A idade não é importante, mas é significativa. Chamava-se Matteo Bonzano e era vigário paroquial de Cannobio, uma aldeia da diocese de Novara, em Itália. Padre anónimo até agora, foi infelizmente notícia de primeira página por se ter suicidado. Um acontecimento terrível. É impensável o que este homem deve ter passado para chegar ao ponto de tomar e levar a cabo esta decisão.
Neste caso, a diocese, com o bispo à cabeça, decidiu não esconder a terrível realidade que deixou a paróquia em estupor. Uma boa decisão por parte do bispo que, no fim de contas, foi quem tomou a decisão final? Eu diria que mais do que boa, muito boa por várias razões, mesmo que pareça estranho. Pode ler-se a comunicação do gabinete do bispo na página da diocese.
O suicídio não é estranho ao clero. A vida pressiona de muitas maneiras até não haver saída possível e o clero é constituído por pessoas sujeitas às mesmas realidades que qualquer outra.
O mais comum é procurar desculpas que acabam por ser patéticas e muito prejudiciais antes de enfrentar esta realidade e, mais ainda, quando no final a verdade acaba por ser conhecida envolta no “sotto voce” dos murmúrios e dos acréscimos daqueles que, sob a premissa do “digo-lhe em confidência, não comente”, acabam por criar – inventar – uma história mais terrível do que realmente é. A nota da diocese pôs fim aos rumores antes de estes terem começado.
Negar que um padre se suicidou e recorrer ao ataque cardíaco envia uma mensagem perigosa e poderosa a outros presbíteros que estão a passar por um mau momento. Porque interpretam que ninguém se preocupa com a sua situação, mesmo depois de morto, e que o importante continua a ser o bom nome da instituição. Um suicídio não é apenas o fim terrível de uma pessoa, é responsabilidade de todos, e na Igreja ainda nos falta a sensibilidade para pensar que um padre pode precisar de uma ajuda muito especializada num determinado momento.
Será que ele foi capaz de dar sinais de que algo lhe estava a acontecer ou, pelo contrário, aguentou-se porque ninguém o ensinou a pedir ajuda? Será que ninguém se apercebeu da sua dor, da sua solidão, do seu medo, ou será que lhe disseram que um padre não pode mostrar fragilidade? É por isso que é tão importante não esconder o suicídio de um padre, porque pode acontecer e, infelizmente, acontece. Deve fazer-nos pensar a todos.
Alguém que decide ser presbítero não pode estar preparado para suportar, para se entregar à Igreja até ao ponto do sofrimento e da solidão insuportáveis. Conformar-se in persona Christi não é isso. A saúde mental e emocional do clero deve ser uma questão primordial.
Embora a formação seminarística deva ser revista na sua totalidade e com carácter de urgência, nem sempre é o único problema.
É a própria estrutura de um modelo ministerial que não é adequado nem à sociedade nem à Igreja do século XXI. Enquanto não acreditarmos seriamente nisso, de nada servirá aconselhar que, quando a vida parece escurecer (e escurece de facto), devemos confiar na oração. A oração é uma coisa demasiado bela e profunda para ser transformada num remédio de xamã tribal.
O Evangelho já avisa que um cego não pode ser guia de outro cego; por isso, quando um padre precisa de ajuda, outro padre nem sempre é a melhor solução. Não é bom que um presbítero que se atreve a pedir ajuda seja encaminhado para um determinado terapeuta “porque é da confiança da diocese”. Em algumas dioceses, isso acontece. A escolha deve ser livre, porque é necessário mergulhar no mais íntimo da pessoa, e esta imersão deve ser acompanhada por quem decide livremente.
Saber que um padre se suicidou, com toda a dor que isso gera, tal como o suicídio de qualquer outra pessoa, deve fazer-nos refletir e não olhar para o clero como a versão quotidiana e próxima do super-homem. A batina ou o clérigo não têm nem conferem poderes sobre-humanos.
Nem a imposição das mãos na ordenação faz de um homem um herói, nem a perigosa “paternidade espiritual” o torna superior e a salvo dos caprichos humanos. Basta compreender que eles são, antes de mais, homens, para dar um grande passo em frente.
Hoje, o suicídio de um padre deveria ser um tremendo abanão sobre o muito que ainda temos de resolver na Igreja.
Descansa em paz, Matteo.
Cristina Inogés Sanz é teóloga e foi membro do Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade por nomeação do Papa Francisco, depois de ter integrado a comissão metodológica de preparação. Autora do livro A Sinfonia Feminina (Incompleta) de Thomas Merton (Paulinas Editora).










