[Crónicas da Guiné – 1]

Terra de pobreza e de milagres

| 28 Nov 2022

 

A Guiné-Bissau, como país, é um bom exportador de más notícias. E quando se chega ao território, o que imediato se faz notar é a pobreza e o lixo. Mas quando nos dizem “Tenho orgulho em Bissau ser uma cidade limpa… em comparação com outras capitais desta região de África”, percebemos que tudo é relativo – relativo aos padrões que adoptamos. Ou às notícias que procuramos. Porque há notícias que vêm ter connosco, pois sabem que serão bem acolhidas, e outras que se deixam ficar no seu cantinho, silenciosas, porque se reconhecem sem interesse. Tudo tem a ver com aquilo por que nos interessamos.

Uma missão de um mês, pela Ser Mais Valia (uma ONGD, Organização Não Governamental para o Desenvolvimento), em Bissau, é ocasião para constatar o que logo salta à vista. Quando ao princípio da tarde se encontra uma adolescente a tentar vender meia dúzia de limas para ganhar alguma coisa para comer ou quando à hora de almoço uma mãe de família, no seu posto de trabalho, nos pede alguma coisa para colocar no pão, pois ainda está em jejum, nem se sabe o que pensar.

Não é necessário procurar muito para verificar que, em boa verdade, ali não há Estado, salvo algumas presenças pouco próprias para um Estado nestes tempos. A educação, a saúde, as infraestruturas, a higiene pública, o abastecimento, tudo aponta no mesmo sentido: a falta, a carência grave e sem solução à vista. A (falta de) educação pública é um problema crónico: os professores “estão sempre em greve”, dizem-nos, “durante um ano não há mais de três meses de aulas”. E como os livros são caros e nem é certo que sejam seguidos, mais vale não os comprar. E é só um dos problemas. Conclusão: quem quer educação, tem de procurá-la no privado, muitas vezes de carácter social.

Aqui e ali notam-se algumas melhorias. No Hospital Simão Mendes há menos lixo visível, nota alguém; a avenida principal de Bissau está em obras que se estendem até ao forte da Amura. E parece que é tudo, a quem chega. Mas há promessa de mais obras.

Contudo, as pessoas continuam doces e acolhedoras. Vivem num ambiente de convívio entre múltiplas etnias (27 segundo alguns, cerca de 40 segundo outros). Nota-se um enorme desejo de aprender. O interesse pela língua portuguesa é generalizado e espontâneo na capital, mas sobretudo para sair a procurar o futuro em Portugal. Outro motivo de espanto, digo eu, é o “amor à Pátria”, a uma mãe que recusa alimentar os seus filhos. Os bairros são ainda de uma miséria urbanística impressionante e os ordenados têm, no geral, valores indignos, por serem abaixo dos limites duma sobrevivência digna. E, logo ao lado, a ostentação da riqueza é por vezes obscena e (in)compreensível.

No entanto, não é necessário procurar muito para encontrar outra dimensão desta realidade. As pessoas, porque o Estado não faz nem ajuda, têm de fazer e de semear a boa semente que germina em milagres bem visíveis. Sobretudo na educação e na saúde, mas não só. E mesmo no interior dos serviços públicos, encontramos pessoas que, quase por conta própria e contra ondas e marés, trabalham para elevar os padrões do serviço prestado.

Há, na Guiné-Bissau, de modo claro, uma aposta num futuro diferente através da formação cuidada das novas gerações e da criação de ilhas de qualidade naquele oceano de padrões baixos. Uma sociedade que aposta nas pessoas e no seu poder de auto-organização caminha num sentido diferente de outra que aposta no aproveitamento das “oportunidades” em benefício próprio e ainda de outra que aposta sobretudo na dependência do Estado. Não sabemos, porém, até onde este jogo de construção do futuro pela auto-organização é ali sustentável, durante quanto tempo as energias se mantêm eficazes e se os apoios continuam a chegar da parte de quantos sabem que “eles” não podem ser abandonados a si mesmos.

Durante um mês em Bissau e arredores, procurei sobretudo “boas notícias” que nos possam dizer que a Guiné-Bissau é mais do que costuma chegar aos noticiários do mundo inteiro. Disso tentarei dar conta em próximos textos. Quanto mais não seja como resposta a um povo que tão bem me acolheu, embora sem querer vender a ilusão de que lá tudo é leite e mel. Não podemos esquecer que a corrupção é ali endémica, e não apenas nas altas esferas do poder público: na Guiné-Bissau, “tudo se compra, da carta de condução a um diploma de estudos” e a nomeação de “familiares e amigos ou de membros da mesma etnia” atravessa a sociedade guineense, diz quem a conhece. Há, no entanto, núcleos cuja ação se alimenta por outros princípios, como os da qualidade, solidariedade, respeito por princípios e bem comum.

A História da Guiné-Bissau como país tem ainda, números redondos, apenas um meio século atribulado. Muito está ainda por decidir, sobretudo quanto aos núcleos de força que darão forma à evolução futura. E parte desta evolução dependerá também do que for a evolução da África no seu conjunto e da África Ocidental em particular, sem esquecer, é claro, a evolução do sistema global de que todos somos parte.

 

José Alves Jana é doutorado em filosofia, professor aposentado, voluntário e dirigente associativo. Contacto: jalvesjana@gmail.com

 

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