
Desenho: Thich Nhat Hanh a propósito da Black Friday © Felton Davis (2019) | Wikimedia Commons
Regressei ao cristianismo. Mas fui budista zen cerca de quinze anos, integrada na orientação budista zen do mestre japonês Taisen Deshimaru (Associação Zen Internacional); tendo como mestre um dos seus discípulos, Raphael Doko Triet. Gostaria de lhe prestar aqui a minha homenagem pois aprendi muito com ele, ligando-nos ainda – embora à distância – uma profunda amizade.
Confesso que também me fascinaram – quase em simultâneo – as leituras que fiz do mestre Thich Nhat Hanh, pelo seu budismo muito empenhado na compaixão pelos outros. Sendo estes “outros”, toda a gente, dentro e fora do seu âmbito e religião. O texto da União Budista Portuguesa (UBP) a propósito da sua morte explicita a odisseia pacifista que ele e um punhado de monges fizeram durante a guerra do Vietname; a sua ida para os EUA para continuar “essa batalha” e anos depois o seu refúgio em França, continuando a dar os seus ensinamentos que expandiu pela Europa e pelo mundo.
Mas o que me fascinou ainda mais nele foi a aproximação que fez entre Buda e Jesus, visto que, mesmo inconscientemente, eu nunca me afastara de Jesus. Não posso citar as palavras do autor, pois esse livro foi emprestado e nunca mais devolvido, mas Thich Nhat Hanh escrevia aí que um europeu deveria seguir a religião dos seus antepassados e explicava as suas razões. As suas palavras não foram em vão, visto que eu regressei ao meu ponto de partida.
Nesta obra (Thich Nhat Hanh, Bouddha et Jésus sont des frères, Les Éditions du Relié), escreveu que encontrou na Europa e América do Norte, “cristãos que incarnavam verdadeiramente o espírito do amor, a compreensão e a paz de Jesus. Graças a eles, toquei Jesus profundamente e vi-o como um mestre espiritual, um antepassado espiritual”.
Diferenciando os princípios das duas religiões muito claramente, acrescenta noutra passagem: “Quando vocês praticam a respiração consciente… – inspiro, sei que a energia da cólera está em mim / expiro, abraço a minha cólera – quando estou encolerizado, é melhor não dizer nada, não agir nem reagir… a energia da plena consciência está viva em vós, pois continuais a respirar em plena consciência… e esta energia é o Buda dentro de vós. Este é a verdadeira energia… se fordes cristãos, acontece algo similar. Deveis estar conscientes [que num dado momento] o espírito do mal – como vós chamais – está em vós: cólera ou desespero ou violência ou ódio… vós pedis a Jesus que se manifeste dentro de vós, orando, lendo um excerto da Bíblia, e conseguireis controlar e transformar essa energia negativa… O Espírito Santo é a energia que se pode fazer presente, transformando esse mal em amor, compreensão e cura… Esse Espírito Santo é a energia da ‘plena consciência’.”
Concluo este pequeno comentário com a consciência de alguém que fez uma grande viagem, alargando horizontes, escalando montanhas e vendo precipícios e que depois regressou a casa, tranquilamente.
Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário.










