Timor-Leste: zero mortos por covid, graças à cooperação entre Estado, partidos, Igreja e ONG

| 9 Jan 2021

Fronteira Indonésia Timor-Leste

Fronteira Indonésia Timor-Leste: o seu encerramento foi uma das medidas tomadas para conter o avanço da pandemia. Foto: Wikimedia Commons

 

Dez meses depois do início da pandemia, Timor-Leste é dos poucos países do mundo onde não registo de mortes por covid-19, com o número de casos, até ao passado dia 5 de Janeiro, a chegar aos 46. Ao contrário, na vizinha e poderosa Indonésia, que foi potência ocupante de Timor entre 1975 e 1999, o novo coronavírus já provocou mais de 772.000 casos e quase 23.000 mortes.

Estes números resultam de uma abordagem multifacetada, explica a UCA News: desde o início de Março de 2020, além de ter decretado o estado de emergência, o país cortou os laços com o mundo exterior e proibiu todos os voos comerciais internacionais, com excepção de algumas transportadoras de repatriamento.

Ao mesmo tempo, fechou as fronteiras terrestres com a outra metade da ilha (Timor Indonésio), permitindo a abertura de 17 em 17 dias para um máximo de 200 travessias de cada vez; todas as mercadorias eram desinfectadas e era aplicada uma quarentena obrigatória de duas semanas às pessoas que entram no país; as pessoas nas zonas fronteiriças autorizaram o Governo a utilizar as suas casas como instalações de quarentena. Agora, a fronteira está a ser aberta uma vez por semana, com medidas rigorosas de controlo fronteiriço, incluindo testes e quarentena.

De acordo com a mesma fonte, houve um conjunto de medidas rápidas e decisivas por parte do Governo de Taur Matan Ruak, mas também dos responsáveis eclesiásticos e de várias organizações não-governamentais, cuja cooperação contribuiu para o combate eficaz à pandemia.

Logo após o primeiro caso de covid-19 ter sido diagnosticado num cidadão que regressara de uma viagem ao estrangeiro, a 21 de Março, o arcebispo de Díli, Virgílio do Carmo da Silva, ordenou a suspensão das celebrações públicas e das actividades eclesiásticas. Ao mesmo tempo, o uso de água benta, o toque em imagens e o contacto físico entre pessoas nas igrejas, foi também desaconselhado, quer na diocese de Díli, quer nas de Baucau e Maliana, as outras duas daquele país lusófono asiático, onde 95% da população se considera católica.

 

Dinheiro da Igreja “desviado” para apoio aos mais pobres

O gesto mais importante, no entanto, terá sido o de redirecionar, para apoio a pessoas mais atingidas pelos efeitos da pandemia e do seu combate, verbas doadas pela Igreja da Coreia do Sul. Esse dinheiro era para construir uma nova nunciatura e foi destinado pelo bispo de Díli à ajuda na luta contra a pandemia, como noticiou a agência Fides, do Vaticano.

Virgílio da Silva referiu-se às diferentes medidas tomadas como um acto de solidariedade com a Igreja universal e o Papa Francisco, que anunciou em meados de Março que o Vaticano celebraria a Páscoa sem a presença dos fiéis.

Além disso, a Igreja Católica criou um grupo pastoral composto por padres, religiosos e leigos para aconselhamento espiritual. E vários grupos católicos, além da Cáritas, mobilizaram-se para tentar apoio os mais pobres e mais desfavorecidos, num país onde 40 por cento dos 1,3 milhões de habitantes estão classificados como pobres – o rendimento nacional per capita é ligeiramente superior a 1.500 dólares.

Também várias organizações não governamentais e empresas do sector privado se mobilizaram, relata ainda a UCA News, para oferecer às pessoas arroz, ovos e sabão, entre outras coisas.

O Governo, por seu lado, atribuiu um subsídio mensal de 100 dólares (cerca de 82 euros) às famílias com rendimentos mensais inferiores a 500 dólares (410 euros).

A nível político, aliás, o combate à pandemia permitiu um consenso raro entre partidos políticos que se têm enfrentado com veemência. O Presidente da República, Francisco Guterres, foi autorizado a declarar o estado de emergência entre o final de Março e Junho, e os vários rivais políticos aceitaram cortar direitos políticos e constitucionais em nome do combate à pandemia.

O Governo criou também um Centro Integrado de Gestão de Crise, destinado a coordenar os esforços de combate à pandemia por parte do Estado. Mas foi ao nível do sistema de saúde do país, muito incipiente, que também se verificaram progressos importantes, nota ainda a UCA News: no início, o país nem sequer tinha capacidade para analisar os testes, que tinham de ser enviados para a Austrália, implicando quatro dias até saber os resultados. Agora, não só essa capacidade já está instalada, como mais de 16.400 pessoas já foram testadas – um número limitado, mas, como ficou dito, o número de casos não é grande.

Por outro lado, havia um único ventilador, no hospital nacional em Díli, um exemplo de como o país estava mal apetrechado ao nível dos equipamentos de saúde.

O restante quadro social e político do país não é muito melhor: pobreza endémica, administração pública muito ineficiente, políticas voláteis, muitos projectos de desenvolvimento dependentes em grande parte da ajuda estrangeira – Timor é a 20ª nação do mundo com mais dependência de ajuda. E, apesar desse facto, foi possível financiar o apoio a famílias mais pobres ou com mais baixos rendimentos.

Uma forma de aprender, conclui o articulista Rock Ronaldo Rozario, que seria possível, com a cooperação entre toda a sociedade, “derrotar outros males como a pobreza, a corrupção, o desemprego e a instabilidade política da vida nacional”.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

“A grande substituição”

[Os dias da semana]

“A grande substituição” novidade

Outras teorias da conspiração não têm um balanço igualmente inócuo para apresentar. Uma delas defende que estamos perante uma “grande substituição”; não ornitológica, mas humana. No Ocidente, sustentam, a raça branca, cristã, está a ser substituída por asiáticos, hispânicos, negros ou muçulmanos e judeus. A ideia é velha.

Humanizar não é isolar

Humanizar não é isolar novidade

É incontestável que as circunstâncias de vida das pessoas são as mais diversas e, em algumas situações, assumem contornos improváveis e, muitas vezes, indesejáveis. À medida que se instalam limitações resultantes ou não de envelhecimento, alguns têm de habitar residências sénior, lares de idosos, casas de repouso,…

Agenda

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This