O patriarca latino de Jerusalém afirmou esta terça-feira, numa mensagem enviada ao encontro que decorria em Coimbra para assinalar o 7.º aniversário da Declaração sobre a Fraternidade Humana, que a Terra Santa é um “laboratório” onde a fraternidade continua a ser posta à prova diariamente, alertando para importância de não subestimar o convite contido no documento assinado em Abu Dhabi pelo Papa Francisco e pelo grande imã de Al-Azhar.
“As recentes escaladas de violência em Gaza e as divisões entre povos e religiões parecem tornar cada vez mais distante o sonho de uma convivência pacífica e fraterna”, reconheceu o cardeal Pierbattista Pizzaballa, através de uma ligação em vídeo. Mas “a fraternidade que o documento promove não pode ser uma mera abstração”, acrescentou. Pelo contrário, “deve confrontar-se com a realidade de uma terra que vive diariamente o ódio alimentado por diferenças políticas, religiosas e históricas”, sustentou.
Para o cardeal italiano, “a questão que o Documento de Abu Dhabi nos deixa é ainda mais urgente hoje, quando Gaza e outras regiões da Terra Santa nos lembram todos os dias o quão difícil, mas fundamental, é o caminho para a paz. A fraternidade que nos é pedida não é um sonho irrealizável, mas um desafio”.
“Deus não pode ser invocado contra o homem”, e “numa época em que o nome de Deus é muitas vezes instrumentalizado para justificar divisões, exclusões e até mesmo violência, esta premissa inicial é uma aposta profética”, assinalou ainda.
Pizzaballa descreveu a região do Médio Oriente como um cruzamento de “fés e feridas”, onde o conflito desafia a visão de paz proposta pelo documento assinado a 4 de fevereiro de 2019. A proposta de um ‘vínculo constitutivo’ com o outro é um desafio que questiona as nossas próprias convicções.”
O caso da pequena comunidade católica em Gaza é paradigmático: tinha “pouquíssimas relações” com a comunidade circundante, situação que mudou nestes anos de guerra. Durante o conflito, tem sido possível levar à paróquia alimentos e bens essenciais, gesto que “criou relações” com os outros setores da sociedade. “Isso criou laços tão fortes que mantiveram viva a humanidade, naquele contexto”, explicou o líder católico.
Pierbattista Pizzaballa partilhou ainda o desejo de que o diálogo inter-religioso volte ao “terreno”, evitando o crescimento dos extremismos e das “narrativas radicais”. Para o cardeal, este diálogo deixou de ser um “luxo” para teólogos e tornou-se uma “necessidade histórica” para evitar a segregação.
“Podemos escolher a coexistência como ‘paralelismo ignorante’, onde comunidades diferentes vivem lado a lado sem nunca se encontrarem, alimentando suspeitas e estereótipos. Ou podemos escolher a convivência como ‘tecido relacional’”, apontou.
A sessão comemorativa, que decorreu no Convento de São Francisco, foi promovida pela Subcomissão para o Diálogo Inter-Religioso (SCDIR) da Conferência Episcopal Portuguesa,
A concluir, o cardeal Pizzaballa deixou um desafio direto aos mais de cem participantes de diferentes confissões religiosas na sessão e às comunidades de crentes em geral, questionando se a fé serve para gerar fraternidade real.
“O silêncio, o fechamento ou, pior ainda, a cumplicidade com lógicas de poder injustas tornam as religiões cúmplices das feridas do mundo”, alertou.










