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Membros de mérito e honorário

Teólogos Bento Domingues e José Nunes recebidos como membros da Academia da História

| 09/01/2025

Os teólogos dominicanos Bento Domingues e José Nunes foram admitidos formalmente nesta quarta-feira, 8 de Janeiro, como membros da Academia Portuguesa da História (APH). A decisão tinha sido tomada em 30 de Julho pelo Conselho Académico da APH, que votou por unanimidade a admissão de frei Bento como académico de mérito e frei José Nunes como académico honorário.

Na intervenção de improviso da presidente da Academia, Manuela Mendonça destacou as relevantes contribuições que a eleição dos académicos traduz nos vários domínios da cultura e também – e também, no caso dos dois dominicanos, a proximidade e a colaboração com a APH.

Os estatutos da Academia prevêem, no seu artigo 6º: “Os académicos de mérito são eleitos de entre os de número ou de entre os historiadores nacionais e estrangeiros que mereçam ser distinguidos pela sua obra histórica ou serviços excepcionais. O título de académico honorário pode ser conferido a personalidades nacionais ou estrangeiras de reconhecido prestígio que hajam prestado relevantes serviços à Academia ou à cultura.”

Na cerimónia, frei José Nunes agradeceu a escolha, afirmando que a sente não como “uma distinção pessoal”, mas como uma forma de “celebrar a relação da APH com a Ordem dos Dominicanos, relação de longa data e personificada, especialmente, nos freis António do Rosário e Raul Rolo de saudosa memória”. Esta relação, acrescentou, “tem sido renovada através da parceria da APH com o ISTA (Instituto São Tomás de Aquino)”.

José Nunes, nascido em 1956, foi ordenado presbítero em 1984, depois de ter feito a profissão religiosa nos dominicanos em 1977. Professor associado na Universidade Católica Portuguesa (1994-2023), doutorado pela Universidade Pontifícia de Salamanca, tem dedicado a sua investigação à Teologia Prática e à Teologia da Missão.

“Tenho para mim que a História não aprisiona, mas liberta. Nas minhas áreas de investigação (teologia pastoral e missionologia), o estudo da história mostra como as realidades eclesiais sempre foram mudando ao longo dos tempos e conheceram inúmeras formas possíveis”, afirmou ainda, para exemplificar: “Nas estratégias de evangelização, na praxis de cada um dos sacramentos, nas estruturas eclesiásticas, na liturgia, etc.”. Por isso, concluiu, “não devemos sacralizar nenhuma configuração história das realidades eclesiais, concretamente as actuais: o futuro está em aberto, a criatividade e imaginação teológica e pastoral impõem-se”.

Autor de dois livros e meia centena de artigos em revistas, além de ter feito inúmeras conferências, José Nunes exerceu ainda vários cargos na Ordem dos Pregadores (dominicanos), incluindo o de prior provincial (responsável máximo) em Portugal em três mandatos, presidente do ISTA e director da sua revista, e delegado a cinco capítulos gerais da Ordem.

Frei José Nunes no momento do agradecimento

Na cerimónia, frei José Nunes agradeceu a escolha, afirmando que a sente não como “uma distinção pessoal”, mas como uma forma de “celebrar a relação da APH com a Ordem dos Dominicanos. Foto: Direitos reservados

Chenu e Congar, os dois “mestres” de Bento Domingues

Já Bento Domingues destacou, no seu agradecimento, que a sua prática teológica, “em diversos países, esteve sempre marcada por dois teólogos dominicanos da História da Teologia: Marie-Dominique Chenu, OP (1895-1990) e Yves Georges Congar, OP (1904-1995)”.

De facto, além de ter estado envolvido, como professor ou conferencista, em múltiplas iniciativas de ensino da Teologia em Portugal (Instituto Superior de Estudos Teológicos, Centro de Reflexão Cristã, ISTA, Universidade Lusófona, Studium Sedes Sapientiae de Fátima, entre outras), foi convidado também para leccionar em universidades e centros de investigação da Colômbia, Perú, Chile, Angola e Moçambique (incluindo Nampula, com o bispo Manuel Vieira Pinto).

O seu mérito, acrescentou frei Bento – que não esteve presente, por razões de saúde, mas enviou um texto lido pelo seu confrade –, “foi o de acolher e praticar a lição [daqueles] dois grandes mestres e amigos, que muito sofreram pela sua fidelidade a este método teológico, fonte de uma produção que honra a luta pela liberdade de investigação na Igreja”.

A liberdade tem sido uma das linhas principais da reflexão e intervenção teológica e cívica de frei Bento, reconhecida por exemplo pelo Presidente Jorge Sampaio ao atribuir-lhe, nos 40 anos do 25 de Abril, a Ordem da Liberdade – uma das iniciativas em que o teólogo dominicano se envolveu foi, durante a ditadura do Estado Novo, a fundação da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos. Também a Assembleia da República e a Ordem dos Advogados lhe concederam, em 2010, prémios de Direitos Humanos.

Houve outras homenagens da sociedade civil ao percurso público de Bento Domingues, que completou 90 anos em Agosto: em 2019, a Universidade do Minho atribuiu-lhe um doutoramento honoris causa; em 2014, a Fundação Calouste Gulbenkian e a editora Temas e Debates promoveram uma sessão sobre “Cidadania, Cultura e Teologia na Praça Pública”, por ocasião dos 80 anos de frei Bento, que contou com centenas de pessoas, incluindo os antigos Presidentes da República Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio; em 2005, a Universidade Lusófona atribuiu-lhe a medalha de Ouro de Reconhecimento e Mérito e, em 2012, promoveu uma homenagem, com a apresentação do livro O Incómodo da Coerência (Paulinas Editora), que reúne testemunhos de muitas personalidades. Nesta Universidade, Bento Domingues fundou e foi o primeiro director da licenciatura em Ciências das Religiões e do Centro de Teologia e Ciência das Religiões.

No meio académico e científico, Bento Domingues integrou órgãos das universidades do Porto e de Lisboa, do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, do Conselho Nacional de Imprensa e do Tribunal Mundial para o Iraque.

Desde 1992, Bento Domingues mantém uma coluna semanal no Público (que agora passou a quinzenal), cujos textos deram origem a dez antologias – além de outros livros que publicou. Mas a sua colaboração com revistas e jornais generalistas ou publicações de teologia, filosofia ou literatura também foi sempre uma das marcas do seu labor, além da participação em numerosos congressos e simpósios internacionais de teologia. Foi também co-fundador das actuais Edições Afrontamento e director da revista de teologia Cadernos de Estudos Africanos, do Centro de Reflexão Cristã.

Homenagem a frei Bento Domingues, no jornal Público, onde mantém uma coluna desde 1992. Foto © Agência Ecclesia/HM

Nota da Redacção – É vasto o conjunto de instituições do Estado e da sociedade civil que já homenagearam o percurso cívico, cultural e teológico de frei Bento Domingues. É de lamentar que nunca, até hoje, a Igreja Católica tenha promovido qualquer gesto de reconhecimento desse percurso ímpar. Corrija-se: a hierarquia católica, já que frei Bento foi convidado com frequência por muitas paróquias, movimentos e grupos católicos para debates, conferências ou iniciativas várias. O facto de, por exemplo, nunca ter sido atribuído a Bento Domingues o Prémio Árvore da Vida, do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, que pretende distinguir pessoas que tenham contribuído para o diálogo entre a fé e a cultura, torna por demais evidente e ingrato esse silêncio. Se há alguém que se tem destacado na concretização desse diálogo, uma dessas pessoas é seguramente frei Bento Domingues. 

 

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