Recentemente, o 7MARGENS publicou um artigo intitulado “A história notável de resiliência das Testemunhas de Jeová em Portugal, numa exposição”.
Conforme mencionado no artigo, o presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, Dr. Vera Jardim, não poupou elogios às Testemunhas de Jeová (TJ), destacando a sua “notável resiliência” face à perseguição sofrida, tanto no passado, como nos dias de hoje, “designadamente na Rússia”. Embora se devam reconhecer os muitos episódios históricos de perseguição deste grupo religioso, em especial durante o nazismo e, em Portugal, durante a ditadura do Estado Novo com Salazar, existem alguns aspectos que gostaria de apresentar ao leitor.
A organização religiosa em Portugal proclama alto e bom som o apreço pela “liberdade religiosa”, tal como revelam as palavras do seu representante, Pedro Candeias, porta-voz nacional das TJ no artigo do 7MARGENS. De modo a passar uma imagem de beneméritos em prol da sociedade, este mesmo porta-voz afirma que “as Testemunhas de Jeová contribuem para a sociedade de várias formas, nomeadamente na prestação de ajuda humanitária, assistência espiritual e religiosa a reclusos, e programas de literacia quando necessário”.
Estas afirmações tentam assim retirar qualquer estigma que ainda exista na mente dos portugueses, com respeito a esta religião que tanto preconceito tem sofrido. Sei do que falo, pois pertenci a esta confissão religiosa quase 40 anos da minha vida e fui, inclusivamente, ancião (equivalente a pastor ou padre).

Apesar de ser positivo qualquer trabalho em prol da comunidade em que estão inseridas as TJ, é preciso que também se conheçam as práticas repressivas dentro deste grupo religioso, que vão exactamente contra o espírito de “liberdade” que tanto dizem defender.
Ao contrário do que se esperaria de quem advoga a liberdade individual e colectiva, a prática interna da organização religiosa das TJ é autoritária. Qualquer pessoa que questione a doutrina ou decide sair é marcado como “apóstata” e submetido a ostracismo (morte social). Qualquer pessoa que seja expulsa do grupo é também tratada como estando morta. O que significa isto? De acordo com as orientações da organização, os amigos e familiares que são TJ são orientados a cortar todos os laços com quem deixa a fé, levando ex-membros ao isolamento extremo, o que resulta em muito sofrimento psicológico. Apenas familiares que vivam na mesma casa, por exemplo, marido, mulher e filhos, podem manter relações familiares praticamente dentro do normal. A restante família é incentivada e, muitas das vezes coagida, a parar de ter contacto com a pessoa que saiu do grupo. Assim, pais deixam de falar com filhos e vice-versa, avós deixam de ver os netos, etc.
Em suma: enquanto pregam a liberdade para si mesmas, impõem em seu seio regras de silêncio e punição desumanas para quem discorda ou viole as suas regras, em flagrante desrespeito pelos princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que o Estado Português se comprometeu a respeitar.
É neste contexto, que soa perturbador o entusiasmo público do Dr. Vera Jardim pelas Testemunhas de Jeová. Ao destacar a tal “história notável de resiliência” e ao reconhecer “os benefícios desta presença na sociedade portuguesa”, ele ignorou completamente os relatos das vítimas.
Tenho conhecimento pessoal de que já várias ex-TJ falaram com o Dr. Vera Jardim e explanaram o drama vivido pelos ex-membros desta comunidade religiosa. Eu próprio enviei-lhe um email, datado do dia 14 de Julho de 2023, onde expliquei em grande detalhe a violação dos Direitos Humanos por parte desta organização religiosa. Sei que ele também tem conhecimento da Petição criada por Ricardo Pimentel, ex-TJ, que visava pedir à Assembleia da República a “extinção judicial da Associação das Testemunhas de Jeová e cancelamento da sua inscrição no registo de pessoas colectivas religiosas,” com base nesta violação dos direitos humanos e da Constituição portuguesa.
Tendo isto em consideração, em vez de apoiar estas vítimas e até mesmo mostrar desagrado para com estas práticas promovidas pela Associação das Testemunhas de Jeová em Portugal, o presidente da Comissão de Liberdade Religiosa reafirmou comentários elogiosos, contribuindo assim para branquear a imagem deste grupo religioso. Esta postura pública – aliar-se exclusivamente ao discurso oficial das Testemunhas de Jeová e ignorar as denúncias e queixas dos ex-membros – revela insensibilidade pelos abusos e violações dos direitos humanos dentro da comunidade. Se para defender os direitos humanos o Dr. Vera Jardim prega a tolerância, por que fecha os olhos às injustiças cometidas pelos líderes das Testemunhas de Jeová contra ex-membros e dissidentes?
O discurso propagandístico da Associação das Testemunhas de Jeová em Portugal e o aparente desprezo de figuras públicas, como o Dr. Vera Jardim, por vozes dissonantes, não podem calar a verdade. Não se trata de atacar crenças pessoais, mas de exigir responsabilidade social. O público merece saber que o “centenário de resiliência” invocado na exposição tem um lado perverso, feito de sofrimento individual e familiar. É preciso mais transparência e uma cobertura jornalística que não deixe de ouvir os ex-membros e dissidentes.
Em vez de elogiar sem reservas, a Comissão de Liberdade Religiosa deve investigar os casos de denúncias e, caso seja necessário agir, de modo que a violação de direitos humanos e até da Constituição portuguesa parem por parte desta organização religiosa centenária.
António Madaleno é autor do livro Apóstata! Porque Abandonei as Testemunhas de Jeová.










