Teu será o riso, santo e contagiante

| 16 Fev 2022

[VI domingo do tempo comum – c 2022]

[a árvore e o cardo / o vento tange / − água de sombras. Foto © Joaquim Félix]

 

1. Diante de certas imagens, que fazem ainda as palavras?
Retraem-se, como quem sabe que ficaria sempre aquém.
«Não tenho sequer sentimentos para esta infinita dor!»
É a expressão de um homem da multidão, em Marrocos,
que, no seu desolado ‘De profundis’, esperava a ‘devolução’ do Rayan.
Há, de facto, imagens que dispensam as palavras.
Sem deixar de faltar à solidariedade, acionada pelo menino morto,
− porque o temos presente, tal como seus pais e familiares, diante do altar −,
peço que nos concentremos nas imagens que a Palavra de Deus,
hoje, nos coloca, mesmo em frente aos olhos, pensantes.
De um outro poço vertiginoso que se chama ‘Esperança-da-vida-inteira’,
são imagens que nos estendem do ‘agora’ até um ‘futuro’ de consolação.
Sim, sem nos deixarem irresgatados das lágrimas e do abismo da morte.
Lavemos então os olhos neste poço de prolações, de demoras existenciais.

2. Jeremias transmite o oráculo do Senhor, sobre a confiança,
através de imagens claras à compreensão dos seus ouvintes.
Quem é que deles não sabia a sorte de um «cardo na estepe»?
Ou desconheceria a vitalidade de uma «árvore plantada à beira da água»?
Serve-se destas imagens para dizer que, ter ou não confiança em Deus
não é algo de ‘indiferenciado’, um ‘tanto vale’: a sorte não é a mesma.

3. Embora a esperada chuva tenha chegado hoje,
(por certo para abençoar a entrada ao serviço do novo arcebispo, D. José Cordeiro),
sabemos que estamos a passar por um «ano de estiagem».
Falta água nas albufeiras para a produção de energia e o regadio,
e os montes ardem como nunca se viu durante o inverno:
desde 1 de janeiro até 1 de fevereiro, só no Alto Minho, arderam 1.282,5 hectares!
Tal como as imagens usadas por Jeremias,
servem estas outras para mostrar como pode uma pessoa tornar-se,
se afastar o seu coração de Deus, deixando de n’Ele confiar,
para colocar toda a esperança na frágil ‘carne’ humana, isto é, na autossuficiência.
Quem assim proceder será como um monte reduzido a cinzas,
que nem sabe o que será a floração das acácias e das giestas, dos matos e das urzes,
nem a musicalidade da vida semelhante ao zumbido do ‘povo da erva’,
para citar o título de um filme (realizado por Claude Nuridsany e Marie Pérennou).

4. Grande desolação será a das ‘pessoas-de-cardo’,
que não se apercebem quando chega a felicidade.
Grande será, repito, quando se perde a capacidade do discernimento,
e se passa ao lado da felicidade na hora em que ela poderia primaverar a vida.
Ao contrário, se aproximarmos o coração de Deus, até ao íntimo dos íntimos,
na confiança e na alacridade da esperança,
seremos como uma albufeira cheia até à cota máxima,
em magnífico espelho azul de céus e verdes montes,
a debitar água para o regadio de vinhas, prados e pomares;
a produzir luz para as casas e eletricidade para as fábricas.
Não temeremos, com inquietação, que nos fechem as comportas,
e, ainda assim, se vejam as ruínas de casas há muito afogadas,
como sucede na albufeira do Alto Lindoso.
Se pusermos a nossa confiança no Senhor,
prolongaremos o eco destas imagens, como no primeiro salmo,
com estrofes novas, a salmodiar a nossa vida, verde e frutuosa.

5. «Se é só para a vida presente
que temos posta em Cristo a nossa esperança,
somos os mais miseráveis de todos os homens» (1 Cor 15,19).
Por vezes, temos a perceção de que esta ‘redução da esperança’ de alguns coríntios
é algo que se tem generalizado velozmente em nossos dias.
E, por isso, a vida murcha e seca, arde e acinzenta-se.
Não obstante certas abundâncias, até supérfluas,
assemelha-se a vida a palhas varridas pelo vento.
«Mas não!» (1 Cor 15,20). Não. Não. Não.
Com este corte na Carta, S. Paulo entusiasma os seus amados leitores,
para a fé na ressurreição dos mortos, em Cristo,
que ressuscitou como o primeiro fruto aparecente já na primavera.
Cultivemos, por isso, também nós, um ‘alargamento da esperança’
que rompa os limites da vida presente,
como peregrinos de um caminho longo, para lá da morte.

6. Como havemos de cuidar deste caminho longo, a alargar horizontes,
para que a nossa fé não seja vã? E não sejamos ‘miseráveis’…
Bem, se queremos mesmo saber, e fazer da fé um afã, uma tarefa,
encaminhemo-nos para a planície do evangelho.
Jesus desce do monte, qual ‘novo Moisés’, na companhia dos ‘doze’.
Porém, em vez de palavras epigrafadas em tábuas de pedra,
apresenta-se com imagens que esculpe na carne dos corações ouvintes.
Dirige-as não a poucos ou a escolhidos, à seleção judaica,
mas a «numerosos discípulos e uma grande multidão».
S. Lucas tem o cuidado de referir as proveniências,
até porque Jesus encontra gente de todo o lado, digamos assim,
mesmo de onde não se esperaria que viessem escutá-Lo.
Neste ‘sermão da planície’, Jesus alarga e alimenta a esperança.
Ao contrário de Mateus, Lucas coloca Jesus, não na montanha,
mas no aberto ao largo, onde mais poderiam aceder à sua Palavra.

7. Que paisagens assombrosas! Serão de palavras avessadas?
Nem por isso. Só verá ‘avesso’ nelas quem vê a morte como ‘termo irremediável’
e coloca a esperança «só para a vida presente» (1 Cor 15,19).
Jesus estabelece o caminho longo, a peregrinar por todos,
entre o ‘agora’ e o ‘futuro’, o tempo e a eternidade,
um presente que se apresenta como campo semeado de felicidade.
Os seus olhos acompanham a sua Palavra de imagens:
«Bem-aventurados, vós», pobres, esfomeados, plangentes, odiados!
Note-se, porém, a bem-aventurança é para o ‘agora’, o ‘já’.

8. Os verbos são claros, conjugados no presente.
Como poderá ser isto? Jesus multiplica as possibilidades da felicidade?
Nem mais! E não enjeitaria fazer por menos!
Reinar, saciar, rir. Alegrar e exultar.
Quem poderia usar desta concretização e desta promessa?
Jesus. Só Jesus. Como cumprimento da vontade de Deus.
És pobre segundo o espírito? Tua será a posse do seu Reino.
Tens fome? Fome de justiça? Serás saciado como num banquete.
Choras? Porque choras? Teu será o riso, santo e contagiante.
Por seres cristão, infamam o teu nome, como proscrito,
e praticam contra ti o ‘bullying’ da rejeição e do insulto?
Alegra-te e exulta!, diz Jesus.
É difícil de entender, como rezar pelos inimigos (cf. Mt 5,44), não é?
Quando lemos as Atas dos Mártires,
lançados aos leões, aos leopardos e às vacas bravas,
ou colocados sobre fogueiras e grelhas, crucificados ou degolados…
e nos dizem que muitos deles cantavam e sorriam serenamente,
não vemos neles quaisquer expressões de sadomasoquismo…
Antes, depreendemos como se sentiam sujeitos do reino, da saciedade e do riso,
que Jesus prometeu no ‘sermão da planície’.

9. Jesus, porém, não se escusa a dizer palavras duras, duríssimas mesmo!
Reserva-as para os ricos, os ridentes e os omnielogiados.
Ai de vós! Ai de vós! Ai de vós!
Sobre estes, que colocam unicamente a sua esperança
no homem, na carne (cf. Jer 17,5) e na vida presente (cf. 1 Cor 15,19),
choverá um Ai que atordoará os ouvidos.
Para eles a morte será a costureira que virará a sua vida do avesso.
E como quem espeta uma agulha no dedo sem dedal,
assim será o seu grito faminto, jeremiado, desgabado…

10. Eis porque volto a repetir:
Ter ou não confiança em Deus
não é algo de ‘indiferenciado’, um ‘tanto vale’: a sorte não é a mesma.
Por dizer tais palavras, Jesus sente-se como um profeta a ser maltratado.
Como profeta, sim, que, à diferença dos ‘falsos’, é criticado.
Depois destas imagens, que ouvimos sentados nesta planície,
decidamo-nos: Alargamos o horizonte da nossa esperança?
Somos livres para aceitar tais paisagens e para as refutar.
Somos livres para comer o Pão do ‘sorriso divino’, o seu Corpo,
e beber do cálice o seu Sangue, para sermos «como árvore plantada à beira da água».
De uma coisa estejamos persuadidos:
Agora chega a felicidade!
Será que percebemos isto?

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Triságia.

Este texto corresponde à homilia de domingo passado, 13 de fevereiro, na liturgia católica; as leituras bíblicas do dia eram extraídas de Jeremias 17, 5-8; Salmo 1, 1-2.3.4.6; R. Salmo 39, 5a; Primeira Carta aos Coríntios 15, 12.16-20; e Evangelho segundo Lucas 6, 17.20-26.

 

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