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Taylor Hawkins, música, Foo Fighters

Homenagem ao baterista dos Foo Fighters

“There goes my hero” ou a liturgia de despedida de Taylor Hawkins

| 23/09/2022

Taylor Hawkins, música, Foo Fighters

Concerto de tributo de mil músicos a Taylor Hawkins, baterista dos Foo Fighters, em Paris. Imagem reproduzida do vídeo do YouTube

 

Morreu no fim de Março de 2022, ao que parece com uma falência cardíaca devida ao consumo de substâncias ilícitas: Taylor Hawkins, considerado por muitos o melhor baterista de rock da atualidade, um elemento essencial da banda de rock Foo Fighters. Quem seguiu a sua carreira, mas especificamente a fase em que se tornou o baterista dos Foo Fighters, recordará Taylor Hawkins como uma figura quase diáfana, tocando com os seus longos cabelos loiros ao vento, um sorriso constante, uma batida como se o mundo fosse acabar e cada solo fosse o seu último solo, diante de um público em festa, alimentado por Dave Grohl, o vocalista próximo dos fãs, considerado o vocalista de uma banda de rock mais simpático do mundo, interessado, acima de tudo, no seu maior amor: a música, a celebração da música.

A morte de Taylor Hawkins cobriu os Foo Fighters com um manto de silêncio: tournées e espetáculos cancelados; desaparecimento dos elementos da banda do espaço público e, sobretudo, a remissão ao silêncio de Dave Grohl.

Seguiram-se homenagens de fãs: a reunião de mil músicos (bateristas, guitarristas, baixistas) e cantores tocando e cantando a icónica canção My Hero, que não tinha sido feita para ele, mas que adquiriu um significado especial após a sua morte.

Taylor Hawkins, música, Foo Fighters

O concerto de tributo em 21 de Maio, no Stade de France, em Paris. Imagem captada do vídeo do YouTube.

 

No dia 3 de Setembro ocorreu em Wembley uma homenagem promovida pelos Foo Fighters e pelas suas famílias: um concerto que se iniciou com uma entrada dos elementos do grupo em palco. Uma entrada solene. Um estádio cheio. Um desenho gigante de um falcão – “Hawkins” significa falcão em inglês. A mensagem inicial de um Dave Grohl contido, enquanto o baixista chorava abertamente, deu o tom à homenagem: celebrar a vida de um baterista excecional, de um grande amigo, celebrar a música, que ele amava.

Seguiram-se seis horas de concerto e de mensagens de músicos que tinham tocado com Taylor Hawkins ao longo da sua carreira. Muitos. Ao que diziam, Hawkins fascinava-se e fascinava com o seu amor à música. Gostava particularmente dos Queen. E foi num estádio no escuro, com um ambiente litúrgico, com milhares de luzes de telemóveis acesos, que ocorreu um dos momentos mais belos do concerto: a união de dezenas de milhares de vozes que cantaram, juntamente com Brian May (guitarrista dos Queen) Love of My Life, uma das canções mais icónicas dos Queen.

 

Era impossível que um concerto de despedida, de “encomendação do corpo” de Taylor Hawkins, não incluísse a canção My Hero – “Lá vai o meu herói” – cantada pelos Foo Fighters e por milhares de vozes, como numa oração, com um baterista que não podia deixar de ali estar e de a tocar: Shane Hawkins, filho de Taylor Hawkins. Um furacão com dezasseis anos que parecia possuído pela saudade, a raiva, o desespero: “There goes my hero”:

Antes de acabarem, Dave Grohl, sem conseguir conter as lágrimas, canta Times Like These – canção que vem sempre a propósito quando um acontecimento muda o mundo (como foi o caso da pandemia), quando um desgosto atinge como um raio, mas quando, mesmo a custo, mesmo entre muitas lágrimas, se canta: “It’s times like these you learn to live again/ It’s times like these you give and give again/ It’s times like these you learn to love again/ It’s times like these time and time again.” (“É em tempos como estes que se aprende a viver novamente/ É em alturas como estas que se dá e se dá novamente/ É em tempos como estes que se aprende a amar novamente/ São tempos como estes, uma e outra vez.”)

Ao ver o concerto, lembrei-me de um padre que me dizia, há muitos anos, que um concerto pode ser um momento mais espiritual do que um ritual litúrgico de qualquer religião. Este foi, sem dúvida, um ritual de despedida. Um momento de uma espiritualidade intensa, em que a morte não teve a última palavra. Quem a teve foi a música e a capacidade de se reerguer, mesmo em “tempos como estes”, porque são “tempos em que se aprende a dar, a viver, a amar de novo”.

 

(O concerto de homenagem com mil músicos e cantores pode ser visto a seguir:)

Teresa Toldy é professora universitária de Ética e teóloga; publicou Deus e a Palavra de Deus nas teologias feministas (Ed. Paulinas)

 

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