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Cravos, 25 de Abril. Foto Madeleine Steinbach

Jornada na Católica

Teologia prática e evangelho: desinstalar os cristãos em nome da liberdade

| 19/10/2024

Cravos, 25 de Abril. Foto Madeleine Steinbach

Os cristãos deram “um contributo não só importante, como relevante” para o 25 de Abril. Foto © Madeleine Steinbach

“A ousadia do evangelho continua hoje a ser necessária para nos desinstalar não só ao nível social, como também ao nível eclesial.” A afirmação é do teólogo Juan Ambrosio, professor de Teologia na Universidade Católica Portuguesa e um dos responsáveis pela Jornada de Teologia Prática, que neste sábado, 19, decorreu em Lisboa, sobre o tema “Chamados à liberdade: A pretexto de Abril”.

“Mais do que justificar as estruturas, quaisquer que elas sejam, o Evangelho deve servir para interpelá-las, no sentido de se perceber se são as mais adequadas para desempenhar bem a missão de que estão incumbidas”, afirma ainda Juan Ambrosio, para acrescentar: “Insisto, quer ao nível social, como eclesial.”

Sobre o tema da jornada, Juan Ambrosio refere que os cristãos tiveram “um contributo não só importante, como relevante” para a luta pela liberdade. “Já vamos sabendo bastante sobre a experiência dos diversos movimentos cristãos no antes e pós-25 de Abril”, diz. Mas “é sempre necessário um tempo para poder aprofundar esse conhecimento”. Cinquenta anos não é muito tempo na vida dos povos, mas “estamos agora capazes de perceber um pouco melhor esse contributo, tendo o distanciamento necessário para compreender mais profundamente em que consistiu e quais as suas consequências.”

Dentro do universo cristão, refere, ouviram-se “vozes que, de uma maneira mais clara e inequívoca”, evocaram o evangelho “para pôr em causa atitudes de um regime que parecia escudar-se e defender-se numa estrutura social apresentada como sendo aquela preconizada por uma certa maneira de ver e entender o cristianismo”. Essas vozes ajudaram a pôr em causa os fundamentos do regime ditatorial do Estado Novo, porque se percebeu que a visão do regime não era “única, podendo ensaiar-se, à luz do Evangelho, outras possibilidades e caminhos”.

Muitos desses movimentos e protagonistas têm sido objecto de estudos e investigações ao longo dos anos. Há meses, o Centro de Estudos de História Religiosa (CEHR) coordenou uma publicação editada pela Ecclesia, com o título 25 de Abril: Permanências, Ruturas e Composições, que reúne vários textos sobre o papel dos católicos em questões como a guerra, a descolonização, a democracia e o desenvolvimento.

A reflexão da Jornada sobre a liberdade tem como ponto de partida a afirmação da Carta aos Gálatas: “Vós, irmãos, fostes chamados à liberdade” (5,13). “Esta exortação, vivida na tensão tipicamente paulina entre a universalidade do chamamento cristão e o contexto histórico em que ele se manifesta, pode ainda hoje servir de repto ao próprio pensamento contemporâneo, quando procura refletir com maior atenção sobre qual o conjunto de referências religiosas, históricas e sociais que o conceito de liberdade poderá evocar, em particular no nosso país, em que se assinala a efeméride dos 50 anos do 25 de abril”, lia-se no texto de apresentação da iniciativa.

 

“É necessário ir mais longe”

Liberdade Religiosa, Parlamento, António Marujo

Exposição Os Caminhos da Liberdade Religiosa em Portugal no Parlamento: “As diversas tradições religiosas devem contribuir para a construção de um futuro comum”. Foto © António Marujo/7MARGENS

Num primeiro momento, esta XIII Jornada de Teologia Prática debateu a liberdade “a partir de uma perspectiva predominantemente histórica, alicerçada na experiência dos diversos movimentos cristãos que acabaram por contribuir indelevelmente para o processo antes e depois do 25 de Abril de 1974. Mesmo “com todas as contradições, tensões e distintos pontos de vista que forçosamente surgem quando os enquadramos no contexto da Igreja Católica em Portugal”.

“Os cristãos e o 25 de Abril” foi o tema apresentado no início pelo historiador António Matos Ferreira, antes de um debate com Maria do Rosário Carneiro e outros dois historiadores do CEHR, Rita Mendonça Leite e Nuno Estêvão Ferreira.

No segundo momento, debateu-se “o espectro mais alargado das linguagens religiosas que habitam o mundo contemporâneo, com o objetivo de reflectir como o mundo católico e as outras tradições religiosas, dentro e fora do cristianismo, pensam e vivem o conceito no contexto da democracia portuguesa e do pressuposto da liberdade religiosa que a Revolução dos Cravos veio, também ela, aprofundar e desenvolver”.

Um debate entre José Vera Jardim, presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, Hamed Hamdard e Timóteo Cavaco, presidente da Aliança Evangélica Portuguesa, abriu este tema, antes da intervenção final de Alex Villas-Boas (Faculdade de Teologia), sobre “Religião, Cidadania e Liberdade”.

“Há de facto uma percepção positiva sobre a experiência da liberdade religiosa em Portugal. As diversas tradições religiosas até têm a experiência de se juntarem para celebrarem juntas alguns acontecimentos”, observa Juan Ambrosio. “Somos capazes de nos juntar para rezar e mesmo já para dialogar. Julgo, no entanto, que é necessário ir mais longe, no sentido de sermos capazes de cooperar na construção e desenvolvimento de projetos conjuntos, orientados para a construção do futuro”, acrescenta.

Como se faz isso? O professor de Teologia recorda as palavras do Papa Francisco durante a sua viagem aos Emirados Árabes Unidos: “Ou construímos o futuro juntos, ou corremos o risco de não ter futuro.” O passo “decisivo e necessário”, afirma, é “passar das boas intenções e das boas palavras, da experiência de nos encontrarmos pacificamente em determinados momentos, a construirmos juntos o futuro”.

O contributo das tradições religiosas para a construção desse futuro comum é fundamental, assegura. “Isto é muito mais do que uma mera coexistência pacífica, que é, apesar de tudo, indispensável e necessária. O futuro e relevância das diversas tradições religiosas, também do cristianismo, está muito ligado à capacidade que tenham de contribuir para a construção de um futuro comum”, acrescenta.

O teólogo desfaz possíveis equívocos: “Não se trata de as religiões dizerem todas as mesmas coisas; trata-se de cada uma, a partir da sua identidade, contribuir para a construção de um futuro comum enquanto humanidade”. Por isso, sugere: “É nesse exercício que as diversas identidades se podem fortalecer e esclarecer, ao contrário do que muitas vezes é dito. A identidade constrói-se verdadeiramente no diálogo e não na oposição. O que cada uma for capaz de aportar a partir da sua identidade para o bem comum, será verdadeiramente decisivo para o seu futuro e para o futuro da humanidade.”

 

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