Cirilo e a guerra da Ucrânia

Tensões nas igrejas ortodoxas do Patriarcado de Moscovo

| 20 Ago 2023

patriarca cirilo igreja ortodoxa russa. Foto_ Oleg Varov_Igreja Ortodoxa Russa

Patriarca Cirilo começa a lidar com sinais de descontentamento. Foto © Oleg Varov / Igreja Ortodoxa Russa

 

A Igreja Ortodoxa Russa mantém-se firme no suporte à política de agressão de Putin, mas as pressões e penalizações sobre os padres que manifestem dissentimento têm sido imediatas. Recentemente, começaram a surgir sinais de descontentamento na Igreja Ortodoxa da Ucrânia (IOU), historicamente ligada ao Patriarcado de Moscovo. O fator que desencadeou reação foram os danos provocados na catedral de Odessa, por misseis do exército russo, em 23 de julho deste ano.

A posição mais contundente foi expressa pelo arcebispo auxiliar de Odessa, Viktor Arciz, numa carta dirigida ao patriarca Cirilo no final daquele mês, intitulada “Parem esses mísseis abençoados”, título que explica logo de seguida:

“Várias vezes, nas suas homilias, falou da unidade da ‘Santa Rus’, uma unidade que, com a sua bênção e ações, está a destruir completamente. Saliento ainda que, também com a sua bênção pessoal, o exército russo está a cometer atrocidades, desencadeou uma guerra total no território soberano do Estado ucraniano”.

“Na minha opinião, prossegue o hierarca, esqueceu-se de que, tanto na Rússia como na Ucrânia, existem (existiam) os seus filhos, crianças que também considerou como tal, ao mesmo tempo que abençoava aqueles que hoje as estão a matar”.

Recorda, depois, a noite em que, depois do recolher obrigatório, foi à catedral da Trnasfiguração, em Odessa, e viu que o míssel russo tinha caído mesmo em cima do altar-mor. Aí, prossegue ele, “apercebi-me de que a Igreja Ortodoxa Ucraniana já não tem nada em comum com a conceção que defendeis”. E remata: “Por causa das vossas ambições pessoais, perderam a Igreja Ortodoxa Ucraniana e outras igrejas nos países da ‘Santa Rus’!”.

Uma outra tomada de posição surgiu com uma carta dirigida, no início deste mês de agosto, ao metropolita Onofre, que lidera a IOU a partir de Kiev, da autoria de 300 padres ortodoxos.

Nela os clérigos exigiram o “corte imediato e definitivo” das relações com a Igreja de Moscovo, em termos que exprimem bem o seu estado de ânimo: “Não queremos sofrer nem pela Rússia, nem por Putin, nem por Cirilo”.

Os subscritores requerem que Onofre convoque um sínodo para se libertarem da influência de Moscovo e defenderem os interesses do povo ucraniano, cortando com a parte da hierarquia que continua a rezar pelo patriarca Cirilo nas liturgias, apesar de decisões autonomistas tomadas anteriormente.

Recorde-se que o metropolita Onofre, que tem sido parco em palavras quanto a este assunto, tem um dossiê bem mais premente em mãos, nas últimas semanas: gerir as desocupações forçadas que estão a acontecer nomeadamente em mosteiros, como acontece no conhecido como Mosteiro das Grutas, sobranceiro a Kiyv. O governo, que gere os edifícios do ponto de vista patrimonial e que os cede às confissões religiosas, denunciou os que estavam sob a alçada da IOU, depois de alegadamente ter encontrado provas de manutenção de relações com o Patriarcado de Moscovo.

Sobre a própria Rússia, tem tido repercussão, sobretudo no exterior, o caso do padre Ioann Koval, recentemente destituído por Cirilo e atualmente a exercer em Antalia, na Turquia. Este padre recusou, por questões de consciência, segundo disse, rezar pela vitória russa na Ucrânia, como ordenara o seu patriarca, no contexto da mobilização de novos soldados, em setembro de 2022. Na oração difundida pela Igreja russa para ser utilizada, onde se pedia a Deus a vitória, Koval substituiu-a pelo pedido de paz. O caso foi denunciado, foi-lhe instaurado um processo que culminou na destituição.

A coordenadora do grupo Cristãos contra a Guerra, Natallia Vasilevich, citada numa notícia recente da Associated Press (AP) refere ter contado pelo menos 30 padres ortodoxos que sofreram pressões por parte das autoridades religiosas ou estatais, ainda que admita haver mais casos que não se manifestam, para não terem mais complicações.

“Os clérigos que se transformam em agitadores políticos e em pessoas que participam na luta política deixam, obviamente, de cumprir o seu dever pastoral e estão sujeitos a proibições canónicas”, disse à AP Vakhtang Kipshidze, o chefe adjunto do serviço de imprensa da Igreja.

Os padres que se pronunciam criticamente relativamente à guerra são penalizados “por se meterem em política”. Mas o mesmo não acontece se se manifestarem a favor da guerra, seguindo, de resto, o exemplo do patriarca.

 

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