Teólogo brasileiro do Sínodo: “O Papa não fechou a porta da ordenação de homens casados”

| 4 Mar 20

Padre Antônio José de Almeida, teólogo brasileiro especializado em temas como os ministérios. Foto: Direitos reservados.

 

Não, não ficou tudo como antes na questão da abertura à ordenação de homens casados, defende o padre Antônio José de Almeida, que participou no recente Sínodo dos Bispos sobre a Amazónia, na qualidade de assessor dos bispos. “O Papa Francisco não fechou” nem barrou ou excluiu essa possibilidade.

Numa entrevista cedida ao 7MARGENS pela Fundación Proconcil, Antônio José de Almeida defende que o que mudou foi o caminho para se chegar à ordenação de homens casados para aquelas comunidades.

Professor e investigador da Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (Curitiba – Brasil), considerado um dos grandes especialistas em teologia dos novos ministérios, o padre Almeida estudou Filosofia em Curitiba e Teologia em Roma, tendo sido ordenado presbítero em 1974.

Convidado para múltiplos cursos e conferências na área de eclesiologia, ministérios e pastoral, é também membro da Associação Teológica Italiana desde 2009 e autor de mais de duas dezenas de obras de Teologia, além de estar ligado a universidades católicas no México e Colômbia.

 

P. – O senhor tem escrito muito sobre a ordenação de homens casados para as comunidades que não têm acesso com uma frequência razoável à celebração da eucaristia por falta de padres. Ficou triste com Querida Amazónia?

A.J.A. – Na noite antes da publicação, tendo lido umas informações extremamente negativas de um colega que se baseava em recortes de alguém (não bispo) que tinha lido a exortação, dormi muito mal. Pesadelo mesmo. Na manhã seguinte, porém, lendo muito rapidamente algumas partes da exortação relativas à inculturação da liturgia e à temática ministerial, senti um alívio. Cheguei a me animar.

 

Como assim?

A.J.A. – Vou pegar no texto da exortação. O nº 85 começa assim: “A inculturação deve desenvolver-se e espelhar-se também numa forma encarnada de realizar a organização eclesial e o ministério.” Mais adiante, no mesmo número: “A pastoral da Igreja tem uma presença precária na Amazónia, devido em parte à imensa extensão territorial, com muitos lugares de difícil acesso, grande diversidade cultural, graves problemas sociais e a própria opção de alguns povos se isolarem. Isto não pode deixar-nos indiferentes, exigindo uma resposta específica e corajosa da Igreja.”

 

O senhor tem abordado estes aspectos em livros e artigos.

A.J.A. – Sim. Via uma coincidência de olhares. O início do nº 86, neste sentido, é promissor: “É necessário conseguir que o ministério se configure de tal maneira que esteja ao serviço duma maior frequência da celebração da eucaristia, mesmo nas comunidades mais remotas e escondidas. Em Aparecida, convidou-se a ouvir o lamento de tantas comunidades na Amazónia “privadas da eucaristia dominical por longos períodos de tempo”.

 

E depois, veio a decepção?

A.J.A. – Não, absolutamente. A primeira afirmação do nº 87 abre largos horizontes: “O modo de configurar a vida e o exercício do ministério dos sacerdotes não é monolítico, adquirindo matizes diferentes nos vários lugares da terra.” É o tema da pluralidade de modelos, que atravessa a história da Igreja, a que acena o decreto] Presbyterorum ordinis [do Concílio Vaticano II, sobre o ministério e a vida dos padres], que Medellín enfatizou, que está em Puebla e até em Santo Domingo. Como que sobrevoei o nº 88 e li o início do 89: “Nas circunstâncias específicas da Amazónia, especialmente nas suas florestas e lugares mais remotos, é preciso encontrar um modo para assegurar este ministério sacerdotal.”

Encontro do Papa com 40 indígenas da Amazónia, paralelo ao sínodo dos bispos, a 16 de Outubro de 2019. Foto © Vatican Media

 

De facto, estes textos são muito interessantes. Qual é o problema, então?

A.J.A. – Sabe aqueles comprimidos amargos que as indústrias farmacêuticas revestem de uma camada adocicada?

 

Uma contradição, então, entre o início destes números que o senhor citou e o que vem logo em seguida?

A.J.A. – Não diria contradição. Para mim, leitor desprevenido, que acreditava que o Papa Francisco iria fazer ressoar na exortação o pedido dos bispos da Pan-Amazónia sobre a ordenação de homens casados maduros na fé e na vida cristã, indicados pelas suas comunidades (comunidades com uma boa caminhada eclesial, dotadas de ministérios não ordenados conforme as suas necessidades, bem integradas na Igreja local) – para mim, o Papa tinha feito seu, no corpo da exortação apostólica, o n.º 111 do Documento Final [do Sínodo dos Bispos, onde se fala das “enormes dificuldades de acesso à eucaristia”, em muitas comunidades da Amazónia].

Ao susto inicial, portanto, seguiu-se o alívio, e até um sentimento académico de não confiar ingenuamente em opiniões de outras pessoas sem conferir os textos.

 

Os textos completos?…

A.J.A. – Isso mesmo. Este foi o terceiro passo da minha relação com a exortação naquele dia 12 de fevereiro de 2020. Quando fui saborear os textos na íntegra, comecei a cair em mim e na “real”, como diz a gente nova. Fui notando que uma mesma moldura pode enquadrar uma bela tela ou um trabalho de qualidade duvidosa. Lembrei-me de uma distinção que fazia meu professor de História da Igreja, na [Universidade] Gregoriana, no início dos anos 70, o jesuíta Giacomo Martina: a distinção entre “tese” e “hipótese”, que, quando parece que vão convergir, se afastam.

 

Voltando à comparação dos comprimidos: o que lhe pareceu mais amargo na “inculturação da ministerialidade”?

A.J.A. – Teologicamente, ter tomado a pista da determinação do que é “o mais específico do sacerdote, aquilo que não pode ser delegado”, “a sua função específica, principal e indelegável”. É o foco do nº 88. Donde, pastoralmente, se tira a conclusão que, se só os sacerdotes podem presidir à eucaristia, reconciliar sacramentalmente os pecadores e dar a unção dos enfermos, nas selvas amazónicas. Por via de regra, eles devem fazer exclusivamente isto. E os leigos, tudo o mais!

Na Amazónia, muitos missionários têm de percorrer grandes distâncias navegando nos rios para ir celebrar uma missa e visitar as comunidades durante pouco tempo. Foto © Firmino Cachada, cedida pelo autor

 

Isso está errado?

A.J.A. – Dogmaticamente, não. S. Tomás de Aquino diz isso. O Concílio de Trento diz isso. O contexto com o qual dialogavam, porém, era outro. Santo Tomás dialogava com Aristóteles, que reflete não só sobre o ser, mas se preocupa também com a essência de cada ente, perguntando por sua identidade específica, exclusiva e incomunicável. Trento, por sua vez, posiciona-se em relação à Reforma Protestante, afirmando a doutrina católica diante das negações ou interpretações incompletas ou distorcidas dos protestantes.

Tomás errou? Quem sou eu para avaliar S. Tomás de Aquino? Trento errou? Não. Acontece que a história andou, a Igreja teve que se enfrentar com outras questões, teve que dar novas respostas a questões antigas e novas com instrumentos novos. E chegamos ao Concílio Vaticano II. O Vaticano II, neste sentido, é como que o momento-síntese, o momento-símbolo de uma fé que se diz de maneira nova num contexto particularmente novo.

Graças aos grandes movimentos de renovação (bíblico, patrístico, litúrgico, ecuménico, missionário, teológico, laical, comunitário, etc.), a Igreja entrou num processo de renovação, que pode ter seus problemas, mas não pode ser objeto de nenhum reducionismo – para não dizer revisionismo – medíocre, canhestro, tradicionalista.

 

Também em relação ao tema da ministerialidade?

A.J.A. – Claro. O nº 28 da [Constituição do Vaticano II sobre a Igreja] Lumen gentium, por exemplo, falando dos presbíteros, diz que “são consagrados para pregar o Evangelho, apascentar os fiéis e celebrar o culto divino”. Veja a ordem: pregação do Evangelho, pastoreio da comunidade, celebração. A Presbyterorum ordinis aprofunda as tarefas dos presbíteros: a palavra, os sacramentos e a Eucaristia em particular, e o governo do povo de Deus. Nenhum documento do Concílio isola a Eucaristia das funções da Palavra e do pastoreio das comunidades.

 

Mas o Concílio não abriu a possibilidade de ordenar homens casados para situações-limite como as da Amazônia. Então…?

A.J.A. – O tema do celibato não entrou em discussão no Concílio por decisão de Paulo VI, que, em 1967, escreveria a [encíclica] Sacerdotalis coelibatus. Mas Presbyterorum ordinis, plenamente favorável ao celibato, diz que este não é exigido pelo sacerdócio – basta ver a praxe da Igreja primitiva e a tradição das Igrejas Orientais – e que a lei que não permite a ordenação de homens casados nem o casamento de homens ordenados é uma lei introduzida pela Igreja, ou seja, de direito eclesiástico.

Indígenas na eucaristia de abertura do Sínodo dos Bispos sobre a Amazónia. Foto © Arlindo Homem

 

Então, tudo ficou como antes. Neste ponto, o Sínodo não serviu para nada, os bispos não foram ouvidos, os clamores das comunidades não tiveram eco?

A.J.A. – Ao contrário. O Papa Francisco não fechou esta porta da ordenação de homens casados para as comunidades. Não barrou. Não excluiu esta possibilidade.

 

Como assim? Não entendi.

A.J.A. – Depois das minhas leituras fragmentadas daquelas partes da exortação que tratam da “inculturação da ministerialidade”, resolvi ler a introdução da exortação Querida Amazónia. Foi aí que descobri a chave de leitura do conjunto da exortação e particularmente da questão dos ministérios. É preciso – indispensável – prestar a máxima atenção ao que o Papa diz no nº 2 da Exortação. Deixe-me ir ao texto. Escute, por favor o que o Papa Francisco diz: “Não vou desenvolver todas as questões amplamente tratadas no Documento Final; não pretendo substitui-lo nem repeti-lo.” Ouviu bem os três verbos: não vou desenvolver o Documento Final; não vou susbtituir o Documento Final; não vou repetir o Documento Final.

 

O que fez ele então?

A.J.A. – Vamos ler juntos o n. 3: “Quero apresentar de maneira oficial o citado Documento, que nos oferece as conclusões do Sínodo”. ‘Soletrando’: apresentar – o Documento Final – de modo oficial! E acrescenta que, na construção do Documento, “colaboraram muitas pessoas que conhecem melhor do que eu e do que a Cúria Romana a problemática da Amazónia, porque vivem lá, por ela sofrem e a amam apaixonadamente.”

As Igrejas locais da Amazónia, portanto, que tiveram uma participação intensa e extensa na fase anterior ao Sínodo e em sua celebração, têm que ter um papel especial na fase atual do processo sinodal, que é a fase da sua recepção. E, no nº 4, o Papa conclui: “Os pastores, os consagrados, as consagradas e os fiéis leigos da Amazónia se empenhem na sua aplicação.” O Papa diz “aplicação” do Sínodo!

 

Menos nesta questão da possibilidade de ordenar homens casados para presidir globalmente as comunidades maduras e, consequentemente, também a eucaristia?

A.J.A. – Nesta questão também. Evidentemente, os nºs 2, 3 e 4 valem para a exortação inteira.

 

Agora, não entendi mesmo.

A.J.A. – No meu modesto ponto de vista, o que mudou foi o caminho, ou o método, no sentido etimológico da palavra: no caso, “o caminho para” se chegar à ordenação de homens casados para aquelas comunidades daquelas dioceses que, depois de um sério discernimento sinodal, chegarem à conclusão que devem ordenar homens maduros nas e para comunidades maduras.

Há anos que o bispo Lobinger e eu, no livro Equipes de Ministros Ordenados. Uma solução para comunidades sem eucaristia, apresentámos este caminho. Lobinger usou mais de 50 páginas daquele livro para abordar todos os aspectos e meandros deste caminho. Vários teólogos europeus defendem a mesma coisa: Pierre Grelot, biblista conservador francês; Alphonse Borras, teólogo e canonista belga; Hervé Legrand, eclesiólogo francês, discípulo de Congar; Myriam Wijlens, canonista alemã, etc. Por incrível que pareça, o caminho agora está no Direito Canónico!

 

Sobre isso podemos falar noutra ocasião.

A.J.A. – Como não. Agora, vamos tomar um café do Norte do Paraná coado na hora. Haja coração!

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