Testemunhos sobre Manuel Vieira Pinto: um bispo que deixou marcas profundas em Portugal e Moçambique

| 3 Mai 20

Manuel Vieira Pinto na missa do Pentecostes de 1982: depois da independência, o bispo regressou a Moçambique como “um herói da libertação nacional”. Foto: Direitos reservados.

 

“Um homem que deixou marcas profundas na história da Igreja em Moçambique”, é como o padre Arlindo Pinto se refere a D. Manuel Vieira Pinto, bispo de Nampula (Moçambique) entre 1967 e 2000 que morreu na última quinta-feira, 30 de Abril, no Porto, diocese de onde era natural, aos 96 anos, como noticiado no 7MARGENS.

Arlindo Pinto, membro da congregação dos Missionários Combonianos, foi ordenado presbítero por Vieira Pinto, em 1986, em Nampula. Agora, recorda o padre Manuel, “como gostava de ser chamado em Nampula, por ter assumido a causa dos moçambicanos e desenvolver uma pastoral antifascista e independentista” e que, por causa disso, foi perseguido pela PIDE, a polícia política do regime ditatorial do Estado Novo.

A animosidade dos governantes de então foi ao ponto de terem dado ordem de expulsão ao bispo e a onze missionários combonianos, precisamente na Páscoa de 1974, por terem assinado em conjunto, dias antes, um documento com o título Imperativo de Consciência, onde defendiam a autonomia da Igreja e do povo moçambicano. O episódio foi antecedido por manifestações violentas de cerco à catedral, nas quais o jornalista Manuel Vilas Boas foi apanhado, como o próprio contou também no 7MARGENS (e que em Março de 2002 lhe fez uma entrevista, que pode ser ouvida na TSF).

Os onze combonianos expulsos incluíam dois portugueses (Rogério Sousa e Manuel Horta) e nove italianos (os padres Ernesto Calderola, Severino Peano, Gino Centis, Giovanni Zani, Vicente Capra, Graciano Castellari, Daniel Cimitan, Cornelio Prandina e o irmão Luigi Coronini). A revista Além-Mar, dos Combonianos, publicou logo a seguir um comunicado da Conferência Episcopal de Moçambique que tinha sido censurado: “Todas as formas de desunião” são um “contra-testemunho humano e cristão”, diziam os bispos.

Vieira Pinto chegaria a Lisboa quatro dias depois de ter sido expulso de Nampula, no Domingo de Páscoa desse ano, 14 de Abril, onze dias antes da mudança do regime. Depois da independência de Moçambique, Vieira Pinto regressou a Moçambique “como um herói da libertação nacional”, recorda ainda Arlindo Pinto. “Por ter lutado em defesa dos direitos das populações autóctones, pela condenação do colonialismo e da guerra colonial e pela defesa do direito à autodeterminação do povo moçambicano”. Mais tarde, acrescenta, o bispo lutaria “com o mesmo vigor de sempre pelo fim da guerra” civil entre Frelimo e Renamo, “cujas atrocidades nunca deixou de denunciar publicamente”.

“Mais que D. António [Ferreira Gomes], foi porventura a pessoa que mais me influenciou e chocou positivamente, pela sua espiritualidade virada para o mundo”, diz entretanto D. Januário Torgal Ferreira ao 7MARGENS. O bispo emérito das Forças Armadas chegou a ser convidado por Vieira Pinto para ir trabalhar com ele em Nampula.

Também o anterior bispo do Porto, António Francisco dos Santos, que morreu em Setembro de 2017, assinalara nesse ano o 50º aniversário da ordenação episcopal de Vieira Pinto com uma nota de “júbilo e gratidão”: “D. Manuel Vieira Pinto esteve sempre do lado das pessoas, da sua dignidade, dos seus valores mais genuínos e da sua luta pela liberdade, pela democracia e pela paz em terra de gentes de bem que têm direito a ser felizes”, afirmou na ocasião D. António Francisco dos Santos.

Manuel Linda, o actual bispo do Porto, recordou à Rádio Renascença que já no seu tempo de estudante “ouvia falar com frequência de D. Manuel Vieira Pinto, que, como bispo de Nampula, foi o homem defensor dos direitos dos indígenas de Moçambique”, que condenou, “desde o primeiro momento, o colonialismo e a Guerra Colonial. “O que fez dele uma persona non grata para o regime do Estado Novo.” E que será “recordado como um dos grandes do Estado moçambicano“, acrescentava.

 

Comunidades cristãs ministeriais em resposta às novas perseguições

Bispo “próximo de toda a gente”, depois do confisco dos bens da Igreja pelo governo de Samora Machel, Vieira Pinto respondeu com a dinamização de comunidades de base. Foto: Direitos reservados

 

O padre José Luzia, que trabalhou também com Vieira Pinto e publicou em 2017 o livro O Visionário de Nampula (ed. Paulinas) disse estar ainda sob o impacto da emoção quando testemunhou ao 7MARGENS as suas memórias do bispo. José Luzia trabalhou com Manuel Vieira Pinto, desde que foi para Nampula, ainda jovem, em 1968.

“Com ele eu, aprendiz de missionário e de padre, fui descobrindo um pastor sempre próximo de toda a gente”, que alargou sempre os caminhos dos jovens missionários “insatisfeitos”, fosse na dinâmica pastoral da Igreja “como nas suas incidências políticas”. “Conheci, na prática, um bispo não-clerical e animador da participação de todos os baptizados, do pé descalço ao engravatado tanto ao gosto, hoje, do Papa Francisco”, acrescenta.

Para este missionário, Vieira Pinto era um “gigante de Portugal e da Igreja” Católica: “Senti, ao vivo, como um profeta, que atrevidamente nos desafiava à insubmissão contra todos os fatalismos e resignações – políticas e eclesiásticas costumeiras – vivia do sonho de Deus para o mundo” e foi um “precursor do Papa Francisco, nos imprevisíveis gestos e palavras”, afirma.

Quando Vieira Pinto completou 90 anos, o padre Tony Neves, que integra os Missionários do Espírito Santo, escreveu um texto em que recordava um encontro com o bispo em 2000, em Nampula.

A ideia era fazer uma entrevista para o jornal da congregação. Acabou numa “conversa fantástica” e o bispo a prometer enviar respostas por escrito – que nunca chegariam.

“Depois de muita luta pastoral através do Movimento por um Mundo Melhor [MMM], Vieira Pinto foi enviado para Moçambique, “talvez para o afastar de Portugal”, dizia Tony Neves. A sua voz continuou a fazer-se ouvir, e continuaria mesmo depois da independência. (O MMM era um dinamismo de evangelização, criado em Roma pelo padre jesuíta Ricardo Lombardi.) “Era uma das raras figuras da hierarquia da Igreja que as novas autoridades do país respeitavam”, recorda o actual responsável da comissão Justiça e Paz dos Espiritanos a nível internacional.

“Tal não impediu que o governo de Samora Machel mandasse confiscar todos os edifícios da Igreja e impedisse a circulação dos missionários. Como resposta pastoral, D. Manuel e outros bispos e missionários lançaram o projeto das comunidades ministeriais, onde o padre não aparecia mas os líderes leigos asseguravam a vida e as celebrações das comunidades. Talvez por esta contingência da história, hoje Moçambique tem uma Igreja bastante descentralizada e com muito empenho dos leigos na vida e missão das comunidades cristãs.”

 

“Gatilhos puxados em Lisboa”

Fernando Gomes da Silva, engenheiro agrónomo que foi ministro da Agricultura de 1995 a 1998, não conheceu pessoalmente Vieira Pinto, mas sentia nele, “como muitos católicos” da sua geração “quase tudo o que, com raríssimas excepções, faltava no episcopado da Igreja portuguesa”. Vieira Pinto foi, depois de Sebastião Soares de Resende (bispo da Beira, também em Moçambique) “a presença viva da recusa permanente do domínio colonial português “e de uma guerra à qual só o 25 de Abril de 1974 pôs fim.

Gomes da Silva esteve também mobilizado para a guerra em Angola, durante 27 meses. E recorda, num depoimento ao 7MARGENS: “Procurei, sem nunca ter encontrado, uma palavra da minha Igreja e dos meus bispos condenando essa guerra em que era obrigado a participar. Muitas vezes afirmei, ao longo desses meses de ‘exílio no mato de Angola’ que, se éramos nós que tínhamos as armas na mão, os respectivos gatilhos eram puxados em Lisboa. Revejo-me, ainda hoje, nas palavras de D. Manuel Vieira Pinto: ‘a guerra é um mal e uma fonte de males e a paz jamais virá das armas’. Mas nesse domínio encontrei sempre um ensurdecedor silêncio por parte dos meus bispos da altura, com a excepção já por muitas vezes salientada de D. António Ferreira Gomes.”

E foram homens como Vieira Pinto, Sebastião Resende, Ferreira Gomes e poucos mais que o ajudaram a manter a fé, diz Gomes da Silva. E a resistir aos tempos difíceis.

No funeral de Ferreira Gomes, em Abril de 1989, o próprio Vieira Pinto dizia, citado no jornal O Comércio do Porto: “Há três homens da Igreja que me marcaram: o padre Lombardi, [o Papa] Paulo VI e D. António Ferreira Gomes.”

Manuel Vieira Pinto cumprimentando responsáveis muçulmanos, numa festa a 8 de Dezembro de 1970. Foto: Direitos reservados.

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