Timor-Leste foi traído pela Austrália, acusa Xanana

| 30 Jun 19

Xanana Gusmão, em Outubro de 2002, enquanto Presidente de Timor-Leste, num encontro com responsáveis dos EUA. Foto: Direitos Reservados.

O líder histórico da resistência e antigo Presidente da República de Timor-Leste, Xanana Gusmão, afirmou que o país foi traído por “um país amigo”, a Austrália, referindo-se à actuação dos serviços secretos australianos.

“Sentimo-nos traídos por um país, supostamente amigo, e com o qual contávamos reconstruir” Timor-Leste, disse Xanana Gusmão, em Lisboa, na apresentação da edição portuguesa do livro Passar dos Limites – A História Secreta da Austrália no Mar de Timor. Na obra, conta o JN, a australiana Kim McGrath descreve a acção daquele país em território timorense nos últimos 50 anos.

O lamento e acusação de Xanana referem-se ao que é contado no livro: um esquema de escutas montado em 2004 pelos serviços secretos australianos em escritórios do Governo timorense, em Díli, durante as negociações para um novo tratado para o mar de Timor, denunciada por um ex-agente dos serviços secretos australianos, conhecido como “testemunha K” e cuja identidade nunca foi revelada.

A “testemunha K” e o seu advogado, Bernard Collaery, são acusados de conspiração pelas autoridades australianas e estão a ser julgados no país.

De acordo com a fonte citada, as escutas terão proporcionado ao Governo da Austrália informações que permitiriam favorecer as intenções australianas nas negociações com Timor-Leste, acerca da fronteira marítima e pelo controlo da zona Greater Sunrise, rica em reservas de petróleo e gás. O acordo, que viria a ser assinado, previa que cada país tivesse 50 por cento da área a explorar, embora a maior parte das reservas se encontrasse dentro de território timorense.

Depois de as escutas virem a público, Timor-Leste contestou o tratado e apresentou uma queixa contra a espionagem de Camberra junto do Tribunal Arbitral de Haia, argumentando que, devido às acções do Governo australiano, o acordo era ilegal.

Sempre segundo oJN, Xanana faz um apelo ao Governo australiano para que “reconsidere e pare com a injustiça que está a ser praticada contra Bernard Colleary e contra a testemunha K”. O ex-chefe de Estado timorense sublinha: “Não era a segurança do Estado que estava em causa, mas o facto de se ter utilizado a inteligência militar para espiar assuntos de negócio entre a riquíssima Austrália e o paupérrimo Timor-Leste”. E justificou: “Não era uma questão de segurança. Nós tínhamos acabado a guerra (…) não íamos invadir a Austrália”.

Kim McGrath, a autora do livro, foi assessora de Steve Bracks, político australiano que, desde 2007, foi conselheiro ‘pro bono’ de Xanana Gusmão. Declarando-se uma “australiana orgulhosa”, disse que os documentos com que se deparou durante a pesquisa a deixaram “chocada e envergonhada”, detalhando que o interesse australiano em Timor-Leste remontava pelo menos a 1963. McGrath pretende com este livro que os australianos “conheçam a vergonhosa história secreta” do país, de modo “a que não se repita”.

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