Os jovens e a luta pelo clima

Testemunho: Ser mãe de um jovem ativista pela justiça climática

| 10 Out 2023

Clima, manifestação, jovens

O filho de Rita Reino Assunção numa manifestação pelo clima. Foto: Direitos reservados

 

Ser mãe é uma condição para toda a vida – a partir do momento em que ela se gera em nós – e para todas as circunstâncias, nas alegrias e nos sofrimentos. Há mães que sofrem muito pela promessa de deixar os seus filhos serem livres… Nem sempre é fácil, ou melhor nunca é fácil.

Sou católica: estou na Igreja Católica Apostólica Romana inspirada por Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. Sempre tentei cuidar dos que estão perto e dos que nem por isso, e sempre tive a consciência de que sou dona de muito pouco, ou praticamente nada.

O que me faz escrever estas linhas é que sou mãe de um jovem ativista pela justiça climática.

Por trás destes miúdos (os nossos filhos serão sempre “miúdos”) que nestes dias aparecem nas aberturas dos telejornais em momentos mediáticos, há famílias… E, do que me tenho apercebido, são famílias estruturadas que cometeram o “erro” de os formar e os ajudar a dar sentido à sua vida na passagem por esta Casa Comum, lutando por um mundo melhor para todos e não só para alguns… Não tenho visto os lares desfeitos, com crianças abandonadas à procura de uma justificação para extravasar as frustrações contra a sociedade, como tantas vezes, futilmente, a sociedade se apressa a rotulá-los.

Ele, e muitos dos que andam com ele, são filhos de famílias como a nossa (uma família de todos e para todos); são miúdos inteligentes, coerentes e resilientes, trabalhadores e com um desempenho académico acima da média.

Formámos estes “miúdos” para lutarem por aquilo em que acreditam, mesmo que esse percurso seja difícil ou doloroso.

Acredito que o “fim do mundo” não está aqui, ao virar da esquina, porque a minha fé assim me anima a esperança.

Contudo, já estamos na fase do “diz que é uma espécie de fim do mundo” quando uns morrem por caprichos e exploração de outros; quando o lucro, ou a manutenção do nível de vida de uns causa o sofrimento e morte de outros; quando prejudica e mata a Natureza…

Mesmo que o Mundo não acabe já, será que podemos viver em paz quando muitos morrem pela ganância e pela exploração dos recursos que são da Casa Comum, em benefício de alguns poucos?

Será que podemos fechar os olhos ou simplesmente olhar para o lado, perante esta calamidade? O “genocídio”, como os ativistas lhe chamam, e ao qual declaram “guerra”?

O “meu” ativista afirma que deixou de acreditar em Deus, mas eu sei que Deus habita nele. Na realidade, luta todos os dias pela transformação da “economia que mata” – como lhe chamou o Papa Francisco – com o mais cristão e fraternal dos empenhos, por todos os seus irmãos! Não há justiça climática sem justiça social, senão seria só jardinagem (diz ele).

Rezo por mim: para estar sempre à altura deste grande desafio. Dou graças pelo meu casamento e pela força de um amor fraterno que ampara.

 

Que os escutem

manifestacao contra alteracoes climaticas foto direitos reservados

Estes ativistas “só” saíram à rua porque estão desesperados por ninguém os escutar. Foto: Direitos reservados.

 

Estes ativistas “só” saíram à rua porque estão desesperados por ninguém os escutar. Eles estudaram os problemas que enfrentamos, eles debateram soluções… Eles têm tentado fazer escutar a sua voz… principalmente aos governantes e decisores públicos. Lutam pelo respeito à Casa Comum e pelo sonho de um mundo com mais justiça e dignidade para todos.

O meu filho e os seus companheiros dão voz a um grito a pedir ajuda – o clamor da Terra e o clamor dos pobres, um grito de alerta para as condições inaceitáveis em que outros (que não têm voz) vivem e um grito por toda a família humana que vê as condições em que vive a deteriorarem-se para a generalidade, em especial os mais frágeis.

Eles expõem-se, dão a cara, arriscam-se e sujeitam-se a consequências por serem a voz do que não são escutados e para denunciar uma situação que a todos ameaça!

Não tenho medo pelo futuro do meu filho; mas temo, definitivamente, pelo futuro de todos nós, continuando neste caminho egoísta…

Não me aflige que a justiça o condene ou a possibilidade de ter um cadastro por desobediência civil ou outra razão que achem justificada por se manifestar; mas choca-me a injustiça de não se atuar de forma tão expedita sobre quem rouba a coisa pública, quem corrompe ou quem obtém benefícios à custa dos outros e do que é de todos!

Rezo para que o meu coração aguente.

“Depois disse ainda ao seu filho Salomão: ‘Ânimo e coragem! Mãos à obra! Não desanimes nem tenhas medo, porque o Senhor, meu Deus, há de ajudar-te; Ele não te abandonará nem te irá desamparar, enquanto não acabares o trabalho do templo do Senhor.’” (1 Crónicas 28:20).

 

Tenho medo do presente

Tenho medo dos perigos a que se expõe… da possibilidade da polícia o magoar e dos julgamentos injustos que lhe fazem.

Mas tenho igualmente medo das e pelas pessoas que estão esmagadas e a tentar sobreviver e vêem as manifestações destes ativistas apenas como mais um entrave à sua vida já de si difícil.

A necessidade e o desespero que sentem para se exporem como o fazem, para chamar a atenção para os efeitos da inação da governação e da justiça, deveria abrir-nos os olhos e desafiar-nos a procurar compreender…  mesmo que depois se persista na tentação de ignorar, seja por comodismo, ignorância ou por nos sentirmos incapazes de contribuir para uma solução…

Os problemas – eventualmente abstratos na descrição dos ativistas – são tudo menos abstratos, são reais e afetam-nos a todos: os lucros da exploração dos combustíveis fósseis, a falta de legitimidade do “contrato social” do governo por ignorar a injustiça climática, os custos e a falta de habitação, os excessos da aviação e outras indústrias altamente poluentes.

 

Ousar querer mudar o rumo das coisas

Mar e semáforo. Alterações climáticas

“Estes múdos trabalham e estudam horas sem fim, e recusam-se a deixar de tentar mudar o rumo das coisas.” Foto © Kelly Sikkema / Unsplash

 

Estes “miúdos” não são preguiçosos; só quem não os conhece ou só vê breves clips nos media é que pode achar isso. Trabalham e estudam horas sem fim, e recusam-se a deixar de tentar mudar o rumo das coisas.

Podem cometer erros de estratégia, correm o risco de ser usados ou manipulados, mas estão genuinamente empenhados no esforço de tornar este mundo mais justo, mais à imagem e semelhança do que eu acredito que Deus sonhou para todas as Suas criaturas.

Se concordo com tudo o que apregoam e exigem? Não… Se faria tudo deste modo? Também não… Mas não posso deixar de admirar a força e a coragem com que sonham uma vida justa para todos.

Na Bíblia, como reiterou o Papa Francisco na Cidade de Sonhos na JMJ em Lisboa, está escrito tantas vezes “Não tenhas medo”… Eu peço ao Senhor essa fé que me permita não ter medo por eles. Que seja pelo menos com a mesma força que eles têm, porque sei que também sentem o medo que eu sinto…  Não são “robots”, muito menos inconscientes. Quando o meu filho vai e regressa de alguma “ação”, estou longe de imaginar como está o seu coração. Nessa altura nós, mães, temos de nos encher de todas as forças para os receber e cuidar.

Em redor destes “miúdos” há mães, pais, irmãos, avós, gente que os formou para a justiça… E que também sofre com a injustiça de os ver injustiçados e incompreendidos. Em algumas circunstâncias, preferia que ele fosse um pouco mais egoísta, mais fútil, que existisse numa vidinha mais comummente “normal”… Principalmente quando imagino que corre perigo e eu não posso ir lá salvá-lo(s)…

 

Uma preocupação natural

Quando o meu filho começou a participar na Greve Climática, começou animado pela generosidade e a pureza de quem acha que poderia salvar o mundo. Animado por termos tempo, bastando querer.

Passados estes anos, essa ingenuidade transforma-se em desespero pela inação que testemunhamos da parte de quem é decisor e responsável.

Foi por sua iniciativa que escolheu um caminho que o levou para a frente de multidões que se manifestavam pela necessidade de mudar.

Tenho orgulho nessa alegria que ele vivia com a possibilidade de mudança que a força da multidão carregava. Mas essa alegria transformou-se em medo… No medo de que, afinal, nem todos os que constituíram essa multidão teriam essa vontade tão grande para mudar o mundo.

Para mim, foi o medo que vem da consciência de que, impotente, não o consigo proteger sempre, não o posso fechar à chave em casa… Não posso… não é isso que o vai salvar porque ele está certo, ele tem razão – a sua luta é para lutar! E por isso sofro duplamente.

 

Não tenhas medo

Ecologia, combustíveis

Ativistas exigem atenção à crise climática durante a 11ª assembleia do Conselho Mundial de Igrejas em Karlsruhe, Alemanha (Setembro de 2022): Foto: Paul Jeffrey/WCC

 

Penso nos Santos Mártires que morreram por Jesus e como se sentiram aqueles que os amavam e não os queriam perder.

Inspiro-me na grandeza do exemplo de Nossa Senhora… Com tantas, tantas falhas e a tanta distância, procuro inspirar-me nela… Em dar-Lhe o espaço d’Ele para tratar das “coisas do Pai”…

Como mãe de ativistas vivo em suspenso… pois nunca sei quando e onde vai acontecer algo que o põe em perigo. O meu coração fica apertado, em sobressalto. Como mãe, com fé, digo para mim mesma: “Não tenhas medo…” mas, na verdade, tenho medo.

Todos nós podemos e devemos ser e fazer melhor. Todos os que temos Fé e/ou temos sentido de justiça.

Tenho um longo caminho a percorrer… com a Graça De Deus, inspirada e animada pelo nosso Papa, com a ajuda do seu exemplo e os do meu filho, um dia vou conseguir ser melhor e cuidar melhor.

 

Está em jogo o futuro dos nossos filhos

Manifestação. Clima. Greve Climática Estudantil.

Greve Climática Estudantil em Novembro 2019., em Lisboa. Foto © Greve Climática Estudantil

 

Criei e procurei educar os meus filhos para fazer escolhas. Ser verdadeiramente livre para as fazer é um desafio. Educar os filhos, e educar-me a confiar que eles serão capazes de ir tomando a melhor decisão possível em cada etapa do seu caminho, é o meu maior desafio como mãe.

Na recente exortação Laudate Deum, do Papa Francisco, publicada no dia 4, encontro conforto e confirmação nestas palavras:

Duma vez por todas acabemos com a atitude irresponsável que apresenta a questão apenas como ambiental, ‘verde’, romântica, muitas vezes ridicularizada por interesses económicos. Admitamos, finalmente, que se trata dum problema humano e social em sentido amplo e a diversos níveis. Por isso requer-se o envolvimento de todos. Por ocasião das Conferências sobre o Clima, chamam frequentemente a atenção as ações de grupos ditos ‘radicalizados’; mas na realidade eles preenchem um vazio da sociedade inteira que deveria exercer uma sã pressão, pois cabe a cada família pensar que está em jogo o futuro dos seus filhos.” (LD, 58)

As palavras do Papa Francisco, tão consideradas mesmo fora do espaço da Igreja, são um bálsamo para uma mãe como eu, que tem uma Fé inabalável na capacidade de transformar o mundo pelo amor.

Estes “miúdos” não são nenhuns parvos, muito menos preguiçosos. Não são mal-educados nem deliquentes, mas precisam de se fazer escutar. A comunicação social tem a responsabilidade de dar eco das suas preocupações e propostas sem que eles se vejam forçados a recorrer a cortes de estradas ou pintar paredes para que se fale deles – nessa altura já são notícia.

Eles podem fazer escolhas que não são as minhas, mas isso não desqualifica as suas preocupações e não diminui o desespero de quem vê a ciência e as recomendações de especialistas serem absolutamente ignoradas pelos governos nacionais, com alegadas justificações económicas com duvidosa justiça para os menos privilegiados.

As dores deles são as minhas dores. Cá estarei, em família, para acolher todo o que luta contra a economia que mata e a injustiça climática. Deus – Pai Nosso – fez-nos guardiões e responsáveis por toda a Criação e pela Casa Comum, como não ser ativista por esta causa?

Vale a pena ler a exortação do Papa; se não toda, pelo menos os parágrafos 22, 28, 33, 61.

 

P.S.: Sou mãe de mais três, com orgulho em todos, pois cada um, à sua maneira, também luta por um mundo mais justo, também deseja a justiça, também se indigna… Mas seguem caminhos mais serenos e menos dolorosos para o meu coração. Na juventude, também tive a ideia de que dependia de mim salvar o mundo, e empenhei toda a minha energia e força para levar todos a partilhar esse desejo… mas não tive a coragem que ele tem, sendo tão obstinado e radical – lutando pela resolução dos problemas na sua raiz.

 

Ortodoxos denunciam imoralidade do conluio de Cirilo com Putin e a sua guerra

Carta nos dois anos da guerra na Ucrânia

Ortodoxos denunciam imoralidade do conluio de Cirilo com Putin e a sua guerra novidade

No momento em que passam dois anos sobre a invasão russa e o início da guerra na Ucrânia, quatro académicos do Centro de Estudos Cristãos Ortodoxos da Universidade de Fordham, nos Estados Unidos da América, dirigiram esta semana uma contundente carta aberta aos líderes das igrejas cristãs mundiais, sobre o papel que as confissões religiosas têm tido no conflito.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

Sessões gratuitas

Sol sem Fronteiras vai às escolas para ensinar literacia financeira

Estão de regresso as sessões de literacia financeira para crianças e jovens, promovidas pela Sol sem Fronteiras, ONGD ligada aos Missionários Espiritanos, em parceria com o Oney Bank. Destinadas a turmas a partir do 3º ano até ao secundário, as sessões podem ser presencias (em escolas na região da grande Lisboa e Vale do Tejo) e em modo online no resto do país.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This