AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

“Todo o mundo é composto de mudança”

“Todo o mundo é composto de mudança”

by | 15 Set 19 | Entre Margens, Newsletter diária - título, Últimas

Com a sua intuição e sensibilidade poética, o nosso velho e saboroso Camões enunciava, neste célebre soneto (“Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades”), a mais notável característica do mundo habitado e de todo o universo: “tudo muda”. Mas a expressão mais famosa deste conceito vem de 500 anos antes de Cristo, quando o filósofo grego Heráclito, contra certas ideias feitas, escreveu: panta rhei(“tudo flui”, desliza, desaparece…). Alguns eruditos defendem que não teria escrito rheimas khorei(“está em movimento, dança”), donde deriva “coreografia”. Dir-se-ia que tudo vai evoluindo como uma coreografia sempre nova.

Todas as mudanças na vida – na ligação com as pessoas que amamos, nos projectos, ao mudar de casa ou de país (para melhor ou pior)… – são momentos fortes em que “dançamos com a vida”, a vida que por vezes nos arrebata ou nos deixa meio estonteados. Mas depois, passada a “ressaca”, recordamos como essa experiência fortaleceu o entusiasmo para nunca desistirmos de khorein, “dançar” – não como a “fera amansada” no circo, mas com aquela arte de quem transforma em peças dignas de exposição as velhas latas e garrafas (nem sempre de vinho do Porto…).

Li há dias uma notícia com o título: “Troca de padres não agrada a paroquianos” (Diário de Aveiro, 29 de Agosto). Casos como este são excelente ocasião para esclarecer valores ou razões escondidas, concorrendo para o crescimento espiritual de todos (não só dos paroquianos). Por outro lado, valorizaria o ideal do “grupo perfeito”: é difícil saber ouvir, saber responder, saber concordar e saber discordar – e por isso precisamos de bons exemplos e bom treino. Recorrendo de novo a um antiquíssimo provérbio filosófico: amicus Plato magis amica veritas(“Sou amigo de Platão mas mais amigo da verdade”).

Esta “dança dos párocos”, se em boa “coreografia”, impede o cheiro a mofo e a cristalização num lugar ou tarefa – como se os artistas ficassem colados ao lugar. Também evita uma espécie de idolatria dos bons líderes (como podem ser os sacerdotes bem formados). A vida ensina que não devemos “prender” as pessoas que amamos; e a saber interpretar o sentido das grandes separações, incluindo aquela “grande separação” em que passamos o testemunho da vida.

Os primeiros discípulos de Jesus Cristo não percebiam o porquê de muita coisa dita ou feita pelo seu “coreógrafo” – mas perguntavam e discutiam, obtendo por vezes a resposta de que “a seu tempo” compreenderiam as razões desconhecidas. Se  não tivessem motivos para acreditar na autoridade de quem lhes prometia explicar a seu tempo, não teriam tanto sucesso no “espectáculo de Pentecostes” – em cena já lá vão dois milénios, embora o estilo e qualidade de “palcos e actores” tenha muitos altos e baixos.

Ninguém anda sempre na mesma escola, mesmo se conceituada. E muitas vezes é saudável mudar de local e até de estilo de trabalho. Para bem de quem parte, de quem fica e de quem recebe. O que também aviva a consciência e sentimento positivo de que este mundo é um palco de teatro. O melhor actor é o que mais se treina e não atropela as “falas” dos outros. Quantas vezes, aquele que deixa mais e melhor impressão é apenas um “actor secundário”: aparece menos, mas a ele se deve, mais do que a muitos outros, o sucesso do grande teatro da vida.

Saudades? O citado soneto de Camões não evita um final pessimista: “do mal ficam as mágoas na lembrança – e do bem, se algum houve, a saudade”. Mas não será a saudade a expressão intensa do nosso permanente e profundo desejo do Bem? E não deverá a saudade motivar-nos para criar um mundo cada vez mais justo e agradável?

Nem nos podemos ficar pelo queixume final do Poeta: que o tempo “não se muda já como soía”. É que todos nós temos a tentação de só “votar” naquele tipo de mudança a nosso gosto ou a que estamos habituados…

Contudo, seria grave erro provocar a mudança pela mudança. Não corramos o risco de “deitar fora o bebé com a água do banho”, ou de provocar uma futura catástrofe devido à preguiça e comodismo, que não se dão ao trabalho de pesar as consequências.

Na verdade, se não ensaiamos a coreografia dentro de nós, o grande espectáculo não corre bem. Valha-nos o “grupo perfeito”, para discutir, com realismo, a organização de “coreografias” ao mais alto nível artístico.

Uma boa coreografia tem este encanto: movimento vertiginoso e súbita forma de estátua combinam-se para nos deixar o saudável sentimento de que, no palco da vida, tudo – na natureza, na amizade… –  se pode transformar em beleza sempre nova e sem nunca deixar de surpreender.

[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]

Notícias Relacionadas

Notícias Relacionadas

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Pai Telmo: homem de testemunho eloquente

Evocação

Pai Telmo: homem de testemunho eloquente novidade

A morte e a noite caíram sobre nós demasiado depressa com a notícia do falecimento de Pai Telmo. Os seus 100 anos foram um sopro veloz que não deixou ninguém indiferente e a sua dedicação à Igreja dos mais pobres uma brisa que suavizou muitas dores. [Texto de padre José Alfredo].

Identidade e missão do professor de EMRC na escola

Ensaio

Identidade e missão do professor de EMRC na escola novidade

A identidade e a missão do professor de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC) na escola pode ser vista sob múltiplos pontos de vista; porém, desejo fazê-lo a partir de três palavras ou pilares que considero substanciais. Estruturo esta reflexão a partir do “habitar-se”, do “habitar com” e do “habitar o ainda não”. [Texto de Adriano Batista, intervenção no Simpósio sobre a Educação e Escola em Portugal].

As cápsulas

[Sete Partidas]

As cápsulas novidade

No radio do carro tocava um CD da Rosalía e comecei a pensar no que já me disseram sobre o meu carro, pequeno e velho, dito em várias variações. Não levo a mal. É verdade, mas tem tudo o que preciso. Abrigo do sol, do frio, da chuva e da neve. Confiável. Riscado e muitas vezes sujo por fora, mas por dentro limpo e arrumado. Um pouco na ordem como valorizo as coisas na vida. Menos ostentação, mais conteúdo. [Texto de Inês Patrício, Berlim].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.