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Autores - Maria Aldina Brás

[Entre Margens]

Testemunho de criança agora adulta

| 14/01/2026

Aos meus pais,
Maria Lopes Heleno
e José de Sousa Braz,
que continuam a viver
dentro de mim

Tal e qual na linguagem de uma criança, linguagem da verdade que sempre usei com todos os que fui encontrando pelo caminho, vou partilhar este testemunho.

Nasci na terra, bem como os meus antepassados, nas variadas regiões do globo, e os meus pais morreram na terra. Entendes? No chão. Não havia parteiras, muito menos Maternidades. A minha mãe Maria era a personificação cristã da mulher e mãe. Desde pequenina acompanhava o pai dela nos trabalhos agrícolas, casou e continuava a acompanhar o meu pai no campo, quando ele estava presente. Mas na maioria do tempo, ele andava fora, como operário, como serrador de madeira, como emigrante a trabalhar nas obras em França. Foi para este País, a salto, abriu covas em cemitérios, carregou cimento para construção de grandes edifícios, caiu de um andaime, fracturou a coluna vertebral, ficou hospitalizado durante meses, talvez anos, não lhe era possível enviar-nos qualquer notícia. Deixámos de saber dele durante muito tempo. A minha mãe ficou viúva apenas 4 anos, era-lhe difícil viver sem o meu pai. Na véspera da sua morte, pôs a máquina de sulfatar vinha às costas e foi para a terra. No dia seguinte, todos estavam surpreendidos por ela não aparecer para a missa. A minha irmã encontrou-a no campo, morta com a máquina de sulfatar às costas, gritou, gritou…e o meu cunhado embrulhou-a num lençol e trouxe-a ao ombro, para dentro de casa, para que ninguém a visse assim…

Conseguem entender isto? Foi lá que ela quis morrer…era a casa dela!

Lembram-se, queridos pais, de casas lá na Serra, que recebiam meninas para trabalhar e ganhar a sua sopa, uma vez que em casa delas não a tinham. Lembram-se que essas meninas dormiam no sótão, e quando dava na cabeça aos rapazes da casa, lá iam ao sótão. Quando os viam, as meninas tentavam fugir, levantando as telhas do telhado e escapando a salto para o chão, mas algumas eram apanhadas, engravidadas e só depois conseguiam escapulir-se. Sabem, que ainda hoje há quem apele à violação de mulheres? Lembram-se da Xoca, que só por resmungar, fazia “reco” “reco”, os homens a atiraram para dentro de um poço. Disse-me ontem a São, que eles depois a içaram, quando ela já não falava. Mas pior que estes, era o Manuel, de quem não quero dizer o apelido, riquíssimo, o maior proprietário da Serra. Quando a sardinheira, depois de caminhar 15 Km a pé, chegava com a canastra cheia, para tentar vender sardinha ou carapau, ele comprava a canastra com todo o seu conteúdo e ateava-lhe o fogo, para que não houvesse peixe para a população.

Quando nasceu a Laide, eu tinha dois anos e meio, a mãe pôs-me no berço ao lado da cama, foi então que, pela primeira vez, eu senti necessidade de Transcendência. A mãe foi verificar se eu estava bem, e eu tinha as mãozitas erguidas em gesto de rezar.

Não vale a pena descrever aqui a dureza da vida no campo, vós ainda o sabeis melhor do que eu, e se alguém vier a ler isto, para além da nossa família ou de outras similares, sei que não acreditariam, seriam até capaz de troçar e rir dos rurais.

A localidade da Serra do Porto do Urso situa-se a 3 km a Sul de Monte Real, vila portuguesa do Concelho de Leiria.

No início da segunda metade do século XX ainda não tinha electricidade, nem água (a não ser de fontes e poços) nem estrada de acesso alcatroada quer à sede da sua freguesia (Monte Real) quer à aldeia mais próxima a Sul denominada Amor também do Concelho de Leiria.

“A localidade da Serra do Porto do Urso situa-se a 3 km a Sul de Monte Real, vila portuguesa do Concelho de Leiria.” Foto: Curso de água próximo da localidade.  © Maria Aldina Brás

As condições sociais e económicas eram dramáticas. Os jovens iam para a guerra colonial, os pais de família emigravam, sobretudo, para França, outros países da Europa e mesmo para outros Continentes. O trabalho agrícola ficava a cargo das mulheres e das crianças. Sem dinheiro e sem instrução como poderia ser possível às famílias outro modo de vida?

O trabalho era brutal. Afirmo-o com a mesma honestidade e rigor que caracterizaram toda a minha vida. As crianças começavam a trabalhar antes da idade de ir à escola e assim continuavam. Por exemplo, aos 10 anos de idade, uma criança manejava uma charrua de ferro puxada por duas vacas, para lavrar campos, alguns dos quais de greda (barro ou calcário, que geralmente contém sílica ou argila). Felizmente que poucos ou nenhuns leitores conseguem avaliar o esforço que isto representava.

Em 1959 foi inaugurada a Base Aérea nº5, que obrigou à expropriação de alguns terrenos e casas da referida localidade, mas mesmo assim a estrada que ligou Monte Real a Amor passando pela Serra do Porto do Urso só foi conseguida na década seguinte.

O Pinhal de Leiria, de história conhecida de todos os portugueses, que ia até ao mar, abrangia cerca de 11 000 hectares, na sua maioria no Concelho da Marinha Grande. Era aí que a população da Serra do Porto do Urso e de outras localidades, iam buscar caruma para cobrir o chão dos currais dos animais, e assim obter estrume para adubar as culturas. Este Pinhal era uma floresta de pinheiros bravos de grande porte e de dezenas de metros de altura. Permitam-me que me refira ao poema “ Mãe”, em que eu trabalhava no cimo de uma carrada de caruma para a aumentar ainda, caí e desmaiei. Ficámos apenas a minha mãe aflita, eu desmaiada e as vacas. Apenas os gritos da minha mãe eram audíveis naquela floresta.

“Era aí que a população da Serra do Porto do Urso e de outras localidades, ia buscar caruma para cobrir o chão dos currais dos animais, e assim obter estrume para adubar as culturas.” Foto: Pinhal de Leiria antes do incêndio. © Câmara Municipal da Marinha Grande. DR

“Mãe”
“Nossa Senhora de Fátima!”

Numa frenética súplica
O grito soou
Tão alto que se ouviria
Até na Cova da Iria
Todo o pinhal de Leiria
Ouvia mas não respondia
Nos teus braços apertada
Pelas tuas mãos estimulada
Os teus gritos não ouvia
Inconsciente e paralisada
Da queda do alto da carrada

Depois…
De muito longe…
A voz reconheci…
Muito aflita….
“Nossa Senhora de Fátima!”
Adormecida não entendi
Mas ciciar consegui
“Mãe, estou aqui”

Antes de terminar, gostaria de perguntar que leitores e leitoras, no próximo domingo, serão capazes de optar por candidatos que não se incomodam nem se perguntam como era a vida no antigo regime.

Nota: Parte deste texto está incluído no livro VIDA: Aldina Brás; edição da Sociedade Portuguesa de Autores; 2023.

 

Maria Aldina Brás é geneticista médica e professora aposentada da UNL.

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