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[Entre Margens]

Teologia, precisa-se

| 06/03/2026

Atacar um inimigo quando ele está numa posição de fraqueza é bullying. Não há qualquer justificação cristã para atacar um inimigo como fizeram os EUA ao Irão. E quando li no The New York Times que o senador republicano do Arkansas, Tom Cotton, clamou – «Que Deus abençoe e proteja as nossas tropas nesta missão vital de vingança, de justiça e de segurança» – passei-me. Teologia precisa-se!

Os EUA são uma nação que se orgulha do mote In God We Trust [“Em Deus confiamos”], mas se Jesus nos disse a todos – “Amai os vossos inimigos” – atacá-los quando estão fracos é o que se chama de guerra de escolha, feita com um profundo desprezo pelas palavras de Jesus, não sendo a forma de viver e pôr em prática esta frase. É desconfiar de Deus. É abdicar do desenvolvimento da capacidade humana de amar e ser criativo na promoção da paz. Mas pior ainda é pedir a protecção de Deus para o atacante mais forte por ser justiça atacar o mais fraco. Teologia precisa-se.

Penso que os teólogos não podem silenciar-se neste momento, diante de uma guerra que depressa poderão apelidar de santa (embora nada santa seja) porque se trata de um ataque a um país que tem uma religião oficial. E a intervenção dos teólogos deveria iluminar as consciências para evitar repetirmos, vezes sem conta, as mesmas barbaridades teológicas que se toleram entre equipas de futebol quando ambos rezam a Deus pela vitória, mas intoleráveis quando em jogo está a vida do mais fraco e pobre, da pessoa comum que ia ao mercado comprar fruta e não volta mais para casa. Não há qualquer justiça e se Deus estava com alguém, seria junto do pobre muçulmano que podia estar, inclusive, no meio de um acto de amor a alguém. Não foi apenas o muçulmano, mãe ou pai de família que morreu, mas Deus com ele também.

“E se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, caminha com ele duas.” (Mateus 5, 41)

A justiça de Jesus tem um norte, Ele próprio. «– Então, os justos vão responder-lhe: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos peregrino e te recolhemos, ou nu e te vestimos? E quando te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-te?’ E o Rei vai dizer-lhes, em resposta: ‘Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizeste.» (Mateus 25, 37-40) – Nunca Jesus especifica a nacionalidade ou a religião do esfomeado, peregrino, doente ou aprisionado: podia ser judeu, cristão, hindu, ateu ou muçulmano.

Percorrer com o nosso inimigo a segunda milha é não desistir de ser criativo na forma de amar. Significa pôr em prática uma Ética da não-retaliação, onde em vez de resistir ou revoltar-se, a pessoa responde com generosidade inesperada (poderia ter sido a escolha dos iranianos). Significa viver intensamente uma Liberdade interior, onde as circunstâncias impõem a primeira milha, mas a segunda é escolhida e a liberdade transforma a obrigação. Significa uma Subversão silenciosa que nos custa a início por aparentar que cedemos às incompreensíveis exigências do outro, mas que no fim se compreende como talvez Jesus nos estivesse a convidar ao gesto que coloca o soldado numa posição desconfortável, pois ultrapassa o limite legal permitido porque o amor possui a capacidade de ir para além de qualquer fronteira.

Nenhum político americano ou iraniano está com as mãos limpas em todo este processo.

Não sou teólogo embora possua um interesse pessoal de estudar Deus com os teólogos, mas diante destes eventos sobre os quais pessoas comuns como eu (e talvez o leitor) nada podem fazer senão rezar, sinto a necessidade de apelar aos teólogos para que não façam silêncio. Se é difícil retirar Deus da gíria política, creio que seria o momento de os teólogos assumirem a responsabilidade de esclarecer as pessoas em relação ao que Deus tem revelado ao longo de milénios e actualizar tal revelação para as situações e cultura que vivemos hoje. E se as televisões não vos convidam, mostrem-se disponíveis para oferecer a vossa opinião. Escrevam para os jornais nacionais. Teologia precisa-se.

Continuo a acreditar que Deus age na história através do “mais pequenino” e se digo “Teologia precisa-se”, esse pequenino é também o teólogo cuja mente se dedica ao estudo de Deus e cujo coração se entrega a Deus por saber que não é por si que se chega a Ele, mas pelo grau de abertura em si em relação ao que Ele quiser revelar. Porém, uma Luz abafada pelo silêncio é uma perda no caminho da paz. Lamento, mas na opinião (que vale o que vale) deste cientista, o teólogo não pode mais dar-se ao luxo de permanecer no silêncio. Há que rezar, confiar e arriscar. O mundo precisa da clareza da teologia em relação às atrocidades feitas em linguagem ou actos usando o nome de Deus.

 

Miguel Panão é professor na Universidade de Coimbra, autor do livro “Tempo 3.0 – Uma visão revolucionária da experiência mais transformativa do mundo” (Bertrand, Wook, Fnac). Para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos.

 

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