Terminou a Jornada Mundial da Juventude. E agora?

| 20 Ago 2023

Inicio de dia no Campo da Graça. Foto: © Sebastião Roxo JMJ 2023

 

Depois destes banhos de multidão, de excelentes palavras proferidas, ao país, aos políticos, à igreja e aos jovens e de tantos gestos, o que fazer? Que caminhos a percorrer? Que coisas a mudar? Que atitudes e comportamentos a ter? Das duas uma: ou cai tudo em saco roto e continuamos a colocar vinho novo em odres velhos, ou então, arregaçamos as mangas, tomamos consciência do que nos foi exortado e vamos ser agentes de mudança de um país, de uma sociedade e de uma igreja renovada e com compromissos de mudança para um mundo melhor.

E aqui sim, todos, todos, todos somos responsáveis para esta agenda de transformação. O Santo Padre falou para todos. Não foi só para a Igreja ou para os jovens. Falou para o país e para os seus políticos; para os agentes sociais e culturais, para a hierarquia da Igreja portuguesa, para todos os cristãos e acima de tudo para os jovens de todo o mundo. Todos ouviram, todos aplaudiram e todos sorriram. Agora chegou o tempo do compromisso e de cada um assumir as suas responsabilidades.

Dum governo responsável para a construção dum país mais justo, mais bem governado, e acima de tudo, mais servidor dos problemas reais dos portugueses. De Instituições mais credíveis e coesas para acudir a tantas necessidades gritantes da vida do dia a dia. Duma Igreja que seja fonte de transformação de corações e de vontades, investindo no acolhimento, no cuidado, na evangelização e na missão que é de todos nós.

Quero acreditar que, depois destas JMJ e desta visita papal nada pode ficar igual. Mas mesmo nada. Depois desta injecção de ânimo, de esperança, de confiança e de muita alegria, temos obrigação de, agora cada um fazer a nossa parte. Para isso é preciso ter escutado com o coração tudo o que foi dito, fazermos as análises e diagnósticos necessários, e avançar em frente. Descruzar os braços, sujar as mãos e caminhar, são as urgências que decorrem destas jornadas.

Tudo isto só será possível, se avançarmos sem medo, sem estarmos agarrados a esquemas antigos e já corroídos com o tempo. Se tivermos a coragem de sonhar e de olhar o futuro com olhos de esperança. Se os nossos bispos, padres e leigos ousarem caminhos novos, caminhos de mudança, caminhos renovados pelo Evangelho e não por tradições e esquemas do passado. Sem estarmos agarrados a coisas e a burocracias que limitam o amor e a abertura a Deus e aos irmãos.

Temos muito caminho pela frente.

É crucial sermos destemidos e corajosos para fazermos a diferença na vida das pessoas e dos cristãos. Não podemos continuar encalhados em políticas gananciosas e apenas de interesses próprios e corporativistas. Em continuar uma agenda focada numa ideologia esquerdista que vai minando os valores milenares da nossa sociedade e do nosso cristianismo. É preciso colocar um basta nisto tudo.

É essencial, não só caminharmos na sinodalidade, mas essencialmente levarmos as mudanças ao quotidiano da nossa igreja e dos nossos cristãos. Não basta só reflectir, mas sobretudo agir.

E agir em dimensões concretas, como por exemplo, no campo da liturgia, com celebrações mais vivas e alegres; com celebrações sem demasiados formalismos e esquemas já em desuso, como a utilização do latim e de cânticos que não tocam o coração. Como eu gostava que os adeptos do rito tridentino tivessem a inteligência e a sabedoria de aderirem livremente ao que é “normal” e adequado aos dias de hoje!

No campo sacramental, abandonarmos, de vez, uma pastoral demasiadamente sacramentalista e passarmos a uma pastoral mais missionária e evangelizadora. Deixarmos os espaços sumptuosos dos nossos templos e Igrejas e partirmos para as encruzilhadas e caminhos dos homens de hoje. Irmos ao encontro das pessoas. Há muitas “serafinas” no nosso país e pelo mundo fora.

Na área social, sermos bem mais solidários com quem mais precisa. Estamos demasiadamente inclinados e só vemos o nosso umbigo e esquecemos os nossos irmãos mais desfavorecidos que não têm o mínimo indispensável para sobreviver. Faltam-nos gestos concretos de efectiva solidariedade com as igrejas mais pobres e carenciadas.

Na pastoral profética, termos mais coragem para denunciar as injustiças, as mentiras, as opressões e os atropelos à dignidade do ser humano. Sermos corajosos e advogados dos mais frágeis. Infelizmente temos, por vezes, uma hierarquia muito instalada e comodista que se quer dar bem com todos e com tudo. Não bastam palmadinhas nas costas dos políticos deste mundo. É preciso acima de tudo e de todos, a verdade. E para tal, o Papa nos disse: Não tenhais medo. A cobardia e certos silêncios são doentios e nada evangélicos.

Na pastoral da família, ousarmos caminhos novos. Acolhermos os divorciados e recém-casados duma forma concreta, não só oferecendo a Palavra, mas também o Pão. Remodelarmos os cursos de preparação para o namoro e casamento. É urgente uma outra linguagem em temas como a conjugalidade, sexualidade e fidelidade. Denunciar com vigor imensas políticas anti-família, anti-natalidade e anti-vida. O que estamos a fazer para promovermos a vida humana? Onde estivemos quando foram aprovados o aborto e a eutanásia? Estivemos comodamente instalados e tivemos medo de vir, mais uma vez, todos, para o parque tejo, e todos juntos, gritar por mais respeito e dignidade pela vida humana.

Como eu gostaria que nos juntássemos mais vezes no parque tejo, não para ver o papa, mas para, mais uma vez, todos juntos, gritarmos por aquilo que vale a pena lutar.

E agora?

Temos muito a fazer. Cada um assuma a sua responsabilidade.

Não fiquemos na admiração e contemplação das belas JMJ em Lisboa, mas façamos deste país um porto seguro onde, todos, todos e todos, temos a nossa cota parte de responsabilização e compromisso.

 

Nuno Miguel Rodrigues é padre católico, da Congregação dos Missionários do Espírito Santo (Espiritanos).

 

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