[Segunda leitura]

TikTok sem limite de idade…

| 10 Jul 2024

«…como explicam as autoras Lara Rafaela Costa e Sandra Miranda, “a adesão das gerações mais velhas às TIC [Tecnologias de Informação e Comunicação], nomeadamente à Internet e aos ‘social media’, tem vindo a aumentar e a dar lugar ao surgimento de influenciadores digitais seniores.» Imagem: Influencer © Gerd Altmann / Pixabay

 

 

Isto de “influencers”, afinal, não é só para gente nova… E o mesmo se diga do TikTok que por acaso até é a rede social mais utilizada por… “influencers”!

A que propósito vem a história? A propósito de um interessantíssimo artigo publicado recentemente numa revista académica da área da Comunicação, tendo por título Influenciadores Digitais Seniores no TikTok —perfis e estratégias de comunicação. O ponto de partida, como explicam as autoras Lara Rafaela Costa e Sandra Miranda, é a constatação de que “a adesão das gerações mais velhas às TIC [Tecnologias de Informação e Comunicação], nomeadamente à Internet e aos ‘social media’, tem vindo a aumentar e a dar lugar ao surgimento de influenciadores digitais seniores, conquistando milhões de seguidores e desenvolvendo parcerias com grandes marcas”. E o trabalho empírico que procura mostrar no concreto como isto é verdade revela-nos dados muito curiosos.

A amostra constituída para a investigação consistiu em cinco influenciadoras seniores. E bem seniores, como se pode ver: a alemã Erika Rischko, de 83 anos, a francesa Studio Danielle, de 69 anos, a americana Lillian Droniak, de  93  anos, a brasileira Nair Donatelli, de 92 anos, e a canadiana Grece Ghanem, de 62 anos. Tudo gente já com uma idade e, pelos vistos, também já com alguma experiência em redes sociais, a avaliar pela quantidade de seguidores que têm no TikTok:  Erika é acompanhada regularmente por 1,7 milhões de pessoas, Studio por 2,4 milhões, Lilian por 11,8 milhões, Nair por 11,9 milhões e Grece por uns mais modestos 378 mil.

E de que falam – melhor, que é que mostram? – estas influenciadoras nos seus pequeninos vídeos característicos desta rede social? Um pouco de tudo… De acordo com o artigo já citado, Erika Rischko dá preferência a conteúdos sobre exercício físico, “encorajando todas as pessoas, independentemente da idade”, a fazê-lo também, e aposta ainda em danças, que partilha na companhia do marido. Também Studio Danielle apresenta as suas idas ao ginásio, mas mostra-se igualmente a jogar Playstation ou a saborear uns petiscos. Já a americana Lillian aposta em dar conselhos amorosos e em contar histórias engraçadas sobre os seus ex-maridos, alcançando com estas o top das suas visualizações. “Danças, anedotas, receitas e memórias do seu falecido marido” são os temas preferidos de Nair Donatelli, enquanto a mais nova deste grupo, Grece Ghanem, de ‘apenas’ 62 anos, opta sobretudo por conteúdos ligados a moda, cuidados estéticos e danças com a filha.

Mas isto não se faz só por gozo desinteressado. Como compete a qualquer boa influenciadora, todas elas têm também parcerias comerciais com marcas das mais diversas, que acabam por promover com as suas publicações – e com as quais ganham, naturalmente, alguma coisa, seja em dinheiro ou em géneros. E dados os milhões de seguidores regulares que conseguem (sendo certo que nestas faixas etárias não é muito difícil encontrar audiências com tempo livre suficiente para umas horas de computador ou telemóvel), começam a multiplicar-se as histórias de sucesso por estes meandros.

Aliás, já no ano passado o jornal brasileiro O Globo contava como “influencers” da chamada ‘terceira idade’ estavam a invadir o TikTok  — e as marcas, muito atentas a estas novas possibilidades de publicitação e venda de produtos, corriam atrás delas. Ali se escrevia: “Empresas vendendo roupas, produtos de beleza e outros artigos estão descobrindo outros criadores acima da idade de aposentadoria com quem querem trabalhar.” E sintetizava o jornal: “Esses criadores estão tendo sucesso ao compartilharem lições de vida e dicas de moda, conteúdo em gastronomia, interagindo com os netos ou apenas sendo engraçados — ao mesmo tempo em que promovem produtos.”

É deste mundo menos conhecido que nos falam as investigadoras Lara Rafaela Costa e Sandra Miranda, ajudando-nos desde logo a rever ideias feitas sobre presenças e sucessos nas redes sociais mais ‘jovens’. Uma das conclusões mais pertinentes do seu trabalho reza assim: “Um outro aspeto que se evidencia tem que ver com a rutura que estes influenciadores fazem com o estereótipo negativo relacionado com o envelhecimento, rompendo com o status quo e com a imagem tradicional de decadência, fragilidade e incapacidade associada à velhice”. As coisas estão a mudar e mais irão mudando, de certeza. E que bom se elas abrem novas janelas de oportunidade para a comunicação, o convívio, a ocupação de tempos livres, a multiplicação de relações, a recusa do isolamento, por parte da gente menos jovem de idade. Este país (o das redes sociais) também é para velhos…

 

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