Modos de envelhecer (1)

“Tenho envelhecido de acordo com aquilo que sempre gostaria de ter feito”

| 19 Abr 2024

Vivemos em sociedades em que o envelhecimento é olhado muitas vezes como um problema económico, tanto para os estados como para as famílias, de abandono e da quebra de laços que têm como consequência a destruição de redes de solidariedade e de suporte que foram apoio durante a vida ativa. Na verdade, o envelhecimento daqueles e daquelas que nos precederam põe à prova a nossa humanidade enquanto sociedade e enquanto indivíduos.

O 7MARGENS irá publicar durante as próximas semanas os depoimentos de idosos recolhidos por José Pires, psicólogo e sócio fundador da Cooperativa de Solidariedade Social “Os Amigos de Sempre”. Este primeiro texto inclui uma pequena introdução de contextualização do autor aos textos que se seguirão, bem como o primeiro de 25 depoimentos. De notar que tanto o nome das pessoas como as fotografias que os ilustram são da inteira responsabilidade do 7MARGENS.

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Contexto

Estes depoimentos surgem na sequência do texto anterior “Como querem as pessoas envelhecer”, publicado no 7MARGENS. Ao enfrentarmos esta realidade logo nos ocorreu a resposta: “O melhor é perguntar às pessoas”.

Foi o que fizemos…e cada uma respondeu à sua maneira. Umas mais ligadas às letras e às palavras foram convidadas a apresentar um texto de dez a quinze linhas ligado ao tema do envelhecimento.

Nestes textos não se introduziram quaisquer alterações, nem para eventuais correções ortográficas. Entre os autores há pessoas que gostam de ler e escrever português, mas que viveram cerca de trinta anos em França…

Outros depoimentos foram simplesmente narrativas orais, algumas delas difíceis de passar ao papel. Evitou-se pedidos de esclarecimento, eventualmente pertinentes mas que poderiam fazer perder a espontaneidade e a verdade da comunicação oral.

As dúvidas ficaram comigo e agora ficarão também com quem os ler.

Não vou fazer uma análise de conteúdo a cada um destes depoimentos. Primeiro porque não tenho suficiente preparação científica para o efeito. Segundo é que uma análise de conteúdo feita por um grupo alargado será para todos muito mais produtiva e enriquecedora, nomeadamente tendo em vista a melhoria das estruturas residenciais para idosos, principalmente no que respeita à promoção do envelhecimento ativo.

Juntam-se os vinte e cinco textos recolhidos que, insuficientes para um estudo científico como atrás referido, julgamos serem suficientes para, podendo ser lidos “de uma penada”, permitirem uma reflexão pessoal sobre a matéria.

E porque não partilharmos tal reflexão?

 

“Tenho envelhecido de acordo com aquilo que sempre gostaria de ter feito”

“Gostaria de viver os meus últimos momentos num mundo humano, rodeada dos meus familiares e dos amigos que soube preservar ao longo da vida, e como um culminar natural de um progressivo envelhecimento feliz e sereno.” Foto © Ravi Patel / Unsplash (trabalhada por 7MARGENS)

Maria, 83 anos

Envelhecer é a meu ver uma etapa da vida para aqueles que tiveram a dita de ultrapassar a idade que se convencionou fixar como aquela que se inicia a partir dos 65 anos.

Considero que “envelhecer” faz parte da vida daqueles que atingem uma idade mais avançada que carece de ser vivenciada de acordo com o natural decaimento das nossas faculdades físicas, que não cognitivas.

Há quase vinte anos entrei no que tradicionalmente se chama “terceira idade”.

Tenho envelhecido de acordo com aquilo que sempre gostaria  de ter feito.

A nível físico, continuei a praticar após os sessenta e cinco anos a modalidade desportiva por que anteriormente já havia optado.

Esta atividade não tem sido apenas lúdica, por isso que, desde então, tenho participado em competições nacionais, europeias e mundiais, tendo atingido, aos oitenta e dois anos, a consagração máxima que desejava: ser campeã europeia, subir ao pódio e ouvir o hino nacional.

A nível da vida familiar, e sendo divorciada  desde muito cedo e sem descendentes, concentrei-me numa dedicação inabalável à família alargada, com destaque para os meus dez sobrinhos e respetivos filhos, acompanhando o seu crescimento e prestando-lhes o apoio que, solicitado ou espontâneo, se justificava ou ainda se justifica.

Como já vinha acontecendo há vinte anos, continuei a praticar voluntariado social hospitalar e desportivo, no âmbito de várias instituições públicas e privadas.

Continuando a ter hobbies enraizados, a leitura foi, e continua a ser, um dos meus passatempos favoritos.

Ouvir música clássica é outra ocupação que continuo a privilegiar, para o que vou adquirindo meios para o efeito, incluindo a via digital.

Também as viagens a todos os continentes têm sido uma constante na minha vida, visitando até ao momento quarenta e nove países.

Tudo o que até aconteceu correspondeu ao que sempre desejei, com as funções cognitivas intactas.Tal permite-me continuar a escrever, agora artigos sobre matéria desportiva.

Se, ou quando, vier a ser confrontada com a diminuição da minha autonomia desejo manter-me a viver na minha casa, contratando para o efeito uma pessoa que me acompanhe e supra as minhas dificuldades.

Gostaria de viver os meus últimos momentos num mundo humano, rodeada dos meus familiares e dos amigos que soube preservar ao longo da vida, e como um culminar natural de um progressivo envelhecimento feliz e sereno.

 

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