As Testemunhas de Jeová introduziram uma mudança subtil – mas significativa – naquele que tem sido um dos seus princípios mais controversos: passaram a permitir que os seus membros recorram à remoção, armazenamento e posterior reinserção do próprio sangue durante intervenções médicas. Mantém-se, no entanto, a proibição rigorosa de recorrer a sangue doado por terceiros.
A decisão, anunciada a nível internacional pelo líder Gerrit Lösch, marca uma rutura com a política rigorosa de 75 anos que proibia qualquer forma de armazenamento de sangue fora do corpo, baseando-se no princípio bíblico de que o sangue retirado deveria ser derramado na terra.
Com esta atualização, os cerca de nove milhões de Testemunhas de Jeová em todo o mundo passam a ter liberdade para autorizar que o seu próprio sangue – o chamado sangue autólogo – seja colhido, armazenado e posteriormente reinfundido durante intervenções cirúrgicas programadas.
Questionada pelo 7MARGENS, a Associação das Testemunhas de Jeová em Portugal confirmou esta nova orientação, sublinhando que a Bíblia é omissa quanto ao uso do sangue da própria pessoa e que, por isso, cada cristão deve poder decidir individualmente como quer que o seu sangue seja usado em contextos médicos e cirúrgicos.
A organização reforça que esta clarificação permite aos doentes beneficiar de “métodos inovadores que promovem a segurança” e reflete um equilíbrio entre os princípios bíblicos e os “avanços das práticas da medicina moderna”.
A nível internacional, a medida é vista como um passo significativo, mas insuficiente por críticos e ex-membros. É o caso do norte-americano Mitch Melin que, em declarações à imprensa, referiu que a mudança “não vai longe o suficiente”, uma vez que em situações de emergência — como acidentes graves ou hemorragias massivas onde não houve colheita prévia — a proibição de sangue de terceiros continua a ser um fator de risco vital.
Entre a comunidade médica, esta flexibilização é vista como um avanço, ainda que limitado, dado que facilita o planeamento de cirurgias complexas em pacientes Testemunhas de Jeová, permitindo o uso de técnicas de autotransfusão que anteriormente seriam rejeitadas por muitos fiéis por medo de sanções religiosas.









