Teocracia? Não, obrigado!

| 12 Dez 19

Ainda estamos a tempo de aprender que nenhuma teocracia é melhor do que a outra. Não importa se é islâmica, judaica, cristã ou outra qualquer. Definitivamente, não.

A história da velha Europa devia servir pelo menos para perceber que quando a religião manda no Estado a coisa vai sempre correr mal, mais tarde ou mais cedo. As guerras religiosas que os povos europeus sofreram há séculos são o exemplo acabado disso mesmo. A revolução americana mostrou que a via do estado laico é melhor garantia da liberdade de crença e prática religiosa a todos os cidadãos. Todavia, as religiões sempre pugnaram por deter nas suas mãos o poder político ou pelo menos viverem em concubinato com ele, influenciando-o no sentido da satisfação dos seus próprios interesses.

Por seu lado, a Revolução Francesa seguiu um caminho contra a religião e deu lugar à desgraça jacobina que se viu. No seu afã de se mostrarem diferentes dos ingleses, os franceses experimentaram um caminho perigoso que levou a altos e baixos, mas com imenso sofrimento de muita gente. De facto, a melhor resposta não é a imposição social do laicismo a uma sociedade que em grande parte nunca deixou de ser religiosa.

Toda a gente se incomoda com o regime teocrático xiita que sufoca gerações no Irão desde 1979. O país está a viver a crise mais profunda dos últimos 40 anos. Pede-se nas ruas o fim do governo islâmico e, em consequência, a repressão provocou quase 450 mortos em apenas quatro dias, segundo o The New York Times. Há muito quem sonhe com uma teocracia cristã no seu país, embalados por uma escatologia controversa e de legitimidade hermenêutica muito discutível. A ideia de que o mundo está no “maligno” (I João 5:19), associada a algumas tradições exegéticas de tipo triunfalista, acabam por potenciar a luta para assumir o poder político em nome da fé. Mas a experiência diz que, quando uma religião assume o poder, acabará por perseguir todas as outras, por se achar a única iluminada por Deus e por tentar a proeminência, quando não mesmo o monopólio do mercado religioso.

Veja-se o caso dos Estados Unidos. Os líderes evangélicos desde há muito que se têm vindo a movimentar, através da Moral Majority, e depois do Tea Party e dos neoconservadores de direita para imporem a sua agenda política. Chegou-se ao ponto de defender cegamente Trump em nome dos ganhos dessa agenda, como o apoio incondicional a todas as movimentações políticas e militares do moderno estado de Israel (como se esta fosse a mesma nação aliançada com Iavé nos tempos do Antigo Testamento), e os tópicos da moral sexual. As recentes declarações de Franklim Graham (filho do famoso evangelista Billy Graham) diabolizaram todos os que se opõem à política errática do Presidente americano. O próprio Trump chamou para a Casa Branca Paula White, uma tele-evangelista milionária e espalhafatosa que prega a teologia da prosperidade, tão ao jeito da religião yankee.

Um dia ouvi uma das expoentes do carismatismo americano afirmar publicamente em Lisboa que as igrejas nos EUA estavam a pedir a Deus para que a oração antes de cada aula nas escolas públicas americanas voltasse a ser lei, o que é anticonstitucional e sobretudo uma atroz falta de bom senso. Então crentes e não crentes ou crianças de famílias de outras religiões teriam que se sujeitar a uma acção religiosa? Gostariam eles que, se vivessem num país muçulmano, os filhos tivesses que rezar a Alá todos os dias na escola?

Mas veja-se o caso ainda mais problemático do Brasil de Bolsonaro. Um capitão extremista de direita, expulso do exército e que durante as décadas em que foi deputado federal nunca contribuiu para o país com qualquer projecto de lei que se visse, ganhou as eleições graças ao dualismo político actual em terras de Vera Cruz. Havia que combater o lulismo e os eleitores castigaram o PT devido à extrema corrupção e insegurança no país irmão. Os evangélicos foram especialmente motivados contra a agenda fracturante do governo Dilma, mas há muitos anos que sonham com um presidente evangélico que estabeleça uma espécie de teocracia cristã no Brasil.

Mas quando é que esta gente entenderá que Jesus Cristo nunca frequentou os corredores do poder, e nunca disputou eleições porque, como disse: “O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” (João 18:36)? Quando irão compreender que foi ele o primeiro a definir uma separação clara entre estado e religião: “Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:21).

Os líderes religiosos que lutam por alcançar poder político apenas revelam que não têm estatura moral e espiritual para o desempenho das suas funções pastorais. Além disso, como diz o académico Roberto Romano: “Se a democracia ostenta defeitos, suas mazelas confessadamente têm origem em seres humanos que erram e podem corrigir seus equívocos. Com a teocracia nenhum limite obriga o governante, pois seus decretos são divinos. No fundo de todo teocrata dormita um totalitário. É tempo de aprender tal lição da história religiosa e política.”

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

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