Testamento da Irmã Maria Domingos (uma oração do cardeal Tolentino Mendonça)

| 17 Fev 21

A convite do 7MARGENS, o cardeal José Tolentino Mendonça enviou o texto em forma de oração, que a seguir se reproduz, acerca da ir. Maria Domingos, que morreu nesta segunda-feira, 15, em Leiria. O então padre Tolentino celebrou muitas vezes a eucaristia no Mosteiro de Santa Maria das Monjas Dominicanas, em Lisboa, e nos últimos anos colaborara com as monjas na preparação dos Encontros do Lumiar.

Maria Domingos, Monjas Dominicanas.

Foto Onde Moras? © Praça Filmes, cedida ao 7Margens.

 

Obrigado, Senhor, por quantos se sentam com mansidão à soleira do instante.

Obrigado por aquelas e aqueles que olham o mundo e as suas contradições recorrendo à misericórdia em vez do juízo.

Obrigado por essas e esses que reparam, reciclam e restauram os fios quebrados ou interrompidos que trazemos no coração.

Obrigado pelos artesãos e tecedeiras que estendem pacientemente a possibilidade de caminho onde todos se apressam a dizer que não há remédio.

Obrigado por inspirares mulheres e homens a cuidar não só do que vem considerado útil, mas também daquele inútil de que afinal precisamos tanto: a inútil alegria, a inútil viagem, a inútil beleza, o inútil esbanjamento que é, se pensarmos bem, a amizade e o amor.

Obrigado por quem não tem só fome de pão; por quem não sabe viver, por exemplo, sem fome de liberdade, de inteireza, de igualdade, de fraternidade ou de justiça. E assim, nessa fome que parece apenas terrestre, descobre também o significado do desejo de Deus.

Obrigado por quem se deixa visitar pela imensidão de Deus na vida minúscula e a declina com humildade e leveza, quase sem ruído.

Obrigado por essas e esses habitantes da vida que a abraçam intensamente, sem nunca a fechar. De facto, é no aberto e no amplo, longe de todos os cálculos, distante de todas as cercas, que as papoilas crescem sem porquê.

Obrigado, Senhor, por teres ensinado não só aos seres humanos o cântico da criação, pois realmente o grande coral que entoamos ficaria mais pobre. Tantas vezes me espantou perceber o que sabiam de Ti as flores ou os caracóis do nosso jardim.

 

P. Tolentino

 

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