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autores - Dália Fernandes

[Entre Margens]

“Tinham tudo em comum”… até surgirem os conflitos

| 27/03/2026

O cristianismo nasceu sob o signo da partilha e da fraternidade. Os primeiros capítulos dos Atos dos Apóstolos apresentam uma comunidade ideal em que “todos os que tinham abraçado a fé viviam unidos e tinham tudo em comum” (Atos 2,44). A imagem é luminosa: um povo novo, liberto das hierarquias do mundo antigo, vivendo na fraternidade do Espírito. Contudo, essa imagem pertence sobretudo ao horizonte ideal da narrativa lucana. A história que se segue mostra que esse ideal depressa foi posto à prova. À medida que o número dos crentes aumentava, também as tensões sociais começaram a emergir dentro da igreja nascente.

O primeiro sinal dessa fragilidade aparece logo nos Atos: “Naqueles dias, ao multiplicar-se o número de discípulos, os helenistas começaram a murmurar contra os hebreus, porque as suas viúvas eram negligenciadas no serviço da assistência diária” (Atos 6,1). O episódio revela que as desigualdades não ficaram à porta da comunidade. A criação dos sete diáconos, entre os quais Estêvão, procurou corrigir a injustiça e restaurar a comunhão. O conflito não destruiu a comunidade, mas obrigou-a a reorganizar-se em torno do serviço e da justiça.

Outro episódio simbólico é o de Ananias e Safira (Atos 5,1-11), que tentaram enganar a comunidade sobre o valor do terreno vendido. O castigo severo narrado em Lucas não é tanto uma lição sobre a propriedade quanto sobre a autenticidade da partilha. Na teologia lucana, a mentira que rompe a comunhão aparece como uma forma de morte. A generosidade cristã não podia ser mera aparência; exigia verdade interior.

 

Ruínas da Antiga Corinto (Grécia). Foto © Zde, via Wikimedia Commons

 

As dificuldades tornam-se ainda mais evidentes quando o cristianismo começa a expandir-se no mundo greco-romano. As cartas de Paulo mostram comunidades profundamente marcadas por desigualdades económicas e culturais. A cidade de Corinto é talvez o exemplo mais expressivo. A igreja local reunia comerciantes ricos, escravos libertos e artesãos pobres, uma mistura socialmente instável. No capítulo 11 da primeira carta aos Coríntios, Paulo escreve com veemência: “Ora, quando vos reunis, não é certamente para comer a ceia do Senhor, pois cada um se apressa a comer a sua própria ceia, e enquanto um passa fome, outro embriaga-se. Será que não tendes casas para comer e beber?” (1 Coríntios 11,20-22).

A celebração que deveria ser sinal de unidade tornara-se reflexo das divisões do império. O momento destinado a expressar comunhão acabava por reproduzir as hierarquias da sociedade envolvente. Paulo vê nisso não apenas uma falha moral, mas uma negação do Evangelho: “Pois aquele que come e bebe sem distinguir o corpo do Senhor, come e bebe a sua própria condenação” (1 Coríntios 11,29). O “corpo do Senhor” não é apenas o pão partilhado; é também a comunidade viva, formada por pobres e ricos chamados à mesma dignidade.

Outro campo de tensão foi o papel das mulheres. Nos primeiros tempos, elas desempenharam funções de destaque: Febe, “diaconisa da igreja de Cencreia” (Romanos 16,1), Priscila, colaboradora de Paulo (Atos 18,26), Lídia, comerciante e anfitriã de uma igreja doméstica (Atos 16,14-15). As comunidades do caminho de Jesus pareciam contrariar a estrutura patriarcal do mundo antigo. Com o passar das décadas, porém, esse impulso igualitário foi sendo progressivamente limitado.

As chamadas “cartas pastorais” refletem já uma tentativa de enquadramento social: “A mulher receba a instrução em silêncio, com toda a submissão” (1 Timóteo 2,11). A igualdade proclamada “não há homem e mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gálatas 3,28), começava a ceder perante o peso das convenções culturais.

Raphael,_The_Death_of_Ananias_(1515)

“A Morte de Ananias”, de Rafael Sanzio (1515). A pintura representa o momento em que Ananias cai morto após ser confrontado pelo apóstolo Pedro por ter mentido ao Espírito Santo sobre o valor da venda de uma propriedade.

 

Estes conflitos mostram que o cristianismo nascente não viveu num mundo ideal, mas em permanente tensão com a realidade social do seu tempo. A mensagem de Jesus, que proclamava libertação aos pobres e dignidade aos excluídos, foi acolhida por comunidades que ainda carregavam as marcas da sociedade romana: clientelismo, desigualdade e patriarcalismo. Ainda assim, o Evangelho introduziu uma semente de transformação que continuou a germinar, lenta mas persistente.

O cristianismo das origens foi, assim, um verdadeiro laboratório de convivência. Entre tensões e ajustes, procurava traduzir a mensagem de Jesus num tecido humano imperfeito. O ideal da comunhão não foi destruído pelo conflito; foi nele que se purificou. Quando Paulo escreve que “carregai os fardos uns dos outros” (Gálatas 6,2), fala a uma igreja real, feita de fragilidades e contrastes, mas também de esperança numa fraternidade maior.

Hoje, dois mil anos depois, as desigualdades continuam a atravessar as comunidades de fé e a sociedade em geral. O abismo entre ricos e pobres, entre os que têm voz e os que são silenciados, persiste. A história das primeiras comunidades cristãs recorda-nos, porém, que o Evangelho nunca floresceu em sociedades perfeitas. Nasceu no meio de conflitos, tensões e imperfeições humanas. Talvez seja precisamente aí que reside a sua força: não em oferecer uma comunidade ideal, mas em abrir sempre de novo a possibilidade de uma fraternidade maior. Cada geração é chamada a recomeçar esse caminho.

 

Dália Fernandes é mestre e doutoranda em História e Cultura das Religiões pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e professora do ensino básico e secundário. Contacto: fernandes.daliasantos@gmail.com

 

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