Ter ou ‘Bem Viver’?

| 24 Out 20

Fratelli Tutti

Capa da encíclica na edição da Paulinas Editora.

“Todos nós, seres humanos, nascemos nesta terra com a mesma dignidade (…). Se alguém não tem o necessário para viver com dignidade, é porque outrem se está a apropriar do que lhe é devido.” Na encíclica Fratelli Tutti (“Todos irmãos”), caída ao húmus do mundo no início do outono, o papa Francisco desfaz o estuque do grande pilar do capitalismo e da grande ilusão do ocidente: a propriedade privada. E propõe: e se à ideia de propriedade sobrepuséssemos a de solidariedade?

“A tradição cristã, afirma Francisco, nunca reconheceu como absoluto ou intocável o direito à propriedade privada.” Esta deve estar subordinada “ao destino universal dos bens da terra e, consequentemente, o direito de todos ao seu uso”. Solidariedade significa dar prioridade à “vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns”, “lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, a terra e a casa, a negação dos direitos sociais e laborais” e “fazer face aos efeitos destrutivos do império do dinheiro”.

Cada uma destas palavras voou desde o Vaticano, que é em si um exemplo notável da perversão da propriedade e do dinheiro, com uma incontável fortuna acumulada. Os investimentos do Vaticano vão do imobiliário de luxo em Londres à banca italiana, do petróleo em Angola às farmacêuticas multinacionais. Dos mais de 50 milhões de euros recebidos a cada ano para apoio aos mais pobres, a maior parte acaba a sustentar a própria cúria, entre défices orçamentais e escândalos financeiros. Por cada dez euros doados pelos crentes, só um irá realmente para caridade.

Outra notável feitoria do império do dinheiro é a Misericórdia de Lisboa, instituição do Estado com um marketing feroz a prometer “criar excêntricos de um dia para o outro” e a promover esse “individualismo radical” que o papa descreve em Fratelli Tutti como “o vírus mais difícil de vencer.” Graças ao negócio milionário do jogo, a fortuna da Santa Casa atingiu os 600 milhões de euros. É proprietária de quase meio milhar de imóveis na capital, doados por “benfeitores” contra a “certeza de serem aplicados em boas causas.” Uma das boas causas é o arrendamento a “preços de mercado”: em geral acima de mil euros por mês. Outra é o abandono: segundo o movimento Morar em Lisboa, um em cada três dos edifícios está devoluto, contribuindo para a escassez de habitação e para as rendas escravizantes, numa cidade onde as casas das pessoas viraram o casino dos empresários.

Fratelli Tutti afirma que direitos secundários e individualistas (como o direito à propriedade) não podem sobrepor-se aos prioritários e primordiais (como o direito à terra, saúde, habitação). O sentido solidário da encíclica desafia as várias instituições e personalidades católicas para quem a manutenção e a gestão da pobreza rima com a acumulação e a manutenção da sua própria riqueza. E mostra a importância da reforma (revolução?) que o papa tem procurado na economia do Vaticano. “Cuidar da casa comum, o planeta”, como propôs a anterior encíclica Laudato Si’, passa por arrumar o seu quarto.

 

Enlaçar vozes
Moira Millan. Indígenas. Mapuche. Movimento Bem Viver

Moira Millan, indígena mapuche e líder do Movimento das Mulheres Mapuches pelo Bem Viver: “A cosmogonia mapuche do buen vivir” consiste em “recuperar a reciprocidade e harmonia entre os seres humanos e para com a natureza.” Foto: Direitos reservados

 

A riqueza material (e pobreza espiritual?) da Europa e do Vaticano também é fruto da violência e do roubo nos territórios do Sul global durante séculos de colonialismo. A encíclica faz uma breve referência à violência perante as culturas populares indígenas e defende que “nenhuma mudança autêntica é possível se não se realizar a partir das várias culturas.” “Que o nosso coração se abra a todos os povos e nações da terra”, convida a oração que fecha Fratelli Tutti.

Natural, tal como o papa, do país a que hoje chamamos Argentina, e que resulta da invasão de 40 nações originárias, Moira Millan é weychafe (guerreira) mapuche. Assassinatos, violações e deslocamentos foram e são a moeda de troca para que gás, petróleo, ouro, água, soja, gado ou madeira se tornem propriedade de alguém – por exemplo, da multinacional Benetton.

Para os mapuches, “essas coisas não se vendem, não têm preço”. A propriedade é sagrada para o huinca (o invasor), mas para os mapuches “o sagrado é a vida”, explica Millan, que coordena o Movimento de Mulheres Indígenas pelo Bem Viver. “O povo mapuche não luta pela propriedade, mas por um modo de vida na terra.”

“A cosmogonia mapuche do buen vivir” consiste em “recuperar a reciprocidade e harmonia entre os seres humanos e para com a natureza, é o respeito para coabitar. É um pensamento absolutamente revolucionário porque pensa as forças da natureza como sujeitos de direito, que um povo não padeça o custo dos privilégios de outro”, conta Moira Millan.

As palavras da mulher mapuche enlaçam as do homem branco: “O desenvolvimento não deve orientar-se para a acumulação sempre maior de poucos. O direito de alguns à liberdade de empresa ou de mercado não pode estar acima dos direitos dos povos (…) nem do respeito pelo ambiente”, escreve Francisco. O direito de cada um deve estar “harmoniosamente ordenado para o bem maior”.

“Sonhemos como uma única humanidade, como filhos desta mesma Terra que nos alberga a todos”, diz o papa. “Trata-se de uma esperança que abraça o planeta. Estamos a propor uma nova matriz civilizacional, a constituição de uma nova humanidade que repense a forma de viver e recuperar a arte de habitar que tínhamos”, diz a guerreira.

Tal como Fratelli Tutti, as diferentes noções de “Bom viver” (“Küme Mongen” em mapuche, “Sumak Kawsay” em quíchua, “Teko Porã” em guarani e kaiowá…) são um convite a nos libertarmos do individualismo em que a cultura capitalista, colonial e patriarcal nos enterrou: comprar, possuir, vender, competir, crescer. Um convite a passarmos de um mundo de proprietários a um mundo de cuidadoras. A recordarmos que a terra e os seus frutos não nos pertencem – nós pertencemos à terra, somos um com ela.

Como se canta no Alentejo, a “terra sagrada do pão”: “Eu sou devedor à terra / A terra me está devendo / A terra paga-me em vida / Eu pago à terra em morrendo.”

 

[N.R. – Sobre o conceito do bom viver entre os povos da Amazónia, pode ler-se também este texto publicado no 7MARGENS.]

Francisco Colaço Pedro é ativista e jornalista; publicou já, no 7MARGENS, uma reportagem sobre os 50 anos de Auroville e uma entrevista com Isabel Correia, do grupo Meditação em Acção.

 

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