-lo para os nossos descendentes das consequências da nossa acção presente.» (Jonas, 1998: 69). É “Uma ética da manutenção, da conservação, da proteção e não do progresso e da perfeição” (Jonas, 1995: 249). Hans Jonas invoca a necessidade de um novo imperativo pelo futuro da humanidade que consubstancie o nosso dever de legar às gerações vindouras um planeta onde elas possam vir-a-ser-no-mundo plenamente. “Um imperativo adaptado ao novo tipo do agir humano e que se dirige a um novo tipo de sujeitos do agir […] apelando sobretudo à política pública, mais do que à conduta privada” (Jonas, 1995: 36-37). E é dentro deste horizonte reflexivo que Jonas, reformulando as máximas kantianas, lhes dá a forma de uma responsabilidade comprometida com a amplitude do Ser:

1) “Age de tal modo que os efeitos da tua acção sejam compatíveis com a permanência da autêntica vida humana sobre o planeta”;

2) “Age de tal modo que os efeitos da tua acção não sejam destrutivos da possibilidade futura da vida humana”;

3) “Não comprometas as condições para a continuação indefinida da humanidade sobre a Terra”.

Mesmo que pouco provável, a ameaça de confronto nuclear paira sobre a Europa. A covid-19 mostra-nos o quanto somos vulneráveis. As alterações climáticas tornaram-se hoje já uma emergência pela desfiguração mais do que provável da vida planetária que coloca em risco a sobrevivência do humano, da Vida, do Ser-no-Mundo.

É da ordem dos factos que estes tempos sombrios clamam por respostas não imediatistas e alertam-nos para a possibilidade de um futuro de devastação.

Compreenderemos nós a nossa responsabilidade face às crianças de hoje e de amanhã e face ao planeta onde tudo é?

 

Hans Jonas, Le Principe Responsabilité, trad. Jean Greisch, Paris: Flamarion, [1979], 1995.
Hans Jonas, Pour une Éthique du Futur, trad. Sabine Cornille et al., Paris/S. Germain: Ed. Payot et Rivages, [1992, 1993], 1998.
(Há traduções brasileiras de livros de Hans Jonas, disponíveis na internet)

 

Maria José Varandas é investigadora do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, membro da Sociedade de Ética Ambiental e do Foco de Conversão Ecológica da Capela do Rato (Lisboa).

 

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