O TikTok continua a expor utilizadores vulneráveis, nomeadamente jovens adolescentes, a informações sobre métodos de suicídio e conteúdos que normalizam a automutilação, o desespero e as ideias suicidas, revela a Amnistia Internacional (AI). A organização afirma ter obtido, através de investigação própria desenvolvida em França, “novas provas de claras violações do Regulamento dos Serviços Digitais (DAS no acrónimo em língua inglesa) por parte do TikTok”.
No documento enviado à redação do 7MARGENS e publicado no dia 20 de outubro, a organização expõe como a investigação realizada mostrou que “apenas três a quatro horas de interação com o feed ‘Para ti’ do TikTok, as contas de teste de adolescentes foram expostas a vídeos que romantizavam o suicídio ou mostravam jovens a expressar intenções de acabar com as suas vidas, incluindo informações sobre métodos de suicídio”.
Através destes vídeos a plataforma consegue “fidelizar” a audiência juvenil e aumentar o número de minutos diários gasto a visionar conteúdos de acesso gratuito, mesmo se à custa de induzir os adolescentes num processo de adição e dependência que aprofunda as tendências depressivas e tem levado um número cada vez maior de crianças e jovens ao suicídio.
Perante estes factos, a Amnistia Internacional pede que sejam “urgentemente tomadas medidas vinculativas e eficazes para obrigar o TikTok a finalmente tornar a sua aplicação segura para os jovens na União Europeia e em todo o mundo”.
A Comissão Europeia tem levantado vários processos e iniciado investigações à plataforma chinesa, que terá mais de 135 milhões de utilizadores mensais ativos no espaço europeu, quer por suspeita de interferência em eleições em países da União Europeia quer por não respeitar o regulamento específico das “plataformas online muito grandes”.
Uma das últimas investigações da Comissão concluiu que a empresa não cumpre as obrigações de transparência que permitem “aos investigadores e à sociedade civil detetarem anúncios fraudulentos, campanhas de ameaças híbridas, bem como operações de informação coordenadas e anúncios falsos, nomeadamente no contexto de eleições”. Esta conclusões preliminares foram enviadas à empresa a 15 de maio deste ano.
Tocas de coelho assassinas

Dados recolhidos num estudo mostram que o sistema de recomendação do TikTok rapidamente aumenta a proporção de conteúdo triste ou depressivo mostrado às crianças e jovens. Foto © Aflo images
Pelo seu lado, a investigação conduzida pela Amnistia Internacional, intitulada Dragged into the Rabbit Hole (Arrastado para a toca do coelho), destaca o fracasso contínuo do TikTok em abordar os riscos sistémicos do seu design que afetam crianças e jovens. “A nossa investigação técnica mostra a rapidez com que os adolescentes que manifestam interesse em conteúdos relacionados com a saúde mental podem ser atraídos para ‘tocas de coelho tóxicas’”, revelou Lisa Dittmer, investigadora da Amnistia Internacional para os direitos digitais de crianças e jovens.
Os investigadores da Amnistia criaram três contas de adolescentes, duas femininas e uma masculina, registadas como tendo 13 anos e residindo em França, para examinar manualmente a amplificação algorítmica do conteúdo no feed ‘Para ti’ do TikTok. Cinco minutos após começarem a navegar e antes de sinalizarem quaisquer preferências, as contas encontraram vídeos sobre tristeza ou desilusão. Assistir a esses vídeos aumentou rapidamente a quantidade de conteúdo relacionado com a tristeza e a saúde mental.
Cerca de 15 a 20 minutos após o início da experiência, os três feeds estavam quase exclusivamente preenchidos com vídeos relacionados com saúde mental. Cerca de metade desses vídeos continha conteúdo depressivo. E em menos de 45 minutos duas contas mostraram vídeos que expressavam pensamentos suicidas.
Foram realizadas experiências adicionais com o Algorithmic Transparency Institute recorrendo a contas de teste automatizadas de jovens de 13 anos em França. Os dados então recolhidos mostram que o sistema de recomendação do TikTok mais do que duplicou a proporção de conteúdo triste ou depressivo sugerido quando os históricos de visualização incluíam diferentes níveis desses vídeos.
A escolha de França como país onde levar a cabo a investigação deve-se ao facto de o Parlamento daquele país estar prestes a debater medidas que regulem de forma mais eficaz a oferta das plataformas online, com especial foco no TikTok. “No final desta comissão de inquérito, o veredito é claro: esta plataforma [o TikTok] expõe conscientemente as nossas crianças, os nossos jovens, a conteúdos tóxicos, perigosos e viciantes”, escreve Arthur Delaporte, presidente da comissão que o Parlamento francês erigiu para analisar a influência daquela rede sobre os jovens franceses.
O relatório, entregue a 4 de setembro, deverá originar o debate parlamentar e propostas legislativas ainda este ano. Foi realizado a partir de dezenas de milhares de inquéritos, a maior parte junto de adolescentes, centenas de horas de audiência a famílias enlutadas, a colegas de jovens que se suicidaram, a programadores de jogos e de vídeos que apelidam de ‘dramas’, bem como a gestores de plataformas informáticas semelhantes.
“Tiktok, uma das piores redes sociais ao assalto da nossa juventude”, é o título da primeira parte do relatório entregue ao Parlamento francês. O documento prossegue com o capítulo “Apesar da grande juventude do seu público, a plataforma TikTok está concebida para captar a atenção dos seus utilizadores através de conteúdos maioritariamente nefastos” [sublinhados da comissão]. Neste primeiro capítulo, o título da primeira secção é: “Suicídio e automutilação, cánones de beleza malsãos, desinformação médica, violências, discriminações, sexismo e pedocriminalidade – TikTok difunde ao seu público uma multitude de conteúdos nefastos”.
Por todas estas razões, a comissão de inquérito propõe, entre múltiplas recomendações, que a França “continue a trabalhar para impedir o acesso, à escala europeia, de menores de 15 anos a redes sociais”.










